Preço estimula aumento de plantio do algodão

A área destinada para o plantio aumentará em 40% na comparação com a safra anterior, que foi prejudicada pela seca

Célia Froufe, Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

Com a disparada dos preços do algodão no mercado internacional, os produtores brasileiros iniciaram uma corrida para aumentar a área plantada e atingir um recorde de produção na próxima safra, de 1,7 milhão de toneladas - isso se o clima ajudar e garantir chuva nos próximos cinco meses. A área reservada ao plantio será 40% superior à da última safra, quando a seca prejudicou a colheita e deixou o mercado interno desabastecido.

Em Mato Grosso, Estado que lidera a produção no País, os produtores estão deixando de plantar soja para investir no algodão. "Embora o preço da soja também esteja em alta, o algodão dá três vezes mais retorno", explica Fernando Terao, analista da consultoria Agra FNP. A área plantada no Estado, que na última safra foi de 428 mil hectares, será ampliada em 45%.

Entre os produtores baianos, a área só não será maior porque não há máquinas suficientes para acompanhar o aumento da produção. "Se tivéssemos mais estrutura, a maior parte da produção de soja seria transferida para algodão porque o preço está muito chamativo", diz o produtor Celito Missio. Mas é Minas Gerais o Estado que mais investirá no aumento da área plantada, que sairá de 14,5 mil hectares para 27 mil, aumento de 90%.

La Niña. Na safra 2009/2010, que está terminando agora, o plantio ocupou 824 mil hectares. A próxima terá 1,17 milhão. "Será uma das maiores áreas que o Brasil já teve nos últimos anos - perderá apenas para 2004, quando o preço também estava muito bom para o setor", diz Haroldo Cunha, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

O fenômeno meteorológico "La Niña" que garante chuva e solo úmido nos primeiros meses de plantio, também está do lado dos produtores. Ganho de produtividade e aumento da área plantada farão a produção no País saltar de 1,050 milhão de toneladas para 1,7 milhão - quantidade suficiente para abastecer o mercado interno e garantir a exportação de cerca de 600 mil toneladas. "É a grande oportunidade de colocar nosso algodão no mercado internacional", diz Terao.

Nessa última safra, o governo zerou a taxa de importação, de 10%, para 250 mil toneladas do produto porque os estoques brasileiros eram insuficientes. Problemas climáticos levaram a uma queda de 30% na produção. Hoje, só produtores muito capitalizados têm estoque.

Para o ano que vem, as expectativas são bem diferentes. Segundo o presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Algodão, Sérgio De Marco, 60% da safra de algodão do próximo ano já está vendida. Boa parte foi negociada em Nova York nos últimos 90 dias. Desde janeiro, os preços internacionais da commodity subiram 68%, para 129,59 centavos de dólar por libra-peso na Bolsa de Nova York. Só em outubro, a alta foi de 25% e, ontem, de 3,91%. "Sou produtor há 12 anos e nunca vi o preço do algodão chegar nesse ponto. Este seria o momento para o produtor ganhar dinheiro", diz De Marco.

Apesar dessa escalada, os cotonicultores reclamam que o dólar "come" grande parte dos ganhos. O ideal para quem está no campo e, principalmente, para os que desejam exportar, seria ver a moeda americana valendo mais do que R$ 2. O temor, no entanto, é de que o dólar caia ainda mais no próximo ano, para R$ 1,50. "O setor produtivo não sobreviveria."

Expansão

Em Mato Grosso, a área plantada aumentou 45% para a safra 2010/11; em Minas Gerais, 90%; no Maranhão, 51%; no Piauí, 150%. Em São Paulo, o crescimento é de quase quatro vezes.

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