Fábio Motta/Agência Estado - 2007
Fábio Motta/Agência Estado - 2007

'Preço do excedente da cessão onerosa é elevado até para as maiores petroleiras'

De acordo com especialista, bônus de assinatura são muito altos mesmo para as grandes companhias

Entrevista com

Segen Estefen, professor da Coppe/UFRJ e ex-membro do conselho de administração da Petrobrás

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 07h00

RIO - O pré-sal é uma província fantástica. Falta ajustar o desenho dos leilões pelo governo. A avaliação é do professor da Coppe/UFRJ e ex-membro do conselho de administração da Petrobrás, Segen Estefen. As gigantes estrangeiras têm suas próprias razões para não terem participado da licitação. Os bônus de assinatura são muito altos mesmo para as grandes companhias. Leia a seguir os principais trechos da entrevista: 

Como avalia a ausência das grandes petroleiras no leilão de excedentes da cessão onerosa, de ontem?

Tem algo que a gente precisa entender sobre as estrangeiras. O ritmo mais lento da economia mundial pode ter afetado a decisão das companhias. A abertura de capital da Saudi Aramco está remodelando de certa forma a indústria. E há uma diversificação do investimento em razão do aquecimento global. 

O gás natural, presente no pré-sal, não é o combustível da transição para uma economia de baixo carbono?

O pré-sal tem pouco gás e, muitas vezes, tem componente de CO2 que dificulta a recuperação. O gás não é o forte das nossas reservas. Por outro lado, algumas empresas como a norueguesa Equinor e a Shell, estão tentando investir mais em energias renováveis. Não é a única, mas é uma das razões que devem ser consideradas para avaliar a reticência das multinacionais em entrar no leilão.

São muitas as justificativas para o resultado frustrante da licitação ...

Existem motivos próprios das empresas. Em relação ao custo, a gente vê que há visões diferentes. Tem quem coloque o retorno financeiro como muito vantajoso, porque as reservas estão demarcadas. E há quem considere que adiantar quantias muito altas (em bônus de assinatura) para serem recuperadas ao longo de 20, 30 anos é sempre uma incerteza que tem que ser pesada. São recursos muito altos, mesmo para grandes companhias. Teve outro fator que pesa também e que deveria ter sido avaliado melhor. Ninguém vai entrar num leilão sem saber o que de fato vai ter que ressarcir. Esse é um ponto que pode ter afugentado algumas empresas. Tem uma bela reflexão a ser feita sobre isso.

O governo exagerou na definição dos bônus para fechar o orçamento da União?

O valor já estava fixado há muito tempo. Até antes desse governo havia mais ou menos um valor em mente. É claro que para as empresas esse foi um fator, mas temos que entender quais outros pesaram na decisão de não participarem.

Qual a consequência da presença maciça da Petrobras no leilão?

A empresa tem uma dívida grande e está se expondo um pouco mais. Seria melhor uma negociação que não envolvesse recursos. Espero que não comprometa o processo de redução da dívida, que tenham feito o exercício e que isso não vá impactar na recuperação financeira que estava em progresso.

Ao mesmo tempo a empresa vai recompor suas reservas...

Estefen - Com certeza tem um lado positivo, porque a expectativa da Petrobras sempre foi ter aquele óleo. Ela já está no local, pode expandir um pouco mais sua infraestrutura. Isso seria desejável. A questão é a qual custo.

Para a sociedade, a presença maciça da Petrobras tem consequências?

Não vejo a opinião pública ser contra a Petrobras atuar em reservas que ela descobriu. Ela está produzindo numa área que ela delineou. É uma fronteira que ela descobriu. Diria que é visto com certa naturalidade. Ninguém está sentindo falta de uma estrangeira no lugar da Petrobras. O que influencia é ter um programa para que parte dos investimentos fique no Brasil e aumente a demanda por mão de obra para gerar emprego num país tão carente.

Por que as petroleiras fazem questão de operar no pré-sal?

Ser operador gera ganhos intrínsecos. É maior a influência nas compras, na definição dos fornecedores. A empresa tem mais domínio do desenvolvimento do campo, da infraestrutura instalada. Isso acaba retornando como ganhos adicionais. O operador tem a gerência da situação. Sem contar o ganho de experiência para expandir para outros campos, até mesmo no pré-sal.

O pré-sal, então, vale à pena.

Ninguém refuta que o pré-sal é uma província fantástica. A questão é ajustar alguns pontos e ter benefícios um pouco mais imediatos. Se não a recuperação do investimento vai ser recuperado muito lá na frente, em 10 ou 20 anos. Fica difícil para os investidores na conjuntura atual. 

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