Claudio Bresciani/ AP
David Card, Joshua D. Angrist e Guido W. Imbens são os premiados do Nobel de Economia de 2021 Claudio Bresciani/ AP

Nobel de Economia de 2021 vai para David Card, Joshua D. Angrist e Guido W. Imbens

Prêmio foi concedido para pesquisas sobre mercado de trabalho e sobre relações causais

Márcia de Chiara e Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 07h07
Atualizado 11 de outubro de 2021 | 21h16

Em um ano em que a economia mundial sofre para se recuperar dos prejuízos da pandemia, o Prêmio Nobel de Economia de 2021 foi atribuído ontem ao trio de economistas David Card, Joshua D. Angrist e Guido W. Imbens, por estudos relacionados ao mercado de trabalho e a políticas de desenvolvimento social. 

O canadense David Card, professor da Universidade da Califórnia, que levou metade do prêmio de US$ 1,14 milhão (R$ 6,27 milhões), é reconhecido pelo seu trabalho sobre os efeitos do salário mínimo, da imigração e da educação no mercado de trabalho. 

As pesquisas de Card iniciaram na década de 1990 e mostraram que o aumento do salário mínimo não necessariamente diminui a oferta de empregos; que a renda de pessoas nascidas em outros países pode melhorar com a imigração, enquanto pessoas que imigraram mais novas correm o risco de serem afetadas negativamente. Além disso, descobriu-se que os recursos nas escolas são muito mais importantes para o sucesso profissional dos alunos do que se imaginava. 

Já os americanos Joshua Angrist (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e Guido Imbens (Universidade de Stanford), que juntos receberam a outra metade do título, mostraram quais conclusões sobre causa e efeito podem ser tiradas de experimentos naturais -- quando o estudo é feito com base em dados observados na economia real, e não num experimento controlado. A estrutura desenvolvida por eles tem sido amplamente adotada por pesquisadores que trabalham com dados observacionais. 

"Os laureados de ciências econômicas deste ano demonstraram que muitas das grandes questões da sociedade podem ser respondidas. A solução deles é usar experimentos naturais – situações que surgem na vida real que se assemelham a experimentos aleatórios", afirmou a Real Academia de Ciências da Suécia, ao anunciar o resultado. 

Estudos sobre a pandemia

 O economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, observa que o economista David Card, um dos ganhadores do Nobel, é muito influente e tem vários estudos empíricos sobre o mercado de trabalho “Ele é muito grande na área”, afirma. Na sua opinião, talvez o estudo mais famoso seja a contribuição da educação para o mercado de trabalho, um ponto que ganha relevância neste momento de pandemia.

Esse estudo somado à  metodologia desenvolvida  pelos economistas americanos Joshua Angrist e Guido Imbens, também agraciados com o Nobel, devem ajudar, na opinião de Barbosa Filho, a responder uma pergunta crucial: quanto a pandemia vai afetar o mercado de trabalho no futuro. “Estamos falando no Brasil dos efeitos de um grupo de pessoas que não só ficaram dois anos sem estudar, mas também perderam conhecimento no período, porque conhecimento deprecia”, lembra o economista.

Quantificar esse prejuízo é muito importante, segundo ele, para  descobrir o “real tamanho do buraco que a gente se meteu nessa pandemia”, diz. Barbosa Filho lembra que  esse é o primeiro passo para poder desenhar quais serão as politicas públicas para preencher essa lacuna.

Sergio Firpo, economista do Insper e professor de econometria voltada para avaliação de políticas públicas, assim como o seu orientador na pós-graduação, o economista Guido Imbens, considera  que esse trio de  especialistas trouxe contribuições metodológicas relevantes. “O que eles têm feito separadamente e às vezes em parceria é criar uma metodologia que, a partir de certas premissas, consegue extrair da realidade as informações necessárias para avaliar o impacto de políticas  públicas, sem precisar fazer experimentos”, observa.

