Premiê grego enfrenta primeira greve geral

Durante manifestação na Praça Syntagma contra as medidas de austeridade, manifestantes entraram em choque violento com a polícia

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2012 | 03h07

Um dia depois dos espanhóis, os gregos voltaram às ruas para enfrentar a polícia ontem, em Atenas, na primeira greve geral contra a política de austeridade do primeiro-ministro Antonis Samaras. Os choques envolveram bombas de gás, de um lado, e coquetéis molotov, de outro, e aconteceram na Praça Syntagma, a principal da cidade, tomada por pelo menos 30 mil manifestantes. Alheio aos protestos, o governo planeja um novo pacote de medidas de rigor no valor de € 11,5 bilhões.

A mobilização de ontem foi convocada por sindicatos e partidos políticos de oposição e também aconteceu em Salonica, segunda maior cidade do país. Em Atenas, a greve causou desde cedo paralisações do transporte aéreo e marítimo, do comércio e de serviços públicos, incluindo hospitais.

Os manifestantes se concentraram pela manhã na praça central, em frente ao Parlamento grego, entoando gritos contra a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE), cujos técnicos formam a "troica", responsável pelo monitoramento da aplicação do programa de austeridade no país. "Não nos curvemos à troica", dizia um dos cantos.

Embora os sindicatos ressaltassem o caráter pacífico da manifestação, no início da tarde a Praça Syntagma já havia se transformado em palco de guerra.

Com uma presença ostensiva, a tropa de choque usou 5 mil homens e bombas de gás lacrimogêneo para tentar controlar os manifestantes. Alguns responderam com coquetéis molotov. Segundo balanço do Ministério do Interior, 120 pessoas foram presas.

Sob pressão. Os últimos confrontos em Atenas aconteceram na greve geral de fevereiro. Nesse intervalo, o atual primeiro-ministro Antonis Samaras venceu as eleições e assumiu o comando do país. O que não mudou foi a situação econômica da Grécia, que já ameaça a estabilidade do novo premiê. Samaras está pressionado pela opinião pública e pela União Europeia, que recusa a renegociação do segundo programa de socorro e a ampliação em dois anos do prazo para reequilíbrio fiscal.

Ontem, em Berlim, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, discutiram o caso da Grécia. Um dos temas em debate foi a liberação de parcelas que somam € 31,5 bilhões em empréstimos a Atenas.

Para tanto, a troica exigiu a elaboração do novo programa de austeridade, que chega a € 11,5 bilhões e deve ser confirmado nos próximos dias.

Segundo o jornal The New York Times, as negociações para o pacote de rigor provocaram uma discussão entre o diretor adjunto do Departamento Europeu do FMI, Poul Thomsen, e o ministro de Finanças da Grécia, Yannis Stournaras. Frente à pressão por novos cortes nos investimentos e gastos públicos, por novos aumentos de impostos e mais privatizações, Stournaras teria respondido: "Vocês se dão conta do que estão pedindo? Vocês querem derrubar o meu governo?".

A Grécia está em seu quinto ano de depressão econômica. Em 2012, a recessão deve chegar a 7%, superando os 20% no quinquênio.

Espanha. Os protestos em Atenas aconteceram na esteira dos realizados em Madri na terça-feira, que se repetiram em menor intensidade ontem, quando também houve enfrentamentos entre a polícia e os "indignados". Apesar da insatisfação popular quanto à troica na Espanha, o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, deu a entender ontem, em entrevista a The Wall Street Journal, que pode solicitar o socorro europeu caso os juros cobrados pela dívida soberana do país continuem a subir.

Incertezas relacionadas à Espanha e novos temores ligados à Grécia provocaram a intensificação da aversão ao risco nos mercados mundiais. As principais bolsas europeias fecharam em forte queda. Em Frankfurt, o recuo foi de 2%; em Paris, 2,82%; e em Madri, 3,92%. Nos Estados Unidos, a queda foi mais sensível. O índice Dow Jones recuou 0,33% e o Nasdaq, 0,77%.

A Bovespa, também sob influência do ambiente internacional, operou em queda, mas fechou praticamente estável, a 0,04%. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.