Prédios eram ladrões de luz criados por bárbaros

Arranha-céus, como o que será inaugurado como um triunfo sobre a tragédia do World Trade Center, já foram criticados no início do século 

Christopher Gray, do The New York Times,

18 de junho de 2012 | 17h23

NOVA YORK - No final deste verão, o World Trade Center 1 terá atingido a altura de 541,3 metros. Nova York novamente ficará orgulhosa de ter o edifício mais dos alto dos Estados Unidos, um novo marco na corrida pelas alturas.

Mas é realmente uma boa coisa? Desde o nascimento do arranha-céu, nos anos 1860, passando pela sua fase adulta nos anos 1900, este tipo de "progresso" foi mais frequentemente denunciado do que defendido.

O Equitable Building, construído em 1868, considerado o predecessor do arranha-céu em Nova York, tinha apenas sete andares, erguido na Broadway esquina com Cedar Street, e ninguém imaginava que a partir do seu elevador a cidade começaria a ser refeita. Resenha no The Real Estate sobre o edifício afirmava que "ele torna pequenos os objetos em torno", mas tratava-se de um elogio, já que a altura conferia ao prédio uma "majestade".

Pelos padrões contemporâneos, o Equitable Building seria apenas um edifício atarracado do Segundo Império, e nos anos 1870 a nova safra de edifícios com elevador, no máximo de 10 andares, ainda não era reconhecida como uma tendência. O The Record and Guide ridicularizou o prédio da Western Union de dez andares, de 1875, qualificando-o como uma "loucura cara" que inundaria o mercado de metros quadrados e seria economicamente duvidoso. Mas esses primeiros edifícios eram considerados eventos isolados.

Em 1884, o New York Sun referia-se aos "prédios de nove e dez andares arranhando o céu" do Central Park South, termo que passou a ser usado na época por arquitetos, embora já fosse usado para descrever as partes mais altas de navios que zarpavam e uma bola alta no beisebol.

Esses edifícios não eram mais altos do que o Dakota, mas em 1885 o The New York Times defendeu a adoção de leis mais restritivas, prevendo que "se as ruas ficarem enfileiradas de prédios de oito andares, metade dos ocupantes serão privados da luz do sol e seus filhos crescerão pálidos como plantas num porão". Você pode dizer que a situação é séria quando o The Times envolve crianças no assunto.

À medida que os edifícios aumentaram, os arquitetos se viram numa posição difícil. Em 1904 o conhecido arquiteto George B. Post denunciou o arranha-céu, como um "escândalo". Por outro lado, quanto aos honorários que recebeu, de US$ 2 milhões, pelo New World Building , em Park Row, prédio de dez andares, bem, isso colocava o escândalo numa outra perspectiva.

Em 1897, o The Record and Guide protestou contra o projeto de um edifício de 609 metros dizendo que Nova York estava exposta "ao ataque de audaciosos proprietários imobiliários" nem um pouco preocupados em roubar a luz dos vizinhos e que "basta aparecer um bárbaro com dinheiro". A Câmara de Comércio também apoiou a restrição.

Os bárbaros na época eram normalmente grandes incorporadores, com frequência consórcios de St. Louis, Chicago e outras cidades, onde as condições urbanas em Nova York não significavam muito para eles.

Mas de vez em quando o arranha-céu encontrava um defensor. Numa edição em 1895 da revista Architecture and Building, o crítico Barr Ferree contestou a ideia de que eles eram uma continuação ampliada das "antigas casinhas das ruelas sujas e com todo tipo de imundície". Numa edição da revista Scribner’s, de 1897, Lincoln Steffens os qualificou como "a marca característica desta época e deste país".

No início do século passado, a proposta de proibir a construção de edifícios altos, ou limitá-los a 30 ou 45 metros, foi colocada em discussão. Alguns tinham sido projetados de modo admirável, especialmente torres independentes como o Metropolitan Life na Madison com a rua 24.

Nenhuma criança transformou-se em cogumelo e a iluminação elétrica e os sistemas de proteção contra incêndio foram aperfeiçoados. Os proprietários perceberam como era agradável o som das moedas tilintando nos bolsos. E de certo modo a maioria dos nova-iorquinos achou as ruas suportáveis.

Nesse contexto, as críticas aos arranha-céus passaram a ser consideradas irrelevantes. Ainda houve protestos, mas eles partiam de um círculo cada vez mais restrito, formado por arquitetos de elite e críticos. Na verdade, a construção desses edifícios só passou a ser controlada a partir de uma resolução aprovada em 1916, que limitou altura e recuos, restrições que pareciam até moderadas, em comparação com os apelos anteriores de impor um limite de 30 ou 45 metros.

Mas as restrições de altura não tiveram destaque na lei aprovada em 1916. Assim, diante de nós temos a perspectiva de uma torre de 540 metros que será considerada um monumento ao orgulho cívico, um triunfo sobre a tragédia. O que as pessoas disseram nos anos 1880 e 1890 hoje é apenas uma nota de rodapé./ Tradução de Terezinha Martino

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