Walterson Rosa
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Presidente da Caixa nega aversão de investidores por estatais e aposta em IPOs

Em função do impacto da pandemia, lucro do banco registrou queda de 37,5% no ano passado em relação a 2019; estatal prepara a abertura de capital da Caixa Seguridade

André Ítalo Rocha e Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2021 | 05h00

Como os pares privados, a Caixa Econômica Federal sofreu o impacto da pandemia em seus resultados de 2020. No caso do banco público, porém, o efeito aconteceu principalmente por conta da operação de pagamento do auxílio emergencial a 121,3 milhões de brasileiros e de ganhos menores com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Sem a prioridade na venda de produtos e serviços nas agências e a receita com o FGTS cortada para que não perdesse o monopólio do serviço, a instituição sofreu. O lucro líquido, de R$ 13,17 bilhões em 2020, registrou queda de 37,5% em relação a 2019.

Ainda que pese o pior momento da pandemia no Brasil, o banco vê boas perspectivas, já que o pagamento do auxílio emergencial deve ter menos influência no dia a dia da Caixa neste ano. Maior programa de distribuição de renda da história, o programa terá uma nova etapa, mais enxuta e que está prevista para começar apenas em abril. Todo o sistema, contudo, já está pronto e baseado no digital, por meio do aplicativo Caixa Tem.

Há ainda o plano das ofertas de ações, que contam com todo o empenho do presidente da Caixa, Pedro Guimarães. Próximo ao presidente Jair Bolsonaro, ele nega que o ambiente de investimentos tenha ficado mais adverso para as estatais após a interferência do governo em duas empresas públicas com capital aberto, a Petrobrás e o Banco do Brasil. Além de emplacar sua primeira listagem na Bolsa, de seu negócio de seguros, o banco também quer vender os papéis ordinários do banco Pan, o antigo e falado Panamericano – e as operações já estão engatilhadas.

“Não estamos vendo nenhum evento adverso para estatal. Muito pelo contrário: há interesse enorme (do mercado) em conhecer a Caixa Seguridade”, disse Guimarães, em coletiva de imprensa para comentar os resultados do banco em 2020.

Nas últimas semanas, contudo, as ações de Petrobrás e Banco do Brasil foram penalizadas por investidores, depois de Bolsonaro reagir com irritação a decisões das companhias. Na petroleira, demitiu o então presidente Roberto Castello Branco e pôs no lugar o general Joaquim Luna e Silva. No banco público, ameaçou duas vezes mandar embora o presidente do BB, André Brandão, que entregou sua carta de renúncia ontem.

Apesar de ter ficado em segundo plano na pandemia, a gestão atual da Caixa tem trabalhado, sob o comando de Guimarães, para abrir o capital da sua holding de seguros, a Caixa Seguridade. Depois de a operação ter sido engavetada em meio à turbulência gerada pela covid-19 nos mercados, ganhou tração no início do mês com o pedido de registro da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Nesta semana, a holding de seguros já realizou rodadas de encontros com potenciais investidores, conforme antecipou ontem o Estadão/Broadcast. Confiante, o presidente da Caixa também reforçou a intenção de atrair investidores pessoas físicas para o IPO da Caixa Seguridade. “Será a maior oferta em termos porcentuais e em volume que as pessoas (físicas) vão participar”, afirmou. "Porcentual será grande, muito maior que os 10% normais porque a Caixa tem 100 milhões de clientes.”

O processo para abrir o banco digital, que nasceu durante a pandemia com o aplicativo criado para distribuir o auxílio emergencial, corre em ritmo mais lento, porque ainda depende de autorização do Banco Central (BC) para ser formalizado como uma instituição bancária. Contudo, a Caixa já conseguiu autorização da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest) para constituí-lo.

Se conseguir avançar com os IPOs, a Caixa espera ter mais recursos para pagar instrumentos híbridos de capital e dívida (IHCD). Os recursos em IHCD foram aportados na instituição na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff para dar suporte à estratégia de concessão de crédito utilizada à época. Agora, no governo Bolsonaro, o banco está devolvendo esses empréstimos.

A Caixa pretende retomar os pagamentos do IHCD em 2021, após ter ficado sem fazê-lo em 2020, em razão da pandemia. Em 2019, foram pagos R$ 11,5 bilhões.

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