Previ/Divulgação
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Presidente da Previ, José Maurício Coelho, renuncia ao cargo

Executivo estava à frente do maior fundo de pensão do País desde julho de 2018; segundo relato de pessoas próximas, pesou na decisão a repercussão da venda de parte das ações que a Previ detinha na BRF para a rival Marfrig

Aline Bronzati , O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2021 | 16h17
Atualizado 25 de maio de 2021 | 23h17

Presidente da Previ, o poderoso fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, José Maurício Coelho apresentou nesta terça-feira, 25, seu pedido de renúncia do cargo. Ciente de que já seria substituído antes do fim de seu mandato (que só se encerraria em maio de 2022), por conta da troca de comando no próprio banco público, ele preferiu abdicar para evitar uma fritura no posto. A expectativa é que um novo nome seja indicado até o fim desta semana. Com cerca de R$ 240 bilhões em patrimônio e participação em empresas como Petrobrás, Vale, Embraer e Gerdau, a Previ é hoje o maior fundo de previdência do País.

O motivo para a saída de Coelho, que estava no cargo desde julho de 2018, não foi explicado oficialmente pela Previ. Mas o Estadão/Broadcast apurou que pesou na decisão do executivo a repercussão da venda de parte das ações que a Previ detinha na BRF. A Previ confirmou ter obtido R$ 651 milhões em leilão pelos papéis. A compradora das ações, a Marfrig, foi conhecida apenas após o fechamento dos mercados. 

Com a operação, que incluiu ainda a compra de ações em poder da Kapitalo Investimentos, a Marfrig passou a deter 24% de participação na BRF, dona de marcas como Sadia, dois anos depois de uma tentativa frustrada de fusão entre os dois grupos de alimentos. A Marfrig pode ser questionada por não ter revelado que era ela a compradora quando atingiu 5% das ações, como ditam as regras do mercado.

Preocupado em se tornar alvo de um eventual tiroteio, Coelho teria conversado com o novo presidente do BB, Fausto Ribeiro, no sábado e no domingo. O contato foi feito por meio de ligação telefônica, uma vez que um estava no Rio de Janeiro, sede da Previ, e o outro em Brasília. Hoje, em uma nova conversa, ele comunicou a Ribeiro sua decisão de antecipar o pedido de renúncia à presidência da Previ.

Sequência de trocas

A mudança acontece cerca de dois meses depois de André Brandão deixar o comando do BB, por interferência direta do presidente Jair Bolsonaro – que não concordou com um plano de reestruturação que incluía fechamento de agências e corte de funcionários. Também se segue a dois outros movimentos importantes envolvendo os bancos públicos. 

No primeiro caso, a Caixa destituiu o presidente e dois diretores da Funcef, o fundo dos funcionários do banco. O presidente da CaixaPedro Guimarães, queria ter mais poder sobre a alocação de recursos do fundo, que tem patrimônio superior a R$ 80 bilhões.

Ainda na semana passada, Paulo Caffarelli renunciou ao comando da Cielo, que é controlada por BB e Bradesco. Nesse caso, a informação é que havia insatisfação do governo com o executivo – que chefiou o banco de investimento do BB, de 2012 a 2014, na primeira gestão Dilma Rousseff, e presidiu a instituição financeira na administração Michel Temer (2016 e 2018).

Ao mesmo tempo, tem crescido a pressão no governo de partidos ligados ao Centrão para aumentar sua esfera de atuação em cargos de empresas estatais. O BB e suas coligadas, por exemplo, têm sido cobiçados em especial pelo PP.

Candidatos

Um novo nome para presidir a Previ já vinha sendo estudado e esperado para breve, conforme antecipou o Estadão/Broadcast em 11 de maio. Depois de trocar a cúpula do BB, Ribeiro vinha se debruçando sobre a escolha das futuras lideranças para a fundação e a BB Seguridade, holding de seguros do conglomerado. Há a possibilidade, de acordo com fontes, de que o próximo presidente da Previ venha de uma das vice-presidências do BB, repaginadas na gestão atual.

Trocar o comando da Previ tem sido comum diante de mudanças no comando do banco público. As exceções foram as últimas gestões, do economista Rubem Novaes e André Brandão, vindo do HSBC. Ambos mantiveram Coelho – escolhido ainda na gestão de Caffarelli. Tanto um quanto o outro preferiram manter a equipe que estava após conhecer os projetos em andamento.

Nas gestões anteriores, não só a presidência da Previ foi alterada como também os candidatos escalados para a função vieram, em sua maioria, da vice-presidência do BB. Aldemir Bendine indicou dois vice-presidentes: Ricardo Flores e Dan Conrado. Alexandre Abreu indicou Gueitiro Matsuo Genso, seu braço direito e vice-presidente do BB. Por último, Caffarelli indicou Coelho, vice-presidente e CFO (responsável por finanças).

Apesar das mudanças no comando da Previ, a fundação tem sido blindada em suas últimas gestões. Os próprios funcionários do BB lutam contra indicações políticas para o cargo. Além disso, as regras de governança da fundação são consideradas pesadas para futuros ocupantes, incluindo exigências como funcionários de casa, da ativa.

Procurado, o BB – cujas ações caíram 1,4% hoje – não se manifestou sobre o pedido de renúncia de Coelho. Já a Previ informou que a renúncia do executivo terá efeito a partir do próximo dia 14 de junho. Em nota, o fundo informou ainda que Coelho conduziu a fundação “com segurança por cenários desafiadores, com resultados positivos durante toda a sua gestão”.

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