Felipe Rau/Estadão
Schvartz afirma que equipou todo o apartamento para conseguir trabalhar em home office. Felipe Rau/Estadão

'Preço de móveis subiu muito de março para cá', diz consultor de empresas

Além da alta dos valores, Alexandre Schvartz também comentou sobre a demora na entrega dos móveis; o sofá, que deveria ter chegado em 45 dias, está quatro meses atrasado

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

A pandemia mudou os planos do consultor de empresas Alexandre Schvartz, de 48 anos. De mudança de Porto Alegre (RS) para São Paulo (SP), ele pretendia abrir um escritório na capital paulista. Inicialmente, ia até os clientes para realizar o trabalho. Mas no momento em que foi decretada a pandemia e os escritórios dos clientes foram fechados, Schvartz passou a prestar consultoria da sua casa: um estúdio alugado de 33 metros quadrados.

A situação ficou impraticável, porque o espaço era pequeno demais, conta. A saída encontrada pelo consultor foi cancelar o plano de abrir um escritório em São Paulo e comprar um apartamento maior, com o dobro da metragem, no mesmo prédio onde alugava o estúdio. Ele reformou o apartamento e fez um home office para atender os clientes de casa.

“Equipei o apartamento inteiro, fiz toda a parte de marcenaria, comprei eletrodomésticos, móveis, ar-condicionado”, conta o consultor, que desembolsou cerca de R$ 120 mil – a previsão inicial era gastar R$ 70 mil. Uma parte do estouro no orçamento ocorreu por causa do aumento de preços dos produtos. A outra parte foi porque o consultor decidiu renovar a mobília trazida do Sul.

Antes de ir às compras, ele acompanhou de perto a evolução dos preços dos móveis e eletrodomésticos em sites de buscas. “Percebi de março para cá uma curva ascendente abissal muito forte nos preços.” Além dos aumentos, ele reclama da disponibilidade de produtos. O sofá, por exemplo, Schvartz está esperando para ser entregue faz quatro meses e o prazo inicial era de 45 dias.

“A demanda por móveis está tão grande que, em muitos casos, não consigo que o produto seja entregue este ano”, conta a design de interiores Fernanda Moreira, responsável pela reforma. Segundo ela, nos últimos meses, aumentou muito a procura por projetos de home office. “Em quatro meses comprei mais móveis prontos para meus clientes do que no ano passado inteiro.”

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Produtos mais procurados na quarentena têm alta 4 vezes maior do que a inflação

Levantamento mostra que, na média, preços de itens mais demandados subiram 5,80% de maio a outubro, ante 1,35% do IPCA-15; no subgrupo que reúne TVs e acessórios para informática, reajustes chegaram a quase 18%

Márcia De Chiara e Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

O confinamento imposto pela pandemia mudou os hábitos de consumo dos brasileiros que se viram do dia para noite trancados em casa tendo de cozinhar, trabalhar, estudar, tudo no mesmo lugar. E o comportamento de compras desse “novo normal” se refletiu nos movimentos de preços, também turbinados pela disparada do dólar.

Os dez subgrupos de produtos e serviços que registraram as maiores altas de preços nos últimos seis meses foram os mais demandados pelo consumidor. Juntos subiram em média 5,80% no varejo, resultado equivalente a quatro vezes a inflação geral do período, medida pelo Índice de Preço ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) do (IBGE), que foi de 1,35%.

Isso é o que revela um levantamento feito, a pedido do Estadão, pelo economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, Fabio Bentes. A intenção do estudo, que cruzou informações de vendas do varejo do IBGE com as variações de preços medidas pelo IPCA-15, foi avaliar onde estão as maiores e as menores pressões inflacionárias na pandemia.

“A mudança repentina de hábito dos consumidores provocou um choque de preços relativos no IPCA-15 (a prévia da inflação oficial)”, diz Bentes. Isso significa que houve produtos que registraram aumento abrupto de demanda e as empresas não tiveram tempo para ajustar a oferta. O resultado foi a alta de preços. O outro lado da moeda é que, com a mobilidade reduzida, o consumo de produtos e serviços relacionados caiu e os preços também. O recuo dos dez subgrupos com as maiores quedas foi de 3,42%.

