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Presentes importados custam caro aos EUA

Em sua maioria fabricados na China, presentes de Natal vão trazer mais prejuízo que crescimento

ALAN TONELSON , THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR NEWS SERVICE, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h05

Artigo

Embora as primeiras previsões de uma temporada de compras de Natal recordes tenham sido revistas para baixo, permanecem vivas as esperanças de que as vendas no varejo de dezembro ainda darão um necessário impulso à economia americana. Mas a orgia de consumo de presentes de Natal na verdade dará muito mais prejuízos do que crescimento e empregos aos EUA. Isso porque quase todas as compras são de importados, e novos dados deixam claro que a criação de dívidas pelos consumidores neste ano atingirá novos recordes.

O consumo dos americanos gera uma maior produção americana e, portanto, mais emprego - mas, sobretudo, quando os bens e serviços que eles compram são produzidos no país. Quando os americanos compram produtos importados, quase todo o crescimento e os empregos são criados onde esses produtos são feitos - no exterior.

Pior, como todos os itens comprados por americanos com crédito, as compras de importados financiados por dinheiro emprestado (como os déficits comerciais americanos comprovaram) aumentam a dívida já inchada do país. Relativamente falando, em nenhum lugar os efeitos desse vazamento e criação de dívida são maiores que nas categorias de bens de consumo há muito dominadas por produtos fabricados no exterior, e nelas estão quase todos os presentes natalinos.

A maneira como as compras de Natal afetam a economia é mais bem observada quando se examinam 24 categorias de bens de consumo das quais se podem encontrar dados oficiais confiáveis. Em 2009, os americanos consumiram pouco mais de US$ 143 bilhões desses produtos. Quase 80% vieram do exterior, e quase 45% foram produzidos na China.

Em 2o10, essas compras subiram para US$ 158 bilhões, com porcentagens ligeiramente mais altas de importados do exterior e da China (os números seriam ainda mais altos se os dados sobre eletrônicos de consumo fossem incluídos, mas esses dados têm contradições internas demais para ser confiáveis).

O domínio dos importados é quase total - entre 95% e 99% - em categorias de presentes populares como jogos e brinquedos exceto bonecas e bichos de pelúcia; luvas; camisas para homens e meninos exceto camisas de trabalho; e ternos, casacos, jaquetas e saias para mulheres e meninas. Num setor amplo de vestuário para homens e meninos que abarca tudo, de roupas esportivas a toda sorte a capas de chuva e jaquetas para roupas de natação, 98% são importados. E todos, menos 3% dos calçados femininos não esportivos, são importados. A China é o maior país fornecedor isolado na maioria desses e de outros segmentos individuais também.

A penetração das importações é menor, mas ainda ampla (variando de 84% a 87%) em setores como ternos e casacos para homens e meninos; vestidos para mulheres e meninas; joias finas; e sapatos não esportivos para homens exceto tênis. As importações respondem por 69% das gravatas e lenços de pescoço para homens e meninos e 76% de ferramentas manuais elétricas.

Os números para 2011 só estarão disponíveis no próximo ano, mas todos os sinais indicam um domínio ainda maior dos importados nas compras de Natal deste ano. A produção da economia americana, apesar de todos os problemas, permanece em geral muito mais forte que os setores de presentes de Natal inundados de importados. Ela cresceu 3,94% nos últimos 12 meses, segundo os mais recentes dados.

Entretanto, as importações nos setores de artigos natalinos cresceram 5,8% no mesmo período. De forma que as importações de presentes de Natal estão a caminho de superar quaisquer avanços da produção americana nesse setor.

Como os países que pagam salários miseráveis como a China têm mais vantagens competitivas na fabricação de produtos com mão de obra intensiva, o prevalecimento das importações nas compras natalinas é garantido. Mas as políticas americanas também podem fazer ou mudar a sorte dos produtores domésticos desses itens.

Considere-se a situação em 1997, o primeiro ano em que números detalhados da penetração de importados podem ser calculados. Os americanos ainda produziam então mais de 57% dos ternos e casacos para homens e meninos que compravam, um terço das roupas e camisas esportivas masculinas, mais de 70% dos vestidos de mulheres, quase 40% das blusas e saias de mulheres, quase a metade das joias finas, quase dois terços das ferramentas manuais elétricas e mais de 27% de brinquedos e jogos.

Quatro anos depois, porém, Washington aprovou a entrada da China na Organização Mundial de Comércio. Essa decisão deu à China imunidade a leis americanas para combater práticas comercias desleais como a omissão da propriedade intelectual, e as importações chinesas deslancharam.

O mais notável é que as importações também estão ganhando rapidamente participação nos mercados americanos em setores com maior intensidade de capital e tecnologia e de valor mais alto. Nesses setores, os custos trabalhistas representam muito menos e os produtores domésticos americanos poderiam, portanto, ter vantagens importantes. Mas não tem sido assim. Os importados estão comendo participação no mercado americano de produtos feitos nos EUA.

Para mais de 100 desses setores avançados estudados por uma década pelo US Business and Industry Council, a participação dos importados no mercado americano atingiu um recorde de 38% em 2010 - ante 24% em 1997. E em muitos setores valorizados as importações fizeram incursões crescentes.

Esses ganhos, à custa de produtores americanos, mostram o quão dramaticamente a fabricação americana de produtos de alto valor pode ser erodida por acordos comerciais equivocados que encorajaram a produção no exterior e a terceirização do emprego. Os subsídios de governos estrangeiros à fabricação estrangeira dá vantagens de preço artificiais, mas com frequência decisivas, aos importados.

Recuperar essas participações de mercado perdidas do mercado manufatureiro americano é fundamental não só para revitalizar o setor, mas para transformar a crise econômica nacional alimentada por endividamento e gastos de hoje numa recuperação saudável puxada pela produção. Mas o sucesso vai requerer uma reformulação completa do comércio americano e de outras políticas econômicas internacionais. Um primeiro passo óbvio seria transformar em lei um projeto já aprovado pelo Senado para combater a manipulação cambial da China e outros competidores comerciais dos Estados Unidos.

Uma nova política econômica internacional deveria incluir outros elementos constitutivos importantes, O governo precisa de provisões mais fortes e mais amplas sobre suas compras de produtos fabricados domesticamente, para aumentar ao máximo os gastos em dólares tributáveis de bens e serviços produzidos nos EUA. Os EUA deveriam cobrar tarifas sobre países cujos sistemas tributários por valor adicionado subsidiam as exportações aos EUA e impedem vendas americanas em seus mercados. Investidores estrangeiros nos EUA deveriam ter de usar principalmente partes e componentes de fabricação americana em seus produtos e compartilhar suas tecnologias de ponta com sócios americanos. E os EUA precisam implementar tarifas de importação mais amplas se essas medidas não reduzirem pronta e significativamente os déficits comerciais americanos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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