Preço do petróleo ameaça a Petrobrás

Preço do petróleo ameaça a Petrobrás

Com a manutenção dos volumes de produção, cotação do barril pode ficar abaixo de US$ 70, prejudicando os investimentos da estatal

ANTONIO PITA, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2014 | 02h03

A manutenção dos volumes atuais de produção de petróleo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) lança mais sombras sobre um cenário já conturbado para a Petrobrás.

Analistas já consideram uma cotação do óleo tipo Brent (negociado em Londres) abaixo de US$ 70, o que prejudica a viabilidade de investimentos estratégicos, como o pré-sal. A falta de informações financeiras do último trimestre, à espera do impacto das denúncias de corrupção no caixa da empresa, e de projeções atualizadas para 2015, que só devem ser divulgadas em abril, contribuíram para o pessimismo do mercado.

"Foi a pior notícia no pior momento da companhia. É gravíssimo", disse o ex-diretor da estatal Wagner Freire. "O impacto será negativo no curto, médio e longo prazos. Agora, ela deixa de subsidiar o petróleo, mas não o suficiente para recompor o caixa e gerar novas receitas."

Segundo ele, a situação é delicada por causa do endividamento da estatal, acima de R$ 308 bilhões, associado à pressão do câmbio. Com indicadores frágeis, qualquer mudança no cenário abala a companhia. "Não é sustentável manter o plano de investimento tão alto. As receitas de exploração e produção também caem com a cotação, e isso inviabiliza os investimentos", avalia Freire, que hoje atua como consultor.

Defasagem. A avaliação é que se as cotações se estabilizassem em torno de US$ 80, a Petrobrás conseguiria estancar a defasagem entre os preços de importação e revenda no mercado interno de derivados de petróleo. Nos últimos três anos, com preços dos combustíveis represados pelo governo, a Petrobrás acumula perdas, pois importa por preço acima do que vende. Somente nos 12 meses encerrados em setembro, o déficit da companhia por causa disso chegou a US$ 20,4 bilhões, segundo cálculos do Itaú Unibanco.

Por outro lado, a Petrobrás exporta petróleo bruto. Quanto maior o valor do barril, maior a receita com exploração e produção. Portanto, se as cotações forem muito abaixo de US$ 80, a vantagem nas operações de importação de combustíveis se anulam diante das perdas de receita com a produção.

Mas os analistas não vislumbram, nem no longo prazo, esse patamar para a cotação internacional. Ontem, após a decisão da Opep, o Brent chegou a ser negociado a US$ 69, próximo ao limite de viabilidade de exploração do pré-sal. A estimativa é que a companhia conseguiria segurar a produção com cotação entre US$ 45 e US$ 60 - em cenários de estresse passageiro, e não prolongado.

"Quem pode dizer quando e se o patamar vai voltar a US$ 100?", diz Pedro Galdi, analista da SLW Corretora. Ele compara a situação à queda da cotação do minério de ferro, que provocou alterações de investimento das mineradoras. "Com a situação atual, a companhia começa a repensar a atuação. O medo é que as estratégias fiquem contaminadas com a situação e a companhia adie investimentos em um momento que já é ruim para sua credibilidade", completa.

'No escuro'. Sem as informações do balanço do terceiro trimestre, e sem definição sobre o plano de negócios de 2015, investidores avaliam que o mercado está no "escuro" sobre a situação da estatal. "A surpresa é que a queda das ações não tenha sido maior", disse Galdi, em referência à queda de cerca de 4% das ações da Petrobrás ontem.

A preocupação com o longo prazo é unânime entre os analistas. Em análise encaminhada a analistas, o Itaú Unibanco previu que uma recuperação para a companhia, só viria a partir de 2018, com a alta da produção e sua "eventual" consolidação como exportadora de óleo.

Procurada, a Petrobrás não se posicionou. Na última semana, a presidente Graça Foster tentou expressar otimismo, projetando um preço médio de US$ 85 até 2018. "O Brent menor para nós é bom, porque temos ainda uma diferença sobre perdas que tivemos anteriormente." Ainda assim, ela ressalvou que as mudanças provocam uma "diferença na geração de nossas receitas e financiabilidade". / COLABOROU FERNANDA NUNES

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