''Preços de imóveis nos EUA são risco à recuperação global''

Robert Shiller, Economista da Universidade de Yale: Economista, célebre por apontar irracionalidade dos mercados, também vê sintomas de bolha no entusiasmo pelos Brics

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

No momento em que banqueiros, empresários e ministros das Finanças dos mais diversos países respiram aliviados e garantem que o pior da crise já passou, o economista Robert Shiller, da Universidade Yale, mantém o tom cauteloso.

Ele é uma voz muito respeitada, como pioneiro na contestação da ideia de que os mercados são necessariamente eficientes, e criador do principal índice de valorização do mercado residencial americano. Sua crença na influência do comportamento irracional nas oscilações de mercado ganharam força com o crash da bolsa americana em 1987.

Em best sellers, como Exuberância Irracional, lançado em 2000, e trabalhos acadêmicos, Shiller identificou, antes do estouro, as bolhas do mercado de ações de empresas de internet e alta tecnologia e do mercado residencial americano.

Agora, Shiller preocupa-se com os efeitos das novas quedas dos preços residenciais americanos na recuperação global. Ele também indicou que vê sintomas de bolha na badalação em torno dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China).

Como o sr. vê a situação da economia global?

Tem havido um renovado crescimento econômico em boa parte do mundo. A crise extrema ficou para trás, mas ainda há fatores problemáticos.

Quais?

Os preços dos imóveis, pelo menos nos Estados Unidos, ainda estão caindo. Não muito, é verdade, mas me parece que o nosso sentimento de otimismo foi danificado. É uma espécie de modismo, as atitudes em geral movem-se na mesma direção durante alguns anos. Em nossas pesquisas temos notado um declínio na crença dos compradores de residências de que casas são um bom investimento. Havia antes a percepção de que não há realmente nenhum risco nos investimentos residenciais. Agora, as pessoas parecem mais ariscas. Os preços de casas passam por longas tendências, que podem durar décadas. Tem um declínio hoje, com o pico tendo ocorrido há cinco anos. Não sei se essa tendência vai continuar. Essa é uma das incertezas.

Essa tendência pode puxar a economia americana para baixo de novo?

Sim, pode, porque parte do problema que nós estamos enfrentando é que tantos proprietários de casas estão abaixo da linha d"água - há estimativas de que pelo menos 15 milhões estejam nessa situação. É claro que quando a sua casa vale menos do que a hipoteca - o que quero dizer com abaixo da linha d"água - há incentivos para dar o calote. E haverá repercussões por meio de todo o sistema financeiro, se isso acontecer.

Isso não era para ter derrubado a economia dos EUA de novo?

Ela está crescendo, mas abaixo do potencial. O PIB real está no mesmo nível em que estava antes da recessão. O fato de estarmos substancialmente abaixo do potencial (de crescimento da economia) explica a alta taxa de desemprego.

O que causa bolhas imobiliárias?

As bolhas têm a sua própria dinâmica interna. Altas de preços geram entusiasmo dos investidores, geram histórias de uma "nova era". Tudo isso encoraja os investidores, e faz com que comece a proliferar a ideia de que casas são o melhor investimento, que são um investimento seguro, que seus preços nunca caem. Isso aconteceu nessa crise. As pessoas queriam comprar a maior casa que pudessem. E talvez comprar duas casas, três casas. Eu gosto de pensar em bolhas como um epidemiologista pensa na disseminação de uma doença.

Como assim?

Você olha para a recente epidemia de gripe, e ela parece uma bolha, vai crescendo em todos os países do mundo. É um simples contágio, como também acontece com as bolhas. Elas têm a ver com mudanças nas taxas de contágio das ideias. São como novos vírus, a formação de novas ideias. A história dos Brics, por exemplo.

Os Brics são uma bolha?

Bem, é um tipo de história de "nova era", não é? É um símbolo, certo? Alguém teve o insight de juntar o Brasil com a China, e isso deu um impulso. Todo mundo está maravilhado com a China, e pensar que o Brasil é parte da mesma história impulsiona os espíritos animais no Brasil.

O sr. não investiria no Brasil?

Não estou dizendo isso. Eu seria cauteloso. De fato, não estou investindo no Brasil no momento. Não gosto de investir em mercados muito valorizados.

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