Casa

O levantamento mostra que o subgrupo que reúne TV, aparelhos de som e itens de informática foi o que teve a maior alta de preços. Entre maio e outubro, eles foram majorados em quase 18%. Bentes optou por fazer a análise a partir de maio porque logo no início da pandemia as empresas tinham estoque e o impacto da maior procura nos preços não seria tão evidente.

O segundo subgrupo com a maior alta de preço também está relacionado com a moradia, foi de eletrodomésticos e equipamentos (8,88%), seguido por joias e bijuterias (7,2%). Móveis e eletrodomésticos foi o segmento cuja venda disparou com a pandemia e, na sequência, material de construção. 

Fernanda Pacheco sentiu no bolso a inflação dos eletrônicos. Logo no início da pandemia, ela, que é editora de séries, teve de montar uma ilha de edição em casa. Em equipamentos e móveis gastou cerca de R$ 15 mil. Recentemente teve de comprar mais um HD (memória extra) e se surpreendeu. O produto, que tinha comprado por R$ 430, custava R$ 570. “O preço subiu bastante (32,5%).”

José Jorge do Nascimento, presidente da Eletros, que reúne fabricantes de eletroeletrônicos, admite que o setor reajustou em até 10% os preços nos últimos três meses por causa da alta dos insumos importados, impactados pelo dólar, e dos nacionais, principalmente plástico e aço. “Por mais que se faça esforço para entregar produto acessível, inevitavelmente a gente acaba tendo de colocar no preço final.” 

Esses aumentos de preços não espantaram o consumidor, que foi às compras. “As vendas estão surpreendendo”, diz o supervisor-geral da Lojas Cem, José Domingos Alves. Desde que as 285 lojas especializadas em móveis e eletrodomésticos foram reabertas, as vendas têm crescido 30% sobre 2019. 

Estrago

A comida no domicílio foi o quarto subgrupo com maior alta de preços no período, com elevação de 6,62%, diz o estudo. Entre os dez itens com maiores reajustes, oito foram alimentos. O limão lidera a lista (129,7%), seguido pelo óleo de soja (54%), arroz (42,6%). Mas aparecem tijolo (28,7%) e vinho (25,5%).

Apesar de a alimentação não ser o subgrupo cujos preços mais subiram no período, essa é a cesta que provoca o maior estrago no orçamento das famílias e na inflação como um todo. “A sensação de mal estar causada pela inflação dos alimentos nos últimos meses é muito maior do que alta de preços da TV, som e artigos de informática”, diz o economista. É que o consumo de comida não pode ser adiado, independentemente da falta de renda. E pesa mais no bolso dos mais pobres.

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'Indexador' informal da inflação, alimentos espalham alta de preços

Reajuste da comida 'contamina' outros itens e põe pressão sobre indicadores de inflação; no IPCA-15 de outubro, alimentação pressionou 64% dos preços do indicador

Márcia De Chiara e Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

O grande risco de uma inflação provocada pelos alimentos é a rápida contaminação para outros preços. Assim como os combustíveis, os alimentos são preços de referência. Isto é, funcionam como uma espécie de indexador informal de outros preços e, por isso, contribuem para disseminar pressões altistas para as cotações dos demais produtos e serviços.

Em maio deste ano, menos da metade (45%) de todos os preços do Índice de Preços ao Consumidor Amplo- 15 ( IPCA-15) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentava alta. Seis meses depois, em outubro, quase dois terços dos preços (64%) capturados pelo indicador estavam subindo. Essa medida que avalia a fatia de preços em alta no índice de inflação como um todo é conhecida no jargão econômico como índice de difusão.

“A alta persistente dos preços dos alimentos está se difundindo no IPCA adentro”, alerta o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes. Na sua avaliação, esse é um grande risco. “Costumamos dizer que o alimento funciona quase como uma tarifa, isto é, as famílias dificilmente conseguem driblar essa alta de preços, que acaba se espalhando para outros preços da economia.”

