Taba Benedicto/Estadão
Sonho de viagem internacional do casal Sassi já foi adiado duas vezes Taba Benedicto/Estadão

Preço de passagens aéreas nas alturas frustra planos de quem sonha em voltar a viajar

Demanda reaquecida e querosene de aviação mais caro por conta da guerra na Ucrânia provocam aumentos de até 62% nos bilhetes este ano

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2022 | 14h00

O sonho do casal de professores Rafael e Natália Sassi de viajar pela primeira vez para fora do País teve de ser novamente adiado. Em janeiro de 2021, eles tinham comprado um pacote de viagem de sete dias para o Chile. Próximo do embarque, a viagem foi cancelada devido às restrições sanitárias sob a pandemia. A saída foi trocar a viagem do Chile pelo Nordeste.

“Com a queda do câmbio nas últimas semanas e a flexibilização das regras sanitárias, a gente se animou em ir para fora do País”, conta Rafael. Eles procuraram a agência na qual tinham um crédito de R$ 4,5 mil por conta da troca do pacote. O destino escolhido foi Bariloche, na Argentina. Mas os novos planos também foram frustrados.

Pela viagem de sete dias a Bariloche, o casal teria de gastar quase R$ 20 mil. No ano passado, o custo dessa viagem girava entre R$ 14 mil e R$ 16 mil, segundo cotações da época. Mais uma vez, o casal trocou o destino internacional pelo nacional para encaixar a viagem no bolso. Em julho, embarcam para Lençóis Maranhenses (MA), viagem que, entre hospedagem, passagens e passeios, saiu por R$ 10 mil. “Desta vez adiamos o sonho de ir para fora por causa da passagem aérea, que está bem cara.”

Depois de dois anos de pandemia, muitos brasileiros, assim como Rafael e Natália, voltaram a planejar longas viagens. No entanto, foram surpreendidos com a disparada do valor das passagens aéreas. Em março ficou nítido o estrago que a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou na cotação do petróleo, a base do querosene usado pelos aviões.

Maiores aumentos

Entre janeiro e março, os preços médios dos bilhetes de ida e volta para os destinos nacionais mais procurados subiram até 62% e os de rotas internacionais, até 32%, segundo o site de busca Kayak. O destino nacional com maior reajuste foi Brasília, com preço médio do bilhete de R$ 1.058 em março. Barcelona, na Espanha, ficou no topo da lista dos aumentos das rotas internacionais, com tarifa média de R$ 4.541 no mês passado.

Pesquisa da Decolar, agência virtual, mostra que, de fevereiro para março, o preço médio das passagens aéreas internacionais mais buscadas, partindo dos aeroportos de São Paulo, registrou alta de até 22%. A passagem para Orlando, nos EUA, teve o maior aumento. O preço médio do bilhete de ida e volta em março era de R$ 2.075,71. Para os destinos nacionais, a alta do preço das passagens foi de até 40% no mesmo período, encabeçada por Recife (PE), com tarifa de R$ 559,82.

A inflação das passagens aéreas medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe entre janeiro e março atingiu 6,02% - mais da metade da alta foi em março (3,55%).

“Teve um baita aumento de custos, o combustível de aviação subiu muito, mas, no fundo, subiu muito a procura por viagens também”, diz o coordenador do IPC da Fipe, Guilherme Moreira. Com custos pressionados, este aumento de demanda é a oportunidade para as companhias aéreas recuperarem margens, observa.

Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a justificativa para a disparada de preços das passagens é o peso do querosene de aviação, derivado do petróleo que responde por 40% dos custos das companhias. Em 2021, o preço do combustível subiu 92% e, neste ano, impulsionado pela guerra, aumentou mais 38%. Em 15 meses, a alta foi um pouco mais de 140% no principal custo. “Esta é a causa fundamental para o aumento das passagens”, diz Eduardo Sanovicz, presidente da Abear.

Demanda reprimida

Agências de turismo observaram nos últimos meses uma descompressão da demanda por viagens que havia sido reprimida pela pandemia, especialmente entre os endinheirados.

Voltada ao público de maior renda, a Cactus Travel, de Jundiaí (SP) registrou salto nas vendas nunca visto em quase 30 anos. Alexandre Rossi, proprietário da agência, diz que nos últimos três meses a demanda por destinos nacionais aumentou 50% e a para viagens ao exterior mais do que dobrou. 