Ele explica que os experimentos, embora relevantes, muitas vezes são caros e  demorados. Com essa nova metodologia, ganha-se agilidade para avaliar a efetividade das políticas públicas e se os recursos estão sendo corretamente direcionados, a fim de evitar desperdícios.

Metades

 “As duas metades do prêmio são importantíssimas porque suas contribuições que inspiram economistas desde que foram publicadas, nos anos 1990, a usar novos métodos de estudo”, afirma Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo e coordenador do projeto Salariômetro da Fipe. 

Ele diz que David Card é muito criativo e conseguiu trazer para economia o que os médicos já  fazem há muito tempo: testar algum remédio, no caso da economia alguma política pública nova,  comparando com outro grupo, que não recebe esse mesmo benefício. A novidade é identificar esses grupos na vida real. “Essa ideia de fazer os economistas procurarem experimentos naturais que estão aí, só não são percebidos, tem um  resultado inquestionável”, diz  Zylberstajn.

Já Joshua Angrist e Guido Imbens se destacaram por criar um método para encontrar uma variável instrumental, que ajuda a separar o efeito interno de questão estudada do efeito que é mais geral, observa Zylberstajn. “Os dois efeitos se somam, mas são diferentes e essa variável ajuda a distingui-los.”

Zylberstajn ressalta que o uso desses métodos ganha mais significado neste período de pandemia em que os países têm de implementar novas políticas públicas de saúde, educação, por exemplo. “Ao mesmo tempo que vamos aplicar novas políticas, vamos poder medir os impactos e fazer as correções à medida que  as políticas forem sendo implementadas. Esse método dá mais segurança à formulação de políticas públicas.”

 

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Prêmio Nobel de Economia mostra relação causal no mundo real; leia análise

David Card foi meu orientador de doutorado e não conheço ninguém com mais capacidade de interpretar as implicações de dados socioeconômicos

Marcelo Neri*, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 20h34

Não foi com surpresa, mas foi com muita emoção que soube do Prêmio Nobel de Economia concedido a David Card, Joshua Angrist e Guido Imbens. David foi meu orientador de doutorado, não conheço ninguém com mais capacidade de interpretar as implicações de dados socioeconômicos.

As contribuições agraciadas permitem endereçar os efeitos emanados de políticas públicas com direção de causalidade envolvida. Por exemplo, qual é o impacto de mudanças da educação sobre o rendimento do trabalho. Aqui não queremos apenas saber se as variáveis se movem juntas, possivelmente pela ação de uma terceira variável, por exemplo a educação, ou a renda dos pais. Mas se mais educação gera maiores salários.

O cuidado de saber o que impacta o quê se aplica a uma miríade infindável de perguntas. Causalidade é um Santo Graal que nunca alcançamos, mas cuja busca retorna resultados mais confiáveis para prever o efeito de nossas decisões. Sem ela estamos no mundo de análise do sobe e desce de elevador.

O Nobel de 2021 restabelece justiça dos reconhecimentos, senão vejamos: Em 2019, o Nobel foi para Banerjee, Duflo e Kremer, de uma geração mais nova, pela aplicação de experimentos aleatórios em economia cujo objetivo também é possibilitar inferências de causa e efeito. O ponto comum é fazer a comparação entre grupos de tratamento e de controle, só que nos experimentos naturais estamos fora de condições ideais. Isto é, ao invés de criar um experimento aleatório onde os dois grupos são escolhidos por sorteio de forma a garantir a perfeita simetria das comparações, lança-se mão de situações já observadas no mundo real. Por exemplo, um estado que adota isolamento social maior, não acompanhado por um estado vizinho. Os efeitos sobre a saúde e a economia podem ser captados pela comparação. Cabe ao cientista social visualizar e tirar partido da oportunidade de aprender como o mundo funciona.

*ECONOMISTA, DIRETOR DO FGV SOCIAL

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