Pressão cambial

Para a analista econômica Zeina Latif, os indicadores de inflação foram muito contaminados pela covid-19 e estavam artificialmente baixos. “A cesta do IPCA não estava refletindo um novo padrão de consumo. O que a gente observa é a pressão cambial aos poucos aparecendo”, ressalta.

Ela destaca também que o repasse dos preços no atacado estava baixo e começa a aparecer um pouco mais. “Há um potencial grande para aumento de produtos industrializados, em função do que está acontecendo no atacado. Quando a gente pega os bens finais no IPA (Índice de Preços do Atacado), tira combustível, produtos in natura, também estamos falando de uma variação de dois dígitos.”

Para Fabio Romão, economista da LCA Consultores, ao mesmo tempo que a pandemia levou ao aumento de diversos itens, com destaque para os alimentos, alguns preços agrícolas já estão antecipando uma possível superação da pandemia. “Além dos fatores internos, teve uma demanda muito forte de commodities, principalmente por parte da China, isso reduziu a oferta doméstica e os preços subiram.”

Para os próximos meses, Romão diz que “ninguém sabe se o auxílio emergencial é o empurrão ou o combustível do carro, que pode parar de andar quando o benefício chegar ao fim. A economia ainda vai sentir um tranco no primeiro trimestre do ano que vem.”

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'A gente sente falta de poder comprar fruta', diz vendedor ambulante

No Rio, Washington Silva França cortou uma série de itens da lista de compras de supermercado da família com a redução para R$ 300 do auxílio emergencial

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

Vendedor ambulante de placas decorativas para turistas no centro do Rio de Janeiro, Washington Silva França, de 44 anos, é desafiado a fazer uma lista de supermercado com os produtos que não pode mais comprar, desde que o auxílio emergencial que recebia por conta da pandemia do novo coronavírus foi cortado de R$ 600 para R$ 300, em setembro.

“O que a gente mais sente falta é poder comprar frutas. Minha mulher e eu sempre gostamos, mas os preços de tudo no supermercado subiram, no mesmo momento em que nosso benefício caiu pela metade. Nunca quisemos depender de auxílio, mas foi uma crise que pegou todo mundo em cheio e que ainda não passou.”

Após mais de quatro meses sem poder trabalhar na rua, por conta das medidas de distanciamento social tomadas nos primeiros momentos da pandemia, ele conseguiu finalmente voltar ao trabalho há cerca de um mês, o problema é que os turistas ainda não voltaram. “Trabalho há 20 anos como vendedor. Demorou muito para o auxílio emergencial sair, quando teve a opção de cadastrar, fiquei quase um mês, para conseguir receber. Lembra daquelas filas gigantes na porta das agências da Caixa? A gente nunca vai esquecer.”

O auxílio começou a ser pago no País em abril, mas a família de França começou a receber o benefício de R$ 600 só em maio. “Neste mês em que ficamos sem poder trabalhar e ainda sem receber o auxílio, foi ainda mais difícil. A minha mulher, que é dona de casa, teve um AVC (acidente vascular cerebral) há dois anos, e teve de interromper o tratamento durante a quarentena. Ainda bem que moramos em casa própria e não precisamos pagar aluguel.”

França conta que o movimento de clientes ainda está muito fraco. “As minhas vendas caíram 60% em relação ao que eram antes da pandemia. Antes, eu tirava R$ 150, R$ 200 por dia. Hoje, no máximo R$ 40. As coisas subiram muito de preço e a gente estava contando que o auxílio ficasse em R$ 600 até o fim do ano.”

Ele lembra que o movimento de vendedores da cidade se uniu para a distribuição de cestas básicas nos últimos meses e também promoveu uma vaquinha virtual de R$ 25 mil, dividida para cem camelôs. “Foi o que nos salvou. A gente precisa mostrar que, por mais que as cidades já estejam reabrindo, quem depende da circulação de pessoas ainda está sofrendo muito com a crise.”

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