Presidente argentina só negocia com fim da paralisação agrícola

Produtores exigem a suspensão dos aumentos sobre as retenções para as exportações de produtos agrícolas

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

27 de março de 2008 | 20h54

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, jogou ontem um balde de água fria nas expectativas de trégua do governo com o setor agropecuário. A trégua poderia pôr fim à greve de 16 dias que tem provocado desabastecimento de alimentos, prejudicando as exportações agrícolas e disparando a inflação. Veja também:Confrontos deixam vários feridos em panelaços na Argentina  Num discurso perante seus aliados políticos, Cristina - com profundas olheiras - afirmou que só negociará quando as quatro associações do setor agropecuário suspenderem a greve: "Levantem a paralisação, e aí poderemos dialogar". Os produtores exigem a suspensão dos aumentos sobre as retenções para as exportações de produtos agrícolas, implementados recentemente pelo governo. Segundo os produtores, com a alta de impostos (os tributos sobre a soja subiram de 25% em janeiro de 2007 para atuais 45%), o setor agrícola perdeu toda a sua lucratividade. Os produtores agrícolas também acusam o governo de usar as retenções para manter o superávit fiscal de forma artificial.  Cristina - rodeada por todos os ministros, vários governadores e centenas de prefeitos, além de líderes sindicais - deixou claro que seu governo não dialogará "com um revólver apontado contra a cabeça". Durante ato organizado por seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, no centro de convenções Parque Norte, a presidente disse, em tom categórico: "Suspendam essas medidas (a greve e os piquetes nas estradas, que impedem o transporte de alimentos) que aplicam contra o povo".  Panelaços Utilizando o aparato do Estado, Kirchner mobilizou governadores, centenas de prefeitos, sindicalistas e manifestantes, com o objetivo exibir ao país que a estrutura do poder político está do lado da presidente, mergulhada há mais de duas semanas em um crescente conflito com o setor agropecuário. Além disso, o evento pretendia neutralizar os panelaços contra o governo realizados na terça e quarta-feira pela classe média de Buenos Aires. Os portenhos transformaram-se em aliados circunstanciais dos produtores agrícolas e protestam contra a inflação, o desabastecimento e os escândalos de corrupção.  No meio da tarde, horas antes do discurso, as lideranças agropecuárias haviam decidido acenar com uma possibilidade de trégua de 48 a 72 horas com o governo, caso Cristina desse sinais de abertura ao diálogo. Após os discursos, as primeiras reações de lideranças agropecuárias indicaram que Cristina estava "cheia de ódio e revanchismo".  A presidente também tentou minimizar a importância dos panelaços realizados nesta semana contra o governo pela classe média portenha, indicando que as manifestações "não foram espontâneas".  Desabastecimento Na Câmara de Deputados e no Senado, onde o partido governista, o Justicialista (peronista) e sua sublegenda kirchnerista Frente pela Vitória têm maioria, os parlamentares repudiaram a greve do setor agrícola e cerraram fileiras com a presidente.  Enquanto isso, o número de pessoas que aderem aos piquetes dos produtores no interior do país - para impedir o trânsito de caminhões com produtos agrícolas - cresce dia-a-dia.  O desabastecimento alastra-se e está deixando os argentinos sem grande parte de seus alimentos. Até o fim desta semana o país ficaria sem leite. A carne já desapareceu das gôndolas. E várias indústrias - que utilizam produtos agropecuários - ameaçam suspender operários, por falta de trabalho. O ministro da Economia, Martín Lousteau, autor do aumento das retenções, está cada vez mais desgastado. Especulações indicam que ele poderia ser substituído nos próximos dias pela diretora do Banco de La Nación, Mercedes Marcó del Pont, amiga de Cristina Kirchner. Marcó del Pont argumentou ontem que "o Estado tem que intervir mais na economia".

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