Presidente da Siemens vê risco de desindustrialização do País

O resultado do PIB é bem-vindo, mas ainda há riscos de desindustrialização no Brasil. Esta, pelo menos, é a ótica de Adilson Primo, presidente da Siemens/Brasil, empresa que deve faturar algo como R$ 7 bilhões este ano, 15% em exportações. A política industrial que está sendo gestada no Ministério do Desenvolvimento e no BNDES é bem-vinda para ajudar a evitar esse processo, além da esperada reforma tributária, de uma melhora urgente dos gastos públicos e, conseqüentemente, menores taxas de juros. Aqui vão trechos da sua entrevista:O crescimento do PIB, divulgado esta semana, vai gerar inflação? O fato de os investimentos terem crescido 13,8% no mesmo período é um excelente indicador de que a oferta da economia está correndo à frente da demanda. O fator que tem mesmo preocupado a indústria é o crescimento exponencial das importações. Enquanto o item máquinas e equipamentos medido pelo IBGE cresceu 17% nos seis primeiros meses, a importação aumentou 46%. Na prática, isso significa, a substituição da produção local por importações. Afinal, temos muitas desvantagens competitivas, como carga tributária, juros, custos de logística, que, entre outros, foram evidenciados pela valorização cambial. O resultado é um processo de desindustrialização.Por falar em desindustrialização, há cinco anos o governo lançou um projeto de política industrial. Agora, lança outro. Precisa? Política industrial é algo fundamental para o País. O fato é que no Brasil nunca tivemos uma política industrial integrada. Esta sai em boa hora porque o País corre efetivamente risco de uma desindustrialização. Os demais países têm instrumentos de inovação e de financiamento muito mais eficazes. Se você olhar a balança comercial brasileira, ela está baseada em produtos primários, nos quais há pouca agregação de valor. Mas e a antiga, que durou só cinco anos? Os segmentos que o agora ex-ministro Furlan havia priorizado estavam corretos, porém há outros que deveriam estar sendo analisados nessa nova política. Considero importante ter políticas compensatórias, não proteção de mercado, que hoje é um palavrão. Certas medidas compensatórias são absolutamente necessárias e todos os países fazem isso. Não podemos ser ingênuos de achar, por exemplo, que na Coréia elas não existam até hoje. Na China, os subsídios imensos ficam claros. Por tudo isso, acho que seria fundamental que a indústria pudesse ter um diálogo com as pessoas que estão formulando essa nova política. Estamos cansados de ver no Brasil políticas que não têm nada a ver com a realidade.Quanto a essa agenda de investimento, o governo Lula tem feito algumas ações nesse sentido, como o PAC e as PPPs. Mas esses programas não estão andando. O que é preciso fazer para que eles deslanchem? Existem boas ações que seriam básicas para que os programas andassem. Uma delas seria o governo melhorar a gestão desses projetos. Temos visto que falta estrutura, faltam pessoas com experiência nas diversas áreas da infra-estrutura que integram o PAC. O aparelhamento dessa gestão, como temos nas empresas, seria imprescindível. Acho que só com isso daríamos mais velocidade ao que já está delineado. A iniciativa privada está disposta a contribuir? Sem dúvida que sim. Poderíamos colocar para o governo os instrumentos de gestão que utilizamos para que ele pudesse analisar e implantar.E quanto ao clima de negócios? A iniciativa privada tem investido muito pouco no PAC, quando ele é preponderantemente voltado para a iniciativa privada. Por que não investem? A iniciativa privada espera que o governo melhore o clima de negócios e comece a evoluir nesse sentido. Por isso, minha visão é otimista. Mas ainda existem entraves jurídicos que não dão a segurança necessária. As mensagens do governo algumas vezes são dúbias. Um exemplo são as agências reguladoras, componente fundamental no estabelecimento de uma confiança de longo prazo, já que projetos de infra-estrutura são projetos de 30 anos, que vão passar por vários governos. O investidor tem de ter absoluta certeza de que seu investimento será preservado e o retorno a partir do qual calculou seu preço será mantido.E quanto às PPPs? Vivemos um impasse. Pergunto: qual PPP federal andou até hoje? Nenhuma. Quantas PPPs estaduais saíram do papel? Pouquíssimas. E não é por falta de projeto. Eles são muitos e excelentes. Um exemplo? A ligação Rio/São Paulo via trem de alta velocidade. O projeto não anda porque o governo não tem claro para ele mesmo qual o papel do agente privado. Acho que esse é um aspecto fundamental. Ideologias à parte, é preciso admitir que o capital privado é necessário para que o País cresça 5% ou 6% ao ano, nos próximos 20 anos. Caso contrário, ficaremos andando de lado. O que puxa o desenvolvimento é a infra-estrutura, a disponibilidade de energia, e hoje em dia certamente há investidores aqui no Brasil se perguntando se vale a pena pensar em novas fábricas diante dessa ameaça de um apagão daqui a três anos.Como você vê um governo que está brigando pela reforma tributária insistir tanto na prorrogação da CPMF? Olha, acho que neste governo não vamos ter reforma tributária, mesmo porque acredito que reformas tributárias têm de ser feitas pelo governo nos seus primeiros 100 dias. O projeto que será enviado ao Congresso agora deve se concentrar, basicamente, na padronização da CPMF e na criação de um IVA federal e de um IVA estadual, que vai acabar com a guerra fiscal e reduzir essa enorme quantidade de legislações do ICMS. Trata-se de um tema muito complexo, que envolve os Estados. Quanto à CPMF, acho que o governo não pode prescindir dela no ano que vem. Mas poderia começar a reduzi-la já em 2009, pois o País está crescendo, e com o País crescendo você tem a arrecadação apresentando crescimento real. Seria um sinal importante para a sociedade acenar com uma desoneração da CPMF. Se é preciso manter seu efeito fiscalizador, que tenha então alíquota de 0,0001%.

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