“Quem foi no ano passado para Gramado (RS), Fortaleza (CE), por exemplo, e sempre costumava ir para Nova York e Paris, quer viajar e não se importa com o valor da passagem”, diz o empresário. Ele lembra que vários países deixaram de exigir o teste de PCR contra covid-19 e o câmbio também recuou. Nos pacotes internacionais vendidos pela agência para julho, a maior dificuldade hoje é conseguir passagem em classe executiva e vaga em hotéis cinco estrelas. “O mercado de luxo está arrebentando, mas não deixo de vender pacotes baratos também.”

Daniela Araújo, diretora de voos da Decolar, concorda com Rossi. Mesmo com o aumento das passagens, ela observa que, entre o público em geral, há mais gente disposta a viajar e fazer adaptações para driblar os aumentos e viabilizar a viagem. Na forma pagamento, por exemplo, parcelando no boleto e reservando o cartão de crédito para outras despesas.

Em março, as buscas no site por passagens internacionais cresceram 25% sobre fevereiro e 53% ante janeiro. Para os destinos nacionais, houve aumento de 12% em março em relação a fevereiro e de 19% ante janeiro. E para a Semana Santa o acréscimo foi de 80% na procura por passagens ante o mesmo feriado do ano passado. “Antes da pandemia, quando a procura por voos internacionais dava uma puxada, o doméstico se retraia. Hoje tanto a demanda por voos internacionais como por nacionais têm curva crescente”, conta Daniela.

Desde o ano passado a CVC, maior agência de viagens do País, registra a retomada do turismo. Para a Páscoa, a empresa teve crescimento de 60% na procura por viagens em comparação com a mesma data de 2021. Os destinos mais buscados são Porto Seguro (BA), Maceió (AL), Natal (RN), Fortaleza (CE) e Balneário Camboriú (SC).

Apesar de mais de 80% da procura estar voltada para pacotes nacionais, a companhia observa uma recuperação na demanda por viagens ao exterior, porém em ritmo mais lento. O maior interesse é por destinos no Caribe; nos Estados Unidos, Nova York, Miami e Orlando; na América do Sul, Buenos Aires e Santiago; e na Europa, Paris e Lisboa.

 

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Do Uber às passagens aéreas, alta dos combustíveis faz preços dispararem

Desde que a Petrobras anunciou o megarreajuste do preço do diesel e da gasolina, tarifas de quase todos os serviços ao consumidor também tiveram altas expressivas

Renée Pereira e Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2022 | 14h00

A alta no preço dos combustíveis vai muito além dos gastos para encher o tanque do carro. Nas últimas semanas, desde o último anúncio de reajuste feito pela Petrobras - de 18,8% na gasolina e 24,9% no diesel nas refinarias -, vários aumentos foram anunciados. As tarifas de viagens por aplicativos subiram cerca de 6%; as entregas de encomendas (delivery), até 50%; e as passagens aéreas, entre 32% (internacionais) e 62% (nacionais). Isso sem contar o que vem pela frente. As empresas de transporte público reivindicam aumentos de cerca de 20%.

Alimentos e produtos industrializados também sentem os efeitos da alta dos combustíveis, por causa do aumento dos fretes. Hoje, o Brasil movimenta mais de 60% de suas cargas por rodovias, em caminhões movidos a diesel. Como o reajuste impacta o custo das transportadoras, esse aumento também é repassado para o frete. Algumas já conseguiram recompor as perdas, outras ainda estão renegociando os contratos com os clientes para repassar, pelo menos, parte do aumento.

O presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (Setcesp), Adriano Depentor, afirma que a entidade aconselhou seus associados a reajustarem o frete entre 14% e 15%. “A orientação é repassar os aumentos para manter as contas saudáveis. Mas cada um vai decidir o porcentual e a melhor forma de revisar seus preços”, diz o executivo, destacando que as companhias têm contratos de longo prazo com clientes.

Em 12 meses, diz, o valor do frete por quilômetro subiu entre 20% e 28% por causa da inflação e da mão de obra. “Quem viveu os tempos da hiperinflação tem até arrepio de ver a escalada dos preços.”

Efeito bola de neve

Para o presidente da Trevisan Escola de Negócios, VanDyck Silveira, a alta dos combustíveis provoca uma bola de neve na economia por causa dos repasses. Além do preço do frete, que é transferido para outros produtos, o setor de serviços também reflete o aumento. As viagens de carro por aplicativos, por exemplo, ficaram mais salgadas desde o anúncio da Petrobrás. 

