DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
Alimentos foram os vilões da inflação neste ano DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Preços dos alimentos devem dar trégua a partir do segundo trimestre

Inflação de 2021 deve ser pressionada por preços administrados e serviços; alívio dos alimentos deve abrir espaço para altas desses grupos que ficaram contidos boa parte deste ano por causa da pandemia

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2020 | 05h00

Vilões da inflação em 2020 e muito pressionados pelo dólar, os preços dos alimentos devem dar uma trégua para o bolso do brasileiro em 2021, especialmente a partir do segundo trimestre. Nessa época o ano, é despejada no mercado a safra de grãos, que promete bater novo recorde. O alívio no gasto com a comida não deve ser pequeno. Os alimentos responderam por dois terços da inflação deste ano acumulada em 12 meses até novembro de 4,3%, pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). 

A folga dos alimentos, no entanto, poderá comportar o novo foco de pressões esperado para a inflação em 2021. Ele deve vir de dois grupos que neste ano ficaram bem comportados por causa da pandemia: os serviços e os preços administrados, cujos reajustes precisam ser autorizados pelo governo. 

Com o isolamento social, a demanda por serviços despencou e impediu os aumentos. Por sua vez, os preços administrados, que incluem tarifas de transporte, combustíveis, planos de saúde, medicamentos, por exemplo, ficaram estacionados boa parte do ano. Só a energia elétrica voltou com força este mês, com a bandeira tarifária vermelha que cobra uma taxa extra de R$ 6,243 a cada 100 kWh.

“Não há espaço para os alimentos continuarem subindo em 2021”, prevê o economista Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP e um dos maiores especialistas em inflação. A disparada dos alimentos neste ano ocorreu por conta da maxidesvalorização do câmbio combinada com a maior demanda no mercado interno e externo. “Juntaram duas coisas que nem sempre ocorriam ao mesmo tempo.” Na sua avaliação, a perspectiva é que essa escalada não continue porque os alimentos já estão num patamar muito alto. Além disso, o câmbio começa a arrefecer.

Como a folga na inflação dada pelos alimentos será muito grande, quase de três pontos porcentuais, observa Heron, ela poderá acomodar pressões vindas de outros grupos de preços. Por isso, levando em conta as informações disponíveis até o momento, ele espera que o IPCA feche 2021 em torno de 3%. O último Boletim Focus do Banco Central mostra que o mercado espera uma inflação em 3,37% para o ano que vem. 

“O problema será a trajetória da inflação ao longo de 2021”, pondera o economista. Como a disparada dos alimento ocorreu a partir de setembro, a inflação acumulada em 12 meses deve atingir o pico e beirar ou até passar do teto da meta que é 5,25% para 2021 em maio, mas depois deve cair, prevê.

Outro especialista em inflação, o economista da LCA Consultores Fabio Romão, concorda com Heron. “A alimentação pode perder bastante força em 2021.” No entanto, ele projeta um IPCA mais salgado para o próximo ano: 3,5% e com possibilidade de ser maior. 

Romão alerta que os freios da inflação deste ano – os serviços e os preços administrados – devem jogar no sentido oposto em 2021. “Provavelmente os serviços vão acelerar com a recuperação da economia e os preços administrados também. Os papéis se invertem.” 

A alta acumulada nos bens industriais no atacado ao longo deste ano, em torno de 25%, é outro risco importante à inflação de 2021, na opinião de Romão. “É uma pressão grande de custo e, com o crescimento da economia, haverá espaço para repasse. Para 2021, ele espera um aumento 3,4% dos bens industriais no varejo, ante uma alta de 2,9% este ano. No entanto, o economista ressalva que o fim do auxílio emergencial e o desemprego elevado poderão mitigar essa pressão.

Herança

 Para o economista Fabio Silveira, sócio da MacroSector Consultores, o que mais vai pesar na inflação de 2021 é exatamente essa herança de custos elevados de 2020 dos bens comercializáveis. “Os preços ao consumidor estão hoje aquém dos preços de equilíbrio porque as empresas, para sobreviver, estão contendo ao máximo os reajustes.” 

O movimento de repasse de custos herdados de 2021 deve, na opinião de Silveira, impulsionar os índices ao consumidor no primeiro semestre de 2021. Com isso, o IPCA deve fechar o ano que vem girando em torno de 4,3%. É meio ponto acima do centro da meta de 2021, de 3.75%.

