Preparando-se para a nova norma climática

Poucas previsões sobre o crescimento econômico levam em conta os impactos do clima

Vinod Thomas*, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2017 | 05h00

Grandes enchentes no Brasil e na Índia, temporais de enormes proporções nas Filipinas e nos EUA e ondas de calor no verão da Austrália e do Canadá nos últimos anos são manifestações de uma alarmante tendência de crescimento dos desastres relacionados ao clima. Os anos 2010 podem ser lembrados como a década em que a linha de tendência desses eventos se dirigiu de modo agressivo para o Norte.

O aquecimento global contribuiu para a elevação da temperatura dos oceanos, da umidade do ar e do nível do mar. De forma incomum, o aquecimento global tem maior probabilidade de tornar o verão japonês de 1,5 a 1,7 vez mais quente. A destruição ambiental agravou a seca na Colômbia, as enchentes no Paraguai e os deslizamentos de encostas no Rio de Janeiro.

Além disso, os eventos meteorológicos se transformam em desastres naturais por razões humanas. Mais pessoas são prejudicadas quando ficam expostas ao perigo e se tornam vulneráveis e incapazes de enfrentá-lo. E a intensidade e a frequência dos riscos são maiores em razão do aquecimento global produzido pelo homem.

Poucas previsões sobre o crescimento econômico consideram os impactos climáticos que já são evidentes ou o grande investimento que será necessário para as ações nesse sentido. Falta esse prognóstico nas estimativas atuais para alcançar um crescimento global em torno de 3% a 3,5% e de 1,3% a 1,8% na América Latina em 2017.

Em anos recentes, as enchentes e tempestades causaram significativas perdas econômicas. Após a crise financeira, os governos e as instituições multilaterais intensificaram seus esforços de previsão das futuras crises, testando os limites da vulnerabilidade de seus sistemas bancários. Da mesma forma, precisamos avaliar em que medida os países são capazes de suportar o impacto do aumento de acidentes naturais.

Temos de considerar a importância de todas as três formas de capital: físico, humano e natural. O capital natural de um país –?o seu estoque de bens naturais – é essencial para o ritmo e a qualidade do crescimento. O uso da terra e as práticas agrícolas sustentáveis, assim como a gestão costeira e florestal, necessitam de maior ênfase.

Essas ações trazem benefícios locais. Um exemplo disso é a redução das emissões de carbono negro que contaminam o ar de tantas cidades como Pequim e Nova Délhi, da mesma forma que São Paulo e Rio de Janeiro. Os investimentos em energia solar fotovoltaica na China e no Japão e em energia eólica terrestre na Europa estão indicando o caminho para um maior uso de energia renovável.

A América Central e o Caribe estão mais propensos aos desastres naturais, e cidades como Rio de Janeiro e São Paulo são vulneráveis. O crescimento da América Latina se caracterizou pelo aumento da urbanização, tornando imprescindível que uma gestão favorável ao clima se converta numa abordagem estratégica.

Os desastres naturais relacionados ao clima se transformaram em eventos sistemáticos que necessitam de ações preventivas. Alguns países, como Brasil, Costa Rica e México, tomaram importantes medidas de mitigação. O Japão investe cerca de 5% do orçamento nacional na redução do risco de desastres naturais, atenuando, assim, as perdas resultantes desses fenômenos.

Para promover o crescimento sustentável e o bem-estar social, precisamos valorizar o capital natural, reconhecer a atuação humana nas mudanças climáticas e realizar ações preventivas contra as calamidades associadas ao clima.

*Professor visitante na Universidade Nacional de Cingapura e ex-diretor do Banco Mundial no Brasil, é autor de "Climate change anda natural disasters: transforming economies and policies for a sustainable future" (Transaction Publishers)

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