José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Preocupação maior é com novos danos à imagem

Produtores de carne querem que governo dê resposta imediata aos Estados Unidos

O Estado de S.Paulo

24 Junho 2017 | 05h00

Já abalado com os danos causados pela Operação Carne Fraca – que investiga corrupção entre fiscais do Ministério da Agricultura – e também com a delação dos controladores do grupo JBS, o setor de carnes teme agora o estrago na imagem que a barreira americana às exportações brasileiras possa causar. “A decisão do governo americano prejudica ainda mais os pecuaristas brasileiros”, disse, em nota, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O secretário executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, lembrou que, desde que ocorreu a Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em 17 de março, surgiu certa desconfiança do mercado internacional em relação aos produtos brasileiros. “Alguns países estabeleceram restrições e outros determinaram inspeção de 100% da carne”, disse.

Segundo ele, desde a Carne Fraca, “paira um clima de insegurança e incerteza” sobre o Brasil. “Mas o nosso sistema de inspeção é robusto e seguro. Esperamos reverter a suspensão o mais rápido possível”, disse.

Para Hélio Sirimaco, vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), a questão agora diz mais respeito ao possível efeito negativo sobre a imagem do Brasil perante outros países importadores do que propriamente a prejuízos financeiros. “Até porque os Estados Unidos não são um mercado relevante para o Brasil do ponto de vista de volume embarcado”, disse.

+ DELAÇÕES DA JBS REFORÇAM CRISE DA PECUÁRIA

A Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), porém, disse ser “inaceitável que haja esse tipo de ineficiência no serviço das indústrias frigoríficas brasileiras”, citando a reação à vacina da febre aftosa, apontada como causa do embargo americano.

Em comunicado, a associação cobrou do Ministério da Agricultura mais rigor sobre os laboratórios, por meio da exigência de melhoramento das vacinas produzidas no Brasil e de exclusão da composição da vacina de agentes considerados desnecessários à imunização do rebanho.

Vacina. Mas, de acordo com o vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), Emílio Carlos Salani, antes de se apontar culpados para o bloqueio imposto pelos EUA, é preciso esclarecer a situação, principalmente para o consumidor do produto. “É importante dividir a cadeia e entender todo o processo. A indústria de vacinas produz a vacina. O produtor faz a aplicação. Por fim, o frigorífico abate e faz a ‘toalete’ (quando se retiram imperfeições da carcaça do boi). Vacinação é um tema muito complexo e técnico. Queremos entender se toda esta demanda que vem dos EUA é inerente à reação de vacina, ou se tem outras coisas”, disse.

Diante da complexidade, Salani destacou como positiva a declaração do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, apontando a necessidade de se abrir uma investigação para entender o que está acontecendo. Segundo o ministro, é preciso tentar resolver esse assunto o mais breve possível, “já que pecuária brasileira enfrenta grande dificuldade, com preços baixos”.

“A vacina brasileira é a melhor para aftosa na América Latina, quem sabe até no mundo. Cerca de 350 milhões de doses são aplicadas de maneira normal no Brasil durante as duas campanhas anuais (novembro e maio), além de outras 100 milhões que são exportadas para países vizinhos. Se a vacina não fosse segura, teríamos 350 milhões de reclamações”, ressaltou Salani.

Conforme o executivo, todo o material é vistoriado pelo Ministério da Agricultura, após um rígido controle e aprovação para a comercialização. “Quando ele (ministro) fala em verificar, ele tem de estar ciente de que 100% da vacina é controlada pelo governo”, salientou. / TANIA RABELLO, GUSTAVO PORTO, CLARICE COUTO, CRISTIAN FAVARO E FABRÍCIO DE CASTRO

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