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Preços de vários serviços subiram quase 1% este mês

Apesar de o grupo alimentação responder por quase 70% da inflação de julho, medida pelo IPCA-15, preços dos serviços tiveram repique, sinal de que o Banco Central está correto em não cortar os juros, diz economista da FGV

Entrevista com

André Braz, economista do Ibre/FGV

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2016 | 15h13

Apesar de quase 70% da inflação medida pelo IPCA-15 de julho de 0,54% ter ocorrido por causa da alta do grupo alimentação, que subiu 1,45% por causa da disparada do feijão, arroz e leite,  houve um repique nos preços dos serviços, destaca André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas e responsável pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC).

“Vários serviços subiram perto de 1% este mês, como os de saúde, a alimentação fora de casa, a manutenção do veículo, entre outros. Isso mostra que está ocorrendo aumento de preços de coisas  que acreditávamos que tivessem um fôlego menor para subir por causa do ambiente recessivo”, diz o economista.

Segundo Braz, o que está pesando para esses reajustes de preços são as pressões de custos e a desconfiança que há por parte dos prestadores de serviços em relação às perspectivas da economia. Na sua opinião, o Banco Central (BC) agiu corretamente ao manter a taxa básica de juros em 14,25% na quarta-feira, 20, para quebrar as expectativas de novos reajustes de preços. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O resultado do IPCA-15 de julho surpreendeu?

Surpreendeu a intensidade de aumento de alguns itens. Nós acompanhamos no IPC o feijão e ele avançou muito mais do que nós havíamos estimado. A nossa alta era de 40% e o teto apurado pelo IBGE veio perto de 60%. Foi muito acima do que nós registramos. A principal diferença ficou no feijão, mas houve outras diferenças de menor intensidade. Alimentação fora de casa, que é um serviço, veio quase o dobro da estimativa que nós tínhamos. O IBGE captou uma promoção mais tímida para o grupo vestuário. Nós já começamos a ver números negativos no vestuário, mas no IBGE o resultado foi menos intenso. A nossa queda foi de 0,30% e a do IBGE de 0,10%. No leite, captamos uma alta de 13% e o IBGE, algo em torno de 15%. Então, se somarmos essas diferenças todas, a gente posiciona o índice do IBGE acima de 0,50%. Pela projeções do IPC da FGV, o avanço seria menos intenso. Isso não quer dizer que a gente não venha captar essas altas. Poderemos captar esse avanço ao longo dos próximos dias. Mas eles anteciparam mais esse potencial de aumento do que a gente.

Esse resultado sinaliza um IPCA fechado de julho de quanto?

Estávamos esperando algo em torno de 0,40%. Agora ele pode ser até um pouco acima: de 0,45% a 0,50%, seguindo os passos do IPCA-15. Mas acho que a IPCA de julho fechado tem a possibilidade de ser um pouco menor porque o IPCA vai se valer de um efeito pro-rata mais forte da queda da energia elétrica em São Paulo, porque até agora foi captado metade da queda. É uma despesa de peso no orçamento que vai se manifestar de forma mais forte no final do mês e também porque já começamos a perceber que os preços do feijão não estão subindo tanto. Daqui até o final do mês esperamos que o aumento médio fique menor do que o antecipado pelo IPCA-15. Essa parte dos alimentos in natura e do feijão perdendo um pouco o espaço e o efeito pro rata da energia mais integral até o final do mês devem fazer com que o IPCA feche um pouco abaixo do IPCA-15.

O sr. acha que o Banco Central está certo em manter os juros elevados, mesmo com quase 70% da inflação sendo provocada por alimentos?

Essa inflação de alimentos explica o que aconteceu no mês. O que nós temos observado é um resiliência maior de serviços. Até que os serviços desaceleraram bastante do final do ano passado para cá. Mas o IPCA-15 dá outro tom para isso, mostrando que não é bem assim. Vimos que alimentação fora de casa subiu 0,70%, vimos um avanço expressivo da parte de serviços médicos, serviços de manutenção do carro. Pintura de veículos subiu 0,98%, conserto de veículos aumentou 0,85%, serviços laboratoriais avançaram 0,70%, serviços pessoais (manicure, cabeleireira, costureira) tiveram alta de 0,84%.Tem muita coisa com variação e 1% e esperávamos variações mais baixas. Por outras razões que vão muito além desse comportamento de choque dos alimentos, o Banco Central tem razões para manter essa taxa de juros no atual patamar.

O que explica essa alta dos serviços em plena recessão?

Uma parte dessa alta é pressão de custos porque mal ou bem se pagam salários, contas públicas, aluguéis e há demanda. Ainda que ela esteja recuando em cima de serviços essenciais, ainda há alguma tendência de aumento. Há um pouco também de desconfiança do próprio comerciante. O prestador de serviço não sabe exatamente para onde vai a economia. Os indicadores já começam a melhorar indicando alguma alta do PIB no ano que vem ou uma queda menor este ano. Algum alívio tem, mas estamos muito longe de um cenário mais promissor. Isso gera uma certa ansiedade ou queda na expectativa dos prestadores de serviços. É como se eles acreditassem pouco no espaço que há para dar jeito na situação atual. Então, eles aumentam o seu preço. É o que a gente chama de inércia. Ainda temos uma inércia relativamente grande. O prestador de serviços olha para frente e não vê nada muito bom e garante o aumento de preço agora, antes de não conseguir repassar nada. Não acho que a batalha contra a inflação esteja vencida, ainda que as pressões do mês estejam associadas a alimentos. Acho que tem uma guerra bem árdua para vencer e a taxa de juros no atual patamar mostra que o BC está comprometido em fazer que a inflação recue no menor prazo de tempo possível.

Mas juros altos numa economia em recessão não penalizam ainda mais a atividade?

Sim, penalizam, mas penalizariam muito mais se não combatêssemos a inflação agora. Depois que a inflação ganha energia, fica muito mais difícil de controlar. Ainda que as condições não permitam uma taxa de juros tão alta que dificulta a nossa retomada de crescimento, ela ainda é um remédio necessário. O BC tem que ser muito habilidoso para trabalhar com a taxa de juros até quando ela for útil. Daqui a pouco o BC vai ter que flexibilizar os juros. Mas primeiro ele quer diminuir muito essa inércia e mandar a mensagem que está comprometido em levar a inflação para o centro da meta. Com isso, os agentes econômicos vão comprando esse discurso e começam também a rever menos os seus preços, criando um cenário mais consistente para a desaceleração da inflação. Isso é uma questão de credibilidade que o BC está tentando reforçar agora com essa austeridade.

A convergência da inflação para o centro da meta deve ocorrer quando?

Acredito que haja um bom espaço para a inflação desacelerar no ano que vem, mas acho que vai terminar o ano acima do centro da meta, um ponto acima (5,5%). Para este ano, o IPCA deve ficar algo em torno de 7%. A convergência da inflação para o centro da meta ainda é um caminho longo.

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