Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Preço de commodities atinge o menor valor do século XXI

Preços foram afetados pela crise na China e os temores de que a maior importadora do mundo passe por dificuldades financeiras e um crescimento econômico moderado

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 14h58

GENEBRA - Os preços das commodities atingiram seu menor nível no século XXI, afetadas pela crise na China e os temores de que a maior importadora do mundo passe por dificuldades financeiras e um crescimento econômico moderado.

Segundo o Índice Bloomberg, que compila os preços de 22 matérias primas, os valores estão em seu nível mais baixo desde agosto de 1999. O principal motivo é a queda na demanda do maior mercado do mundo, a China, e que por mais de uma década garantir a expansão dos preços. A expansão do PIB chinês deve ser a menor em 25 anos em 2015.

De uma forma geral, o índice que inclui de ovos ao ouro perdeu 1,9% na segunda-feira, atingindo US$ 86,1, o que ainda foi aprofundado diante de declarações do governo iraniano de que iria voltar ao mercado sem um acordo para limitar a produção com a Arábia Saudita. Na segunda-feira, o índice estava 40% abaixo de seus níveis de 2012 e acumulando uma queda de 17% apenas em 2015.

O resultado foi uma queda de 4% do barril, para um total de US$ 43,4 nas bolsas europeias, o menor valor desde 2009 e distante do recorde de US$ 114 de 2014.  O preço também é 55% abaixo dos índices de agosto de 2014. Nos EUA, o barril chegou a ser negociado a US$ 37,75, com queda de 6,7%. "Esse é um momento épico no mercado do petróleo", alertou Matt Smith, diretor de pesquisas da consultoria ClipperData.

Em menos de um ano, as empresas do setor já demitiram ou fizeram anúncios de futuras demissões envolvendo um total de 100 mil empregados. 

O freio na maior siderurgia do mundo e no maior produtora de carros do planeta - a China - também afetou o setor de minérios. Em Londres, o preço do cobre caiu em 2,6% para atingir seu menor valor desde 2009 e a produção hoje já é bastante superior à demanda mundial.

As estimativas são de que, entre janeiro e junho, 151 mil toneladas de cobre foram produzidos além da demanda. Para 2015, as projeções apontam que o metal que é responsável por servir de termômetro do segmento de minérios deve ter uma expansão de mercado de apenas 2%, uma das menores em uma década. Hoje, quase um quinto de todas as minas no mundo opera com prejuízos.

Até o ouro, considerado como refúgio em qualquer tipo de crise, sofreu ontem uma queda de 0,4%.

No setor de alumínio, além da desaceleração chinesa, as empresas ocidentais terão de concorrer agora com a produção local que, apenas em seis meses, aumentou em 36%.

No setor agrícola, a queda já vem alarmando o segmento há meses. Já na semana passada, o preço do milho foi registrado em apenas metade do que atingiu em 2012. Nos EUA, a Universidade de Minnesota indicou que a renda dos fazendeiros passou de US$ 175 mil por ano em 2012 para apenas US$ 55 mil em 2014. Os dados foram confirmados também por levantamentos realizados pelo Federal Reserve Bank.

Para 2015, a projeção do Departamento de Agricultura é de que a renda média do fazendeiro americano seja a menor desde 2009, com uma queda de 32% e somando em todo o país cerca de US$ 74 bilhões. 

Na Bolsa de Chicago, soja e trigo também perderam valor, enquanto a borracha caiu para seu menor nível em 10 meses na Bolsa de Tóquio. Na Malásia, o óleo de palma perdeu 3% de seu valor em um dia. 

Empresas de diversas partes do mundo também começam a ser afetadas pela queda nos preços no campo. A Deere & Co, produtora de equipamentos, registrou queda de 30% na renda nos seis primeiros meses do ano. Archer Daniels Midland, Bunge e Cargill registraram resultados abaixo do esperado. "O ambiente econômico continua afetado em muitos mercados emergentes onde investimos de forma pesada nos últimos anos", admitiu o CEO da Cargill, David MacLennan. 

No segundo trimestre do ano, a Bunge registrou uma queda de 70% em seus lucros, em parte por conta da economia brasileira. Segundo a empresa, os resultados foram consequência de uma "pressão dramática" sofrida no Brasil e, no mundo, as vendas registraram uma queda de 35,8%. 

No setor de minérios, ações de dezenas de empresas também sofreram, como a gigante BHP Billiton. A companhia perdeu 5,2% em apenas um dia e atingiu seu menor valor desde 2008. 

Na Glencore, na Suíça, a empresa fechou o primeiro semestre com queda de 29% nas vendas diante da redução dos preços do alumínio, niquel e outras matérias primas. A renda da companhia foi reduzida e as ações tiveram uma desvalorização de mais de 50% desde o ano passado. A fortuna de seu dono, Ivan Glasenberg, foi reduzida em um terço, para cerca de 2 bilhões de libras esterlinas.

A queda também repercutiu nas moedas de países com forte dependência na venda de commodities. O dólar canadense, o rublo russo e o Rand da África do Sul foram alvos de quedas importantes.

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