Premiê grego pede 'ar para respirar'

Grécia quer mais tempo para reequilíbrio fiscal e pagamento de dívida, mas Angela Merkel pede que países 'cumpram suas obrigações'

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2012 | 03h09

A crise na Grécia voltou a dividir os líderes da Europa em uma semana crucial. Ontem, enquanto o primeiro-ministro da Grécia, Antonis Samaras, pediu "um pouco mais de ar para respirar", e não "mais dinheiro" à União Europeia, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, recomendou aos países do bloco que "cumpram suas obrigações" na luta contra a turbulência econômica.

O choque de convicções acontece 48 horas antes do encontro entre os dois líderes políticos, que discutirão a renegociação dos prazos do programa de socorro concedido a Atenas.

As declarações de Samaras foram feitas em entrevista ao jornal alemão Bild na semana em que o chefe de governo faz uma turnê por Bruxelas, Berlim e Paris em busca de apoio para a renegociação. A Grécia reivindica mais dois anos para alcançar o equilíbrio fiscal (de 2014 a 2016) e mais quatro anos para começar a pagar suas dívidas (de 2016 a 2020). Com o prazo extra, o governo pretende adiar novos cortes orçamentários, estimados em € 11,5 bilhões, que aprofundariam a recessão no país. "Tudo o que queremos é um pouco de ar para respirar, para recolocar a economia na rota e aumentar a arrecadação do Estado", argumentou Samaras. "Mais tempo não significa automaticamente mais dinheiro."

De acordo com o premiê, o aumento dos prazos - ele não usa a palavra "renegociação" - ajudaria a manter a economia do país ativa "enquanto implantamos reformas". "Nós mantemos nossos engajamentos e cumpriremos nossos objetivos. Mas devemos relançar o crescimento, porque ele nos permitirá reduzir os déficits", explicou, advertindo: "Se deixarmos a Grécia falir agora, a incerteza para os outros países e sua vulnerabilidade aumentará."

Pelos cálculos de Atenas, a depressão econômica já levou a população a perder 35% de seu poder aquisitivo em apenas três anos. A eventual saída da Grécia da zona do euro ampliaria esse porcentual para 70% e custaria ao país pelo menos mais cinco anos de recessão aguda e a explosão do desemprego, que poderia atingir 40%. "Seria um pesadelo, um desastre econômico com distúrbios sociais e uma crise da democracia inédita."

Os apelos, entretanto, não parecem ter sensibilizado a chanceler alemã. Em visita à Moldávia, Angela Merkel descartou a hipótese de que um acordo sobre a renegociação possa ser firmado nessa semana. "Não teremos uma solução na sexta-feira", disse ela, referindo-se à data da reunião com Samaras.

A chefe de governo condicionou a decisão ao relatório que será publicado pela troica - o grupo que reúne técnicos da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) - sobre o estado da economia grega. Para Merkel, o que a Europa precisa é de credibilidade. "Esperaremos o informe da troica para decidir. Vou à reunião com a esperança de que a Alemanha, a França e todos os demais cumpram suas obrigações."

Antes dos encontros com a Merkel e Hollande, na sexta e no sábado, Samaras se reuniu ontem com o primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, coordenador do fórum de ministros de Finanças da zona do euro (Eurogrupo). Com um discurso diplomático, Juncker se disse "totalmente contrário" ao abandono da moeda única pela Grécia, mas disse que o acordo de renegociação "depende das conclusões da missão da troica".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.