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Preservar lago de hidrelétrica coloca em risco abastecimento de água

ONS avisa Pirapora (MG) que precisa reduzir a quantidade de água do Rio São Francisco para que a barragem de Três Marias não seque até setembro

Alexa Salomão, de O Estado de S. Paulo,

22 de abril de 2014 | 22h15

SÃO PAULO - O município de Pirapora, em Minas Gerais, passa por uma situação singular - pode ter o abastecimento de água prejudicado para que o lago da hidrelétrica de Três Marias não seque antes das chuvas do próximo verão. A usina é da Cemig, mas quem coordena o volume de água na barragem é o Operador Nacional do Sistema (ONS), órgão responsável pela gestão do sistema elétrico nacional.

"Nossa situação não faz o menor sentido", diz Esmeraldo Ferreira Santos", diretor-presidente do Sistema de Abastecimento de Água e Esgoto de Pirapora. "A prioridade do uso da água é o abastecimento humano." O município precisa construir a toque de caixa um novo sistema de captação de água. O atual, que se abastece no Rio São Francisco, há cerca de 50 anos, só funciona quando o volume de água do Velho Chico corre acima de 250 metros cúbicos por segundo (m³/s).

Esse volume pode ser regulado pelas comportas da hidrelétrica de Três Marias, a 120 km rio acima da cidade. Por determinação do ONS, esse volume deve cair para 150 m³/s a partir de 1.º de junho, mas o município diz não ter como cumprir o prazo. O ONS, por sua vez, declarou à prefeitura que precisa tomar a providência para preservar o lago da hidrelétrica.

Sem água. Barragens de hidrelétricas são como caixas de água. Numa ponta entra a água de um rio. Na outra, a água desce pelas turbinas, gerando energia, retornando ao rio. O nível do lago varia de acordo com volume que entra e o volume que sai.

Segundo simulações apresentadas pelo ONS à prefeitura de Pirapora, sem a redução, no fim do mês de setembro (mais precisamente dia 25), o lago de Três Marias estará completamente seco. Se o volume for reduzido, o lago terá de 5,5% a 6 % de água em novembro, quando começam as chuvas de verão.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, que não querem ser citados, a barragem de Três Marias vive uma situação complicada. A quantidade de água do São Francisco que entra é hoje menor do que a quantidade que sai na outra ponta.

'Em cima da hora'. A forma como o processo foi conduzido – é isso que mais incomoda a prefeitura de Pirapora, em Minas Gerais, na discussão sobre a redução no volume de água que será liberado da barragem de Três Marias para o rio São Francisco. "Nos avisaram em cima da hora, numa reunião há 30 dias", diz Esmerado Ferreira Santos, diretor-presidente do Sistema de Abastecimento de Água e Esgoto de Pirapora. "Eles tinham que nos manter informados, mas do jeito que fizeram foi como dizer: se vira, vai lá e faz."

Segundo Santos, o município precisa de R$ 2,4 milhões em investimentos e de 60 a 90 dias para instalar um novo sistema de captação, com bombas, para puxar a água quando ocorrer a redução no volume de água dos atuais 250 metros cúbicos por segundo (m3/s) para 150 m3/s, como determinou o Operador Nacional do Sistema (ONS).

O tamanho da redução proposta pelo ONS causou estranhamento por uma razão simples: "Em 2001, por causa do racionamento, um momento difícil, ficou estabelecido que o volume mínimo seria 300 m3/s e nunca pensamos que pudesse cair abaixo disso, mas o ONS avisou que baixaria para 250 m3/s", diz Santos. "Fizemos a nossa parte e interrompemos o abastecimento da cidade duas vezes para reformar e limpar os canais e conseguimos aproveitar um volume menor de água, mas abaixo disso não temos condição de captar a água."

Racionamento. Segundo especialistas em água e energia ouvidos pelo Estado, que não querem ser identificados, a situação poderia ser menos grave se a água de Três Marias tivesse sido poupada. "O ONS se recusa a falar em racionamento de energia e o resultado disso é o racionamento de água", diz um especialista do setor.

O lago de Três Marias é vital para o setor elétrico. Pode suprir uma cidade com 850 mil habitantes. Mas está com 18% da capacidade. Se baixar mais, não apenas pode deixar de gerar a energia esperada, como afetar o abastecimento em dezenas de municípios junto ao São Francisco, diz outro especialista.

Procurada, a Cemig comunicou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o porta-voz para tratar do tema é o ONS. Em nota, o ONS declarou que: "Na atual situação, de baixas condições hidrológicas do período úmido em curso, o ONS está adotando, dentro de sua filosofia de operação, medidas adicionais objetivando preservar ao máximo os estoques de água desses reservatórios." A nota diz que "como alguns reservatórios envolvem questões ambientais ou de uso múltiplo da água, a redução de vazão tem sido realizada em conjunto pelo MME, Aneel, ANA, ONS e agentes envolvidos."

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