JF Diório/Estadão
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Preços recuam 0,21 % em novembro, menor inflação para o mês desde o Plano Real

Resultado do IPCA divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira é a segunda deflação registrada em 2018

Pedro Ladislau Leite, Caio Rinaldi e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2018 | 09h08
Atualizado 07 Dezembro 2018 | 17h56

Como esperava a maior parte dos analistas, a inflação em novembro foi negativa. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,21%, informou na manhã desta sexta-feira, 7, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É a menor taxa para o mês desde a criação do Plano Real. Em outubro, o índice havia marcado alta de 0,45%.

A mudança da bandeira tarifária de energia elétrica contribuiu para o movimento, dizem analistas, já que passou de bandeira vermelha dois, com custo mais elevado, para bandeira amarela em novembro. A agência do setor já determinou que não haverá tarifa extra em dezembro.

Em nota, o analista do IBGE Pedro Costa explica que a energia elétrica foi responsável por diminuição de 0,16 ponto porcentual no IPCA. Ele aponta que os combustíveis também causaram a queda, derrubando os preços de transportes. "A queda nos combustíveis foi causada, principalmente, pela gasolina, que caiu 3,07%. Foi o segundo maior impacto negativo individual, que foi 0,15 ponto percentual", afirma.

O arrefecimento dos preços que resultou na segunda deflação de 2018 foi ainda mais forte do que as estimativas de analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam inflação negativa de 0,10%. A outra deflação marcada neste ano foi em agosto, quando o índice caiu 0,09%.

Em 12 meses, a inflação até novembro acumulou alta de 4,05 %. No ano, o índice aponta alta de 3,59%. A expectativa do mercado financeiro, segundo o último relatório Focus, aponta para o IPCA uma elevação de 3,89% ao fim de 2018.

O piso da meta de inflação do Banco Central é de 3%. Em 2017, o IPCA foi de 2,95%, obrigando o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, a se explicar em carta aberta ao então ministro da Fazenda Henrique Meirelles pelo descumprimento da meta.

Maior queda em transportes

Dos nove grupos de produtos e atividades, cinco tiveram quedas nos preços em novembro: habitação (-0,71%), transportes (-0,74%), vestuário (-0,43%), saúde e cuidados Pessoais (-0,71%) e comunicação (-0,07%). Os quatro grupamentos que não fecharam o mês com taxa negativa foram educação (0,04%), alimentação e bebidas (0,39%), artigos de residência (0,48%) e despesas pessoais (0,36%).

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Fábio Romão, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2018 | 17h53

Quem entende de mar reza que antes de uma tempestade sempre tem uma calmaria. No caso da inflação no varejo, esta calmaria tem sido muito mais prolongada do que o mais antigo marinheiro poderia prever.

A maré até chegou a subir em meados de 2018 – mas pelo efeito temporário da paralisação dos caminhoneiros –, e teve outro soluço em setembro, por causa das altas do petróleo e do dólar.

As expectativas dos players subiram ao sabor dessa maré, mas rapidamente baixaram com a recente calmaria. Muito marinheiro tem repensado o timing de jogar a âncora: não faz muito tempo, alguns analistas avaliavam que a Selic subiria ainda em 2018; agora o mais recente boletim do BC aponta Selic subindo apenas em agosto de 2019 (e dá para apostar que vão empurrar para ainda mais adiante).

A deflação de novembro, é bem verdade, teve a influência da mudança de bandeira tarifária da energia elétrica, bem como da queda dos combustíveis, mas como ignorar o avanço ainda modesto dos Serviços (a LCA projeta a menor variação anual desde 2000) e de todas as medidas de núcleo de inflação?

A mansidão poderá se espraiar por boa parte de 2019, já que as esperadas acelerações dos alimentos (por conta de um El Niño de intensidade mediana) e dos preços de Serviços configuram-se como focos de pressão apenas moderados (até porque um crescimento do PIB na faixa de 2,5% ficará longe de esgotar a ociosidade na economia).

Ademais, esperamos desaceleração dos preços administrados em 2019, pois altas dos combustíveis como em 2017 (majoração de impostos) e 2018 (desabastecimento e petróleo) não estão no radar. Em adição, dificilmente o dólar subirá tanto como em 2018. 

A inflação atual lembra aqueles dias em que os marinheiros mais experientes saem para navegar com a tranquilidade de quem mal precisou consultar os instrumentos – uma maré mansa, que dispensará majoração da Selic por um bom período, sobretudo enquanto a atividade econômica não chancelar aumentos mais agressivos de preços.

* É ECONOMISTA SÊNIOR DA LCA CONSULTORES

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