Silveira acrescenta também como outro foco de pressão para o IPCA de 2021 a defasagem dos preços dos combustíveis, que hoje estão entre 10% a 12% abaixo das cotações no mercado internacional. “Não há como segurar preços de diesel e gasolina que estão rebaixados artificialmente pela Petrobrás”, afirma.

Para o economista da Tendências Consultoria Integrada, Marcio Milan, o preço dos combustíveis e outros preços administrados são foco de preocupação da inflação de 2021. Neste ano, os administrados aumentaram 2,2% e a sua expectativa é de um avanço de 4,8% para o ano que vem. Isto é, mais que dobra o ritmo de alta.

Milan, que projeta aumento de 3,4% para a inflação geral de 2021, observa que entre os grupos do IPCA, o de preços administrados é o que mais deve avançar em relação a 2020 e responder por quase a metade (1,23 ponto porcentual) da inflação do ano que vem.

Entre os administrados, o economista destaca a pressão que deve vir da gasolina. “Com o cenário de recuperação da economia mundial, a expectativa é que o preço do petróleo volte a acelerar e tenha um repasse significativo para os combustíveis no varejo ao longo de 2021.”

Fiscal

 O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, reconhece que a preocupação com a inflação de 2021 passa pela recuperação dos preços dos serviços e dos administrados. Mas, na sua opinião, o maior fator de risco a médio prazo para a inflação é a questão fiscal do País, se nenhuma mudança relevante for aprovada. “Existe a expectativa de uma ampla reforma, mas se ela for frustrada, isso deve manter o câmbio pressionado e pode afetar os preços em reais e a inflação.” A MB Associados projeta um IPCA de 3,8% para o ano que vem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'O IGP é muito citado, mas pouco utilizado'

Até mesmo no aluguel, que tem reajuste automático pelo indicador, que fecha o ano em 24%, não está sendo aplicado, diz Braz

Entrevista com

André Braz, economista da FGV

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2020 | 05h00

Depois da montanha russa da inflação em 2020, quando a projeção começou o ano na casa de 3%, despencou para menos de 2% na virada do semestre e deve encerrar dezembro acima do centro a meta de 4%, há muita incerteza para o cenário de preços em 2021. O coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas, o economista André Braz, diz que a inflação ao consumidor pode fechar 2021 em 3,55%, abaixo da meta, se houver um encaminhamento da política de vacinação e decisões para reduzir o déficit público. Com isso, as incertezas se reduzem e as pressões sobre o câmbio e preços em reais também. Caso não ocorra, ele acredita que o IPCA poderá subir para 4,5%.

Braz, que é responsável pelo Índice Geral de Preços (IGP), um dos indicadores que é referência do mercado para reajustar outros preços, minimiza o papel do IGP na indexação. “O IGP não indexa muita coisa importante. Ele é muito citado, mas pouco utilizado.” A seguir, trechos da entrevista.

Como foi a inflação de 2020?

Foi uma montanha russa. No final de 2019, a perspectiva era uma inflação mais perto da meta, de 3,6%, 3,7%. Com a pandemia, os brasileiros tiveram de fazer o confinamento e a alimentação se destacou frente a outras despesas, inicialmente pela mudança de hábito de consumo. Houve outros complicadores, como a quebra de safra de feijão, redução da área plantada com arroz, desvalorização cambial, que resultaram em aumentos de preços, como de milho, soja, trigo e carnes. Começamos a exportar muita coisa, principalmente para a China. Isso complicou a vida da alimentação que foi o grupo que sofreu o maior desafio. Por outro lado, como não era possível consumir serviços por causa da pandemia, esses preços ficaram em banho-maria e, junto com os duráveis, não tiveram reajustes significativos a maior parte do tempo. Eles serviram de âncora para a inflação. Houve algum alívio também dos preços administrados, com bandeira tarifária da energia elétrica verde até novembro. Até dois a três meses atrás a expectativa era de uma inflação um pouco acima de 2%. Gradualmente surgiram movimentos que engrossaram a alta de preços. Com a retomada das atividades, houve aumento de preços dos bens duráveis, das passagens aéreas e até as escolas retiraram os descontos das mensalidade. E, por fim, a bandeira tarifária vermelha da energia elétrica. A inflação ao consumidor fecha o ano em 4,5%. Fecharia em 4% sem a bandeira vermelha.

