Preços em alta, tensões e intervenções

Há poucas semanas ainda havia quem alegasse que a aceleração da inflação não passava de miragem que só o Banco Central conseguia enxergar. Mas, a esta altura, já não há mais quem conteste que a inflação vem ganhando forte impulso nem quem ainda insista em ver a aceleração circunscrita a categorias isoladas de preços. A deterioração do quadro inflacionário combina demanda interna aquecida com choque de oferta adverso, decorrente da persistente elevação de preços de commodities no mercado internacional. No plano macroeconômico, o que agora se discute não é mais se a aceleração da inflação é relevante, mas qual a melhor forma de enfrentá-la. Infelizmente, contudo, parte da equipe econômica ainda se mostra propensa ao auto-engano. Ora parece defender complacência com a inflação. Ora brinca com a idéia de um aumento do superávit primário - sem elevação oficial da meta fiscal - que possa dissuadir o Banco Central de insistir no aperto da política monetária e, de quebra, abastecer um soberano "cofrinho" de mil e uma utilidades. Mais um devaneio estapafúrdio, que já não chega a ser surpreendente. O que, sim, chama a atenção, são as tensões que a alta de preços tem gerado no plano microeconômico.É bem sabido que, há anos, o Brasil se vem beneficiando em grande medida da elevação de preços de commodities. O elemento comum dessa alta generalizada de preços, que abrange alimentos, combustíveis, minérios e insumos industriais de uma forma geral, é a pressão sobre recursos naturais advinda da rápida incorporação de enormes contingentes populacionais da Ásia à economia mundial. Bem dotado de recursos naturais, o País tem tirado bom proveito da bonança. Preços altos de commodities exportadas com custos de produção baixos pareciam sinalizar espaço inesgotável para expansão rentável de exportações, enquanto a demanda externa persistisse. O que não havia sido adequadamente percebido é que a vigorosa demanda por commodities fatalmente se traduziria em forte pressão sobre a oferta mundial de insumos utilizados na produção dessas commodities.O que vem ocorrendo com insumos agrícolas bem ilustra esse desdobramento. A mesma expansão de demanda que sustenta o boom de preços de grãos também sustenta, indiretamente, o aumento vertiginoso que vem sendo observado nos preços de fertilizantes e defensivos agrícolas. No caso dos fertilizantes, a alta de preços vem sendo exacerbada pela alta do petróleo e por restrições à exportação de adubos impostas por grandes produtores, como China e Rússia. Produtos que requerem uso mais intensivo de fertilizantes, como o milho, vêm sendo particularmente punidos. Tendo em conta que o preço do milho já estava pressionado por sua crescente utilização na produção de etanol - cada vez mais estimulada pelo encarecimento do petróleo -, é fácil entender a tensão com o aumento de custos nos ramos de agronegócio que utilizam o milho como insumo.São tensões desse tipo que parecem estar estimulando propostas impensadas de soluções artificiais para as pressões de custo com que agora se debatem certos ramos da exportação agropecuária. É preciso entender que, com todas as dificuldades, o Brasil continua sendo beneficiário inequívoco do boom de preços internacionais de commodities. Tentações de apelar para intervenções do governo - seja nos mercados de produtos agropecuários, seja nos mercados de insumos - devem ser refreadas, mesmo quando racionalizadas pela boa intenção de "estabelecer regra que garanta margens razoáveis de lucratividade" ao longo das cadeias produtivas do agronegócio.O Brasil está fadado a ter papel cada vez mais importante na produção mundial de bens intensivos em recursos naturais. É preciso não perder de vista as amplas oportunidades que o País ainda tem pela frente na exportação de commodities, para não introduzir incertezas desnecessárias que venham a desestimular decisões de investimento na expansão da capacidade exportadora. Há que insistir em soluções de mercado para pressões momentâneas de custo que possam estar afetando a produção de commodities. É fundamental manter regras estáveis, evitar políticas que exacerbem a incerteza e assegurar que, em todos os níveis, produtores tenham incentivos corretos para responder à alta de preços com aumentos de oferta.*Rogério L. Furquim Werneck, economista, doutor pela Universidade Harvard, é professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio

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