Agência Petrobrás
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Presidente da Petrobrás evita dar pistas sobre reajuste de combustível

Para analistas, valorização do dólar e acordo da Opep para reduzir produção vão pressionar a estatal a aumentar preços

Circe Bonatelli e Karin Sato, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2016 | 16h11

O presidente da Petrobrás, Pedro Parente, evitou dar pistas sobre qual será a posição da companhia em relação a um possível reajuste no preço dos combustíveis no País diante da onda recente de valorização do dólar frente ao real e do acordo fechado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para reduzir a produção e forçar uma alta no valor da commodity no mercado internacional. Segundo o executivo, a decisão sobre o assunto será divulgada só depois da próxima reunião do comitê da diretoria que trata do preço dos combustíveis, prevista para ocorrer na primeira quinzena deste mês.

"Não posso dar nenhum indicação, porque não resolvo sozinho. O comitê tem três pessoas", afirmou o presidente da Petrobrás em entrevista à imprensa após participar de evento realizado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), na cidade de São Paulo.

O comitê mencionado é formado por Parente, pelo diretor financeiro, Ivan de Souza Monteiro, e pelo diretor de refino e gás natural, Jorge Celestino Ramos. "Em respeito a essas pessoas, temos que aguardar a discussão para poder trazer uma posição", completou o executivo, sem informar, porém, qual a data exata em que ocorrerá o encontro.

"Nós anunciamos uma política, com reunião uma vez por mês, em que nós avaliamos várias questões, como essas variáveis (câmbio e produção global). Avaliamos também o market share e aí tomamos uma decisão", explicou Parente. 

Política de preços. Antes, a discussão era sobre a existência da política de preços da Petrobrás. Hoje é se essa política é boa ou não, disse Parente no evento na capital paulista. Atualmente, a estatal promove reuniões regulares para discutir os preços tendo por base o câmbio e os preços do petróleo.

O executivo lembrou que, no passado, a petroleira praticou preços abaixo da paridade internacional, o que contribuiu para uma parte importante da dívida da empresa.

Nesta semana, a Opep chegou a um acordo para cortar a produção de petróleo, levando os preços da commodity a fortes valorizações, o que levou analistas a escrever em relatórios que a empresa enfrentará agora um teste. Se a petroleira reajustar preços, ampliará a convicção dos investidores na política de preços da empresa e a confiança na diretoria. Em cálculos de analistas de bancos, a estatal necessitará de um reajuste de dois dígitos.

Os profissionais também notaram, contudo, que o atual momento político e econômico de turbulência do país coloca a companhia numa situação desafiadora.

Trump. As consequências para o Brasil e para a Petrobrás da eleição do republicano Donald Trump nos Estados Unidos e a esperada alteração na política externa do país serão de natureza indireta, afirmou o presidente da Petrobrás.

Nesse contexto, Parente afirmou que a taxa de câmbio e o preço do petróleo serão relevantes para o negócio da empresa e disse que o Federal Reserve (Fed) demonstra uma falta de percepção clara do que está acontecendo na economia americana.

Ele destacou que ninguém sabe o que vai acontecer. "Todo mundo sabe que haverá alteração, mas não sabe qual será", disse. "Estive nos Estados Unidos e conversei com grupos distintos, cada um tinha uma visão", acrescentou.

Mais uma questão relevante para a Petrobrás será o patamar de crescimento econômico da China, explicou Parente. "Crescer 6%, 7% ao ano, pode ser o sonho de todos os países do mundo, menos da China. A questão é saber se esse é um patamar de piso ou se haverá problemas futuros quanto ao crescimento chinês", disse.

Shale gas. Parente falou também da mudança na indústria causada pelo shale gas, que trouxe repercussão para a indústria química. "Tivemos uma mudança bastante repentina na curva de oferta e demanda. Certamente, a grande contribuição para essa mudança não foi repentina na demanda e sim relativa a uma oferta de óleo e gás diferente da tradicional, que é o shale gas", comentou.

"Quando se soma o cenário da indústria com questões exclusivas da Petrobrás, nossa atuação tem de ser muito mais efetiva", afirma. 

Lava Jato. O presidente da Petrobrás disse também no evento que a estatal é, antes de tudo, vítima no processo da Lava Jato, com prejuízos inclusive de reputação. "Não se esqueçam disso, não é um detalhe. Antes de tudo, a Petrobrás é uma - e talvez a principal - vítima do processo", afirmou o executivo. 

Odebrecht. Parente sinalizou que a companhia pode ser beneficiada com o recebimento de algum montante oriundo do acordo de leniência assinado na quinta-feira, 1º de dezembro, pela Odebrecht com o Ministério Público, que estabelece a obrigação de a construtora pagar R$ 6,8 bilhões ao longo de 23 anos. No entanto, o presidente da Petrobrás não citou estimativa de valores. "Obviamente, temos expectativa em relação a esses valores também, mas não temos indicação", afirmou, após ser questionado por jornalistas.

Ele lembrou que a Petrobrás já foi ressarcida por danos identificados durante a Operação Lava Jato, o que reforça a tese de que a companhia foi vítima, e não protagonista do processo de desvios e mau uso de recursos públicos. "Gostaria de ressaltar que já recebemos R$ 660 milhões vindo de delações e indenizações. Isso comprova a tese de que a Petrobrás é vítima e não estaria recebendo esses valores se não fosse", disse.

Em sua palestra durante o evento da Abiquim, Parente disse também que a companhia teve recursos aceitos pela Justiça dos Estados Unidos, pois não havia razão para as chamadas 'class actions' (ações coletivas) movidas por investidores daquele país. Além disso, a empresa buscou realizar negociações extrajudiciais para agilizar a pacificação do assunto.

"A estratégia da empresa foi conversar com os investidores que estavam fora da class action, mas contra a empresa. E fizemos uma série de acordos Não reconhecemos culpa, mas tivemos a visão pragmática de que é melhor resolver cedo para tirar essa sombra da empresa", explicou.

Eletrobrás. Na entrevista à imprensa, Parente comentou também que é importante haver um acordo referente à dívida de R$ 5,4 bilhões da Eletrobras cobrada pela Petrobrás. A petroleira pede o reconhecimento da dívida para transformá-la em títulos que serão oferecidos ao mercado. 

"Acho que é muito importante para as duas empresas que a gente chegue a um entendimento adequado para o equacionamento dessa dívida", disse Parente. Ele estimou que a Petrobrás deve apresentar ainda neste mês uma posição em resposta à proposta feita pela Eletrobrás.

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