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Preço do feijão dispara e passa de R$ 10 o quilo

Clima afeta a safra de vários produtos básicos; feijão sobe 28% no ano, arroz tem alta de 5% e há novas elevações a caminho

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2016 | 18h00

Pressionados por problemas climáticos, os preços do prato típico do brasileiro, o feijão com arroz,  dispararam neste ano. Isso dificulta a vida do consumidor, especialmente o de baixa renda, que, acuado pela recessão e pelo desemprego, cortou a compra de itens supérfluos no supermercado.

 Só o feijão subiu  28%, em média, até maio, segundo pesquisa de auditoria de varejo da GfK, que coleta preços em pequenos e médios supermercados instalados  21 regiões do País, entre capitais e cidades do interior. O mesmo levantamento aponta que o arroz ficou 5% mais caro ao consumidor no período. De acordo com o IBGE, que mede a variação nas capitais o preço do feijão subiu 33,49% no ano até maio e 41,62% em 12 meses.

 Mas já existe uma alta de preço do arroz no varejo encomendada. É que a cotação do saco de 50 quilos do arroz tipo 1, em casca, atingiu R$ 44,52 na sexta-feira, o maior valor registrado no Rio Grande do Sul em quase 20 anos, de acordo com o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). E parte do repasse acaba sendo inevitável,  principalmente porque se trata de um alimento básico.

“O freio no preço do arroz poderia vir da importação de países vizinhos”, diz  Athos Dias de Castro Gadea, gerente do Irga. De toda forma, ele pondera que os problemas climáticos, por causa do fenômeno climático do El Niño, que afetaram a safra do Rio Grande do Sul, o maior produtor do País, também prejudicaram a as lavouras  do Uruguai e da Argentina. Neste ano, o Rio Grande do Sul colheu 7,4 milhões de toneladas, com uma quebra de 16% em relação à safra passada.

Feijão. Já importação não é saída aliviar a alta de preços do feijão. Os estoques oficiais do produto encontram-se em níveis muito baixos, 108 mil toneladas, e a importação do feijão preto, vindo China, não chegaria no País em tempo hábil para completar a oferta, observa Carlos Alberto Salvador, engenheiro agrônomo do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura do Paraná. O Paraná responde por 24% da colheita nas três safras de feijão e o Estado é o principal produtor. 

Salvador explica que, por causa do clima, o Estado teve quebra de 14% na primeira safra encerrada em março e de 21% na segunda safra que acaba de ser colhida e que somou 318, 2 mil toneladas. Já a terceira safra está sendo plantada. Mas ela é menor em relação às demais e insuficiente para reverter a alta de preço. “Vamos ter preços elevados do feijão até agosto”, prevê. Em maio, o preço médio recebido pelo produtor do Paraná pela saca  de 60 quilos do feijão em cores foi de R$ 228,21, mais que o dobro do registrado no mesmo mês do ano passado (R$ 106,82).

Marco Aurélio Lima, diretor de auditoria de varejo da GfK, observa que em maio, o feijão foi o alimento que registrou maior alta entre os alimentos básicos, subiu 6,94%, superado apenas pela batata (8,68%). No entanto a dificuldade que existe é que esse alimento é de largo consumo, sobretudo entre os mais pobres, e praticamente é insubstituível, o que torna o quadro mais difícil. 

De acordo com a consultoria, cada família consome cerca de 3 quilos de feijão por mês. No varejo, o quilo do feijão chega a custar hoje até R$ 12, conta o presidente do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Sussumu Honda.

Além do feijão com arroz, a pesquisa da GFK aponta também altas expressivas no ano até maio de outros produtos básicos, como farinha de mandioca (34,5%), leite longa vida (19,3%), açúcar (18,2%), ovo (7,7%), óleo soja (7,6%), café (5,6%) e até carne de segunda (3,12%).

“Está ocorrendo uma migração da carne de primeira para carne de segunda”, observa Honda, que atribui parte do aumento de preço da carne ao avanço da exportação. Ele confirma a pressão altista nos preços do café, do arroz, da batata, da cebola e de derivados de milho. “A cesta básica de alimentos está pressionada.”

Inflação. O impacto da alta dos itens básicos deve ter reflexos na inflação deste mês. Para junho, a LCA Consultores espera uma inflação de 0,35%, em boa parte por causa da elevação dos preços do grupo alimentos e bebidas que, ao lado do grupo habitação deve puxar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para cima. Em maio o IPCA ficou em 0,78%.

Só o grupo alimentação e bebidas neste mês deve subir 0,34%, nas contas do economista Fabio Romão, da LCA, que projeta para este ano alta de 40% para o preço do feijão.  “Essa alta do alimentos pode parecer pequena, mas não é”, diz ele. É que nos últimos seis anos, a mediana da variação dos preços do grupo alimentação e bebidas en junho registrou deflação de 0,04, mas neste ano deve subir consideravelmente.

Romão explica que a pressão nos preços dos alimentos decorre de problemas de oferta de feijão e outros itens básicos. E como os alimentos que estão com preços em alta são itens de primeira necessidade, a recessão dificilmente vai conter esse repasse da elevação de preços para o consumidor final. Para o ano, o economista espera projeta um IPCA de 7,5%, com de 11% para o grupo alimentos e bebidas.  No ano passado, para um IPCA de 10,7%, alimentos e bebidas ficaram 10,7% mais caros. 

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