REUTERS/Marcos Brindicci
REUTERS/Marcos Brindicci

Presidente do BC argentino renuncia

Caputo cai três meses após assumir e é substituído por Sandleris, o número dois da Fazenda; greve paralisa o país que negocia com o FMI

O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2018 | 10h23
Atualizado 25 Setembro 2018 | 20h43

Em meio a uma renegociação com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a uma greve geral e com o presidente do país a 8,5 mil quilômetros de distância, o presidente do Banco Central da Argentina, Luis Caputo, renunciou nesta terça-feira, 25, ao cargo, três meses após assumi-lo, alegando razões pessoais.

O número dois do Ministério da Fazenda, Guido Sandleris, assumiu o comando da autoridade monetária afirmando, em nota, que o objetivo principal do BC é reduzir a inflação e que trabalhará para “recuperar a estabilidade e previsibilidade de preços de que a economia argentina tanto precisa”.

Em Nova York, onde participa da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e renegocia com o FMI, o presidente Mauricio Macri minimizou a mudança no BC, dizendo que a renúncia já havia sido acordada entre eles. “Sabíamos que, quando a situação se estabilizasse, Caputo deixaria o cargo, pois não tinha vocação para exercê-lo. Foi um gesto patriótico (comandar a autoridade monetária).”

Apesar das justificativas oficiais, o desentendimento entre Caputo e o ministro da Fazenda, Nicolas Dujovne, foi um dos reais motivos para a renúncia, segundo a imprensa argentina. O economista sênior para a América Latina da Oxford Economics, Carlos de Sousa, disse ao Estadão/Broadcast que, nos bastidores, o pedido de demissão de Caputo foi atribuído ao seu desejo de adotar bandas cambiais no país, sistema ao qual o FMI teria resistência.

A mudança no BC é mais um capítulo da crise argentina. Com altos déficits fiscal e corrente, o país vem sofrendo uma fuga de capitais que já obrigou Macri a pedir socorro ao FMI, elevar a taxa de juros de 27,5% para 60% neste ano e eliminar metade de seus ministérios. O primeiro presidente do BC do governo Macri, Federico Sturzenegger, também acabou sendo obrigado a renunciar.

Recepção

A queda de Caputo foi recebida de modo negativo pelos economistas do BTG Pactual na Argentina. Em relatório, o banco afirma que a mudança reforça a influência da Casa Rosada sobre o Banco Central e lembra que Sandleris foi um dos nomes por trás da decisão de relaxar as metas de inflação para 2018, medida mal recebida pelo mercado financeiro e tida como uma das desencadeadoras da crise em que o país mergulhou. “Nossa visão é que a política monetária (a partir de agora) será moldada pelo acordo com o FMI, mas esperamos taxas de juros mais baixas, deixando a meta de inflação para trás”, escreveu a economista Carolina Gialdi.

O economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, também vê uma tendência de redução na taxa básica de juros, o que implicaria em menor controle da inflação. Hoje, o juro básico da Argentina é de 60%, o maior do mundo, e estimativas apontam para um inflação superior a 40%. Ramos aposta ainda em uma menor intervenção no câmbio. “Caputo gostava de interferir bastante no mercado, um estilo que possivelmente não agradava ao FMI nem à Fazenda.” Para o economista, porém, a chegada de Sandleris ao BC “levanta esperanças”, pois pode resultar em uma redução dos atritos entre Casa Rosada e autoridade monetária.

Após a renúncia de Caputo, o FMI informou que seguirá com um relacionamento próximo ao BC argentino. “Estamos ansiosos para continuar nosso relacionamento próximo e construtivo com o Banco Central da república Argentina, sob a liderança de Guido Sandleris”, afirmou o órgão em comunicado.

O governo Macri negocia um aumento do pedido de empréstimo de US$ 50 bilhões acertado, em junho, com o FMI. Segundo a imprensa argentina, o valor extra deverá ficar ao redor de US$ 3 bilhões. As condições para liberação da quantia devem ser anunciadas quarta-feira. / LUCIANA DYNIEWICZ E NICHOLAS SHORES

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