Como fica para 2021?

Tenho dois cenários. Um considera não ter uma política muito assertiva de vacinação e de condução da questão fiscal. A falta de solução para esses dois problemas aumenta a incerteza e pode gerar novas desvalorizações cambiais. Essas desvalorizações encarecem commodities que são usadas como matéria prima tanto para a produção de alimentos quanto para bens duráveis. Isso pode fazer a inflação surpreender e subir 4,5% em 2021. Se, no entanto, houver uma boa política de vacinação e o encaminhamento de medidas para redução da dívida pública, acho que poderemos fechar o ano com inflação de 3,55%, abaixo da meta, de 3,75%. Olhando os grupos, acredito que a alimentação não suba tanto em 2021. O fato de dizer que ela não vai subir não significa que ela vá devolver a gordura acumulada este ano. Se os alimentos continuarem caros em 2021, será um desafio para a população, mesmo que não subam mais. A influência de alimentos diminui em 2021, mas a dos preços administrados, dos bens duráveis e de serviços aumenta.

Qual é o efeito da indexação na inflação por causa da alta dos IGPs, que balizam contratos?

É fraco. O IGP não indexa muita coisa importante. Ele é muito citado, mas pouco utilizado. O aluguel residencial do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da FGV, por exemplo, fechou o ano com alta de 3%. Isso não tem nada a ver com os 24% de alta acumulada pelo IGP-10 de 2020, a maior variação desde 2002. Com o desemprego muito alto, pouca gente tem capacidade de pagar aluguel. Tem havido muita negociação. O IGP entra na energia elétrica, mas é uma fração muito pequena. O fato de ele fechar o ano em 24% não quer dizer que ele vai orientar correções contratuais nessa magnitude no ano que vem. O risco de indexação é pequeno. 

Como o sr. vê a combinação de desemprego alto e inflação que pode surpreender em 2021? 

O desemprego elevado vai ser um desafio para a redução da desigualdade, até porque começamos o ano com alimentos muito mais caros, além do fim do voucher (auxílio emergencial). Isso pode resultar em alguma tensão social, mas não sei de qual magnitude.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Supermercado ganha venda de restaurante

Antes da medida da fase vermelha, os supermercados do Estado de São Paulo já projetavam um aumento nominal

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

26 de dezembro de 2020 | 05h00

A decisão do governo paulista de retroceder todos os municípios para fase vermelha nos dias 25, 26, 27 de dezembro e em 1,2 e 3 de janeiro para conter uma segunda onda de covid-19 deve beneficiar ainda mais supermercados neste final de ano. Como esses estabelecimentos comerciais vendem produtos essenciais, eles poderão funcionar nesses dias em detrimento de bares e restaurantes.

Antes da medida, os supermercados do Estado de São Paulo já projetavam um aumento nominal (sem descontar a inflação) de 8% nas vendas este mês em relação ao mesmo período de 2019, segundo a Associação Paulista de Supermercados (Apas). Desde o início da pandemia, por conta da essencialidade, os supermercado, ao lado das farmácias, têm registrado avanços importantes nas vendas comparado a outros segmentos do varejo. 

Ronaldo dos Santos, Presidente da Apas, acredita que o setor está preparado para atender a um fluxo maior de consumidores nos próximos dias em razão das restrições a bares e restaurantes. “Vai ter transferência de vendas para os supermercados, mas não acredito em falta de produtos. Pode ocorrer algo pontual.” 

Apesar do otimismo do executivo, pesquisa da empresa Neogrid, que monitora a cadeia de suprimentos de 40 mil lojas no País, apontou que em novembro a falta de cerveja, especialmente as mais caras, beirou 20%, uma marca recorde.

Aglomeração

Outro impacto nos supermercados da restrição à abertura de bares restaurantes é o aumento de aglomerações. Antes de o governo paulista decidir pelo retrocesso à fase vermelha, pesquisas que avaliam o comportamento do consumidor já apontavam que uma grande fatia de brasileiros pretendia deixar as compras de alimentos e bebidas para a última hora. A intenção é conseguir um bom desconto no preço.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.