Entre os meses de março e abril, o gasto dos brasileiros com despesas essenciais, como combustíveis, alimentos e educação, aumentou R$ 16 bilhões. Desse total, R$ 1,25 bilhão veio do reajuste da gasolina e diesel, segundo dados da consultoria Tendências Consultoria Integrada. Isso explica o avanço de 1,62% da inflação em março, a maior para o mês em 28 anos.

A expectativa é que os preços continuem a pressionar a renda dos consumidores, que vem sendo corroída ano após ano. A economista da Tendências, Alessandra Ribeiro, afirma que, como se trata de um bem com pequena elasticidade, o aumento reduz o espaço no orçamento do brasileiro para outros bens e serviços. “E isso tem um efeito redutor no crescimento econômico.”

Aplicativos e táxis mais caros

O presidente da Associação de Motoristas de Aplicativos, Eduardo Lima de Souza, afirma que a tarifa da 99 subiu 5% e a do Uber, 6,5% por km rodado. “O aumento dos combustíveis foi de 18%, então continuamos com defasagem. Muitos motoristas estão tendo de ampliar a carga horária para manter a renda.” Isso significa trabalhar até 14 horas por dia.

Nesse caso, o consumidor não tem para onde correr. O preço das corridas de táxis também subiu. Em São Paulo, depois de sete anos sem aumento, a prefeitura autorizou o reajuste. O valor inicial da corrida saltou para R$ 5,50, com aumento de 22%. O quilômetro percorrido teve alta de 45%. A tarifa horária, cobrada quando o carro está parado ou em baixa velocidade, subiu 48%, para R$ 49.

“O aumento tinha de sair de qualquer jeito, a categoria estava numa situação delicadíssima”, afirma Luiz Capelo, vice-diretor do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo. Ele conta que, antes do reajuste, muitos motoristas enfrentavam “pane seca”: paravam de rodar por falta de dinheiro para abastecer.

A maioria roda com carros movidos a etanol e gás natural veicular (GNV). Só pequena parcela abastece com gasolina. Dados da Agência Nacional do Petróleo mostram que, nos últimos três meses, o preço médio do GNV subiu 25,86%, a gasolina comum teve alta de 10,93% e o etanol, de 4,15%.

Efeito nas entregas

Outro hábito que caiu nas graças do brasileiro, o delivery também teve suas taxas revisadas pelas empresas. Desde o início do mês, os entregadores do iFood tiveram aumento de 50% no valor mínimo por km rodado, de R$ 1 para R$ 1,50, e outro de 13% no valor da rota mínima (a menor quantia que recebem por uma entrega), de R$ 5,31 para R$ 6. 

Segundo a companhia, o aumento teve caráter de urgência por causa da inflação e do aumento dos combustíveis.

No transporte escolar, o reajuste médio das mensalidades, que ficou em torno de 20%, fez com que 30% dos pais desistissem do serviço, conta Anderson Malafaia, presidente da União Geral do Transporte Escolar.

A entidade tem 3 mil associados no Estado de São Paulo, entre motoristas autônomos, empresas e cooperativas. 

Quase a totalidade dos veículos usados no transporte escolar são movidos a diesel. “O impacto da alta do diesel foi muito relevante para nós e o nosso custo operacional subiu demais”, diz Malafaia. 

Mesmo com aumento da mensalidade do transporte escolar, que varia muito a depender do bairro, entre R$ 200 e R$ 900, por exemplo, Malafaia diz que esse reajuste não cobre todos os aumentos de custos que os motoristas tiveram. A necessidade de reajuste da mensalidade para retornar à situação pré-pandemia seria em torno de 40%. 

Pressão no transporte público

Outro que reivindica uma revisão dos preços é o setor de transporte público, em que o diesel representa 30% da operação (antes do aumento da Petrobras era de 26,6%).

Segundo o presidente executivo da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, Francisco Christovan, com a alta do diesel o setor teria de reajustar tarifas em 19,5%, mas nada foi repassado. 

Nos bares e restaurantes, por causa da pressão de alimentos e, sobretudo, gás de botijão - que aumentou quase 30% em 12 meses -, a situação é crítica. “O gás representa entre 8% e 10% do custo das nossas mercadorias”, afirma Paulo Solmucci, presidente da Abrasel.

Pesquisa recente da entidade revela que 38% dos estabelecimentos amargam prejuízos e 60% declararam estar no vermelho porque não conseguiram repassar aumentos de custos para o cardápio.

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