Presidente destituído da Usiminas diz que 'voltaria tranquilo' para a empresa

Presidente destituído da Usiminas diz que 'voltaria tranquilo' para a empresa

'Estado' apurou que grupo Nippon aceitaria volta de executivos caso indicasse os próximos diretores, em abril de 2016

Entrevista com

Julián Eguren

FERNANDA GUIMARÃES, MÔNICA SCARAMUZZO, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2014 | 02h05

O grupo japonês Nippon e a Ternium, subsidiária do grupo ítalo-argentino Techint, principais acionistas da siderúrgica Usiminas, travam nos tribunais uma das maiores disputas societárias da história recente do País. Há duas semanas, o litígio veio à tona, quando a siderúrgica veio a público para comunicar a destituição de três dos seus principais executivos, Julián Eguren, presidente, e dos diretores Paolo Basseti (de subsidiárias), e Marcelo Chara (industrial), nomes de confiança da Ternium.

A Nippon acusa esses executivos de receberem bônus irregulares. A Ternium discorda e argumenta que o grupo japonês quebrou o acordo de acionistas, que prevê consenso nas principais decisões da siderúrgica, como destituir os executivos. Embora travem uma disputa pública na Justiça, o Estado apurou que o grupo japonês teria proposto reconduzir os executivos à companhia e discutir a alternância de poder em abril de 2016, quando indicaria seus executivos de confiança. O assunto ainda está em análise, segundo fontes.

Em entrevista ao Estado, o executivo argentino Eguren disse estar tranquilo e que não houve "qualquer tipo de dolo, dano ou má-fé" em relação aos bônus recebidos. Leia os principais trechos da entrevista:

Como foi a negociação dos bônus para os executivos?

Começamos na Usiminas em janeiro de 2012 e formamos um time de distintas origens para o projeto de "turnaround" (reestruturação) da empresa. À época, não havia plano de benefícios para expatriados. Utilizamos o modelo do empreendimento que Nippon e Ternium têm no México, em joint venture, que era pagar esse bônus em uma única parcela. A Usiminas tomou a decisão de compensar com a mesma política, que era chamado de "bônus car", cujo critério é pagar o equivalente ao preço de um carro (o valor varia de acordo com o cargo). A Nippon concordou. Depois, a Usiminas começou a discutir por meio do comitê de recursos humanos qual seria a política adotada de benefícios.

Vocês, então, receberam esse bônus com anuência da Nippon?

Sim, eles estavam de acordo. Nos meses seguintes, a Usiminas decidiu adotar uma política própria (de pagar em quatro parcelas anuais), que foi aprovada em reunião do conselho em novembro do mesmo ano. Chegamos a receber (os três executivos) R$ 704.115, juntos, mas tivemos de devolver. Uma parte foi tirada do contracheque e a outra compensada por créditos feitos pela empresa aos expatriados, como benefícios para a mudança (Eguren mostrou troca de e-mails com o RH da Usiminas, na qual a mensagem mostrava que a situação de Eguren estava regularizada).

A Nippon adota o mesmo modelo de bônus para expatriados?

Interessante esta pergunta. Os executivos estrangeiros da Nippon, como não dirigem, têm motoristas. Eles recebem remuneração no Brasil e benefícios de expatriados pelo Japão. A Ternium achava que não era uma prática transparente da Usiminas, iria contra a governança - porque, afinal, todos são funcionários da Usiminas.

Por que esse tema, então, virou o ponto de discórdia?

O assunto voltou a ser discutido em abril deste ano quando uma auditoria interna apontou que esses bônus não foram integralmente devolvidos. Houve esclarecimentos, que a Nippon não questionou, além de auditorias independentes da Deloitte e EY, que comprovaram que não houve má fé.

O contrato dos principais executivos, incluindo o seu, venceu em abril de 2014. Foi renovado?

O mandato da diretoria não foi renovado em abril. Acredito que já havia um pouco de desacordo de acionistas. Mas, em maio, fomos parabenizados pelos resultados por todos os acionistas, incluindo a Nippon e o Penido (Paulo Penido, presidente de administração do conselho) pelo bom desempenho da empresa e recebi aumento salarial.

A reunião do conselho do dia 25 de setembro foi para discutir exatamente o quê?

Foi para discutir se haveria penalização aos executivos por causa do bônus. Mas não houve consenso na reunião prévia (realizada dia 23). A Ternium entrou na Justiça tentando impedir a reunião do dia 25 por entender que, na falta de consenso, haveria quebra do acordo de acionista.

Como funciona a decisão por consenso?

Os acionistas do bloco de controle (Ternium, Nippon e Caixa dos Empregados da Usiminas) se reúnem previamente para discutir o tema. Se não há consenso (100% de entendimento), o assunto não deve ser levado adiante. É este ponto que a Ternium discute na Justiça, alegando a quebra do acordo de acionistas.

O que está claro para o mercado é que os dois acionistas não falam a mesma língua...

A verdadeira diferença entre Ternium e Nippon é que eles têm visões diferentes para a Usiminas. Para a Nippon, a Usiminas tem de ser dependente do grupo japonês, inclusive com pagamento de royalties de tecnologia (a Usiminas pagava R$ 50 milhões até 2013 à Nippon). Para a Ternium, que tem uma visão de longo prazo para a companhia, a siderúrgica tem que ser autônoma, livre e capaz de fornecer produtos sofisticados para o Brasil. A Usiminas tem que decidir sozinha se vai usar a tecnologia de acionistas.

O que mudou nesses quatro meses?

Acredito que a Nippon usou essa auditoria para discutir alternância de poder. Foi interrompido um processo de transformação e compromisso dos executivos na Usiminas. Promovemos uma ampla reestruturação, com a integração de Ipatinga (MG) e Cubatão (SP), o que provocou alguns incômodos. Fizemos grandes mudança, ampliando eficiência e produtividade. A Usiminas tem de ser uma companhia brasileira de padrão internacional. Tem de ser uma empresa de personalidade própria. Reduzimos o nível de alavancagem de perto de 5 vezes o Ebtida para 1,8 vez, cumprindo "covenants" (metas de endividamento).

Há clima para voltar à companhia, caso a decisão de destituição seja revertida?

Voltaria tranquilo. Temos um time maravilhoso. Temos toda a capacidade de manter o trabalho que foi violentamente interrompido. A preocupação é com a Usiminas. Eu desejaria que isso (o processo) terminasse com o entendimento entre os acionistas.

Caso a decisão não se reverta, você estuda processar a Nippon?

Analisamos ação individual.

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