Guadalupe Pardo/Reuters
Guadalupe Pardo/Reuters

Presidente do Banco Central vê País preparado para aperto

Alexandre Tombini, presente na reunião do FMI, destacou de novo o nível de reservas do Brasil; ministro da Fazenda, Joaquim Levy, fala em esforço para melhorar gastos

Rolf Kuntz, enviado especial, O Estado de S. Paulo

09 Outubro 2015 | 22h29

LIMA - O Brasil está preparado para enfrentar uma piora nas finanças globais e dispõe para isso de US$ 370 bilhões, disse nesta sexta-feira numa entrevista o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, comentando uma advertência repetida nos últimos dias por dirigentes do Fundo Monetário Internacional (FMI). 

O alerta foi incorporado no documento emitido nesta sexta-feira pelo Comitê Monetário e Financeiro do Fundo, o órgão político mais importante da instituição. A recuperação mundial continua, mas ainda modesta e desigual, e novos obstáculos podem travar o crescimento, adverte o comunicado. 

Segundo o texto, o riscos são especialmente importantes para as economias emergentes e em desenvolvimento: mercados financeiros mais apertados, diminuição dos fluxos de capitais, pressões cambiais e preços menores de produtos básicos. 

Muitas dessas economias estão mais capacitadas para enfrentar esses desafios, porque suas políticas econômicas melhoraram, seus fundamentos são mais sólidos e amortecedores podem ser usados para atenuar os choques. 

Pelos critérios do FMI, no entanto, reservas internacionais são os únicos amortecedores disponíveis para o Brasil. Sem nomear países, o comunicado chama a atenção para a vantagem de países com maior espaço de manobra nas contas públicas. Os governos desses países poderão enfrentar a piora das condições internacionais sem aperto de gastos. Para os demais, a recomendação é cuidar da saúde das finanças públicas e buscar, ao mesmo tempo, a eficiência nos programas sociais e nos investimentos em infraestrutura. 

O contraste entre o Brasil e os países com melhores condições fiscais - Chile, Colômbia e Peru são exemplos na América do Sul - foi apontado várias vezes durante a semana, tanto em relatórios quanto em declarações de dirigentes do Fundo Monetário Internacional. 

Sem condições de contestar essa avaliação, as autoridades brasileiras limitaram-se a repetir as promessas de consertar as finanças do governo. 

Estratégia. Além de arrumar as contas, o governo pretende passar a limpo a despesa, para gastar melhor e com mais eficiência, afirmou o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, numa declaração preparada para a reunião do comitê político do Fundo Monetário Internacional. Até o fim do ano devem sair, acrescentou, os resultados iniciais da revisão. 

A mesma promessa, cuidar da qualidade do gasto e da administração, foi feita pela presidente Dilma Rousseff no começo de seu primeiro mandato, em 2011, mas esse detalhe ficou fora do pronunciamento do ministro, nesta sexta-feira. 

A grande novidade, se houver alguma, será o cumprimento da promessa. 

Sem mencionar a recessão, o ministro citou a expectativa de investimentos de US$ 50 bilhões em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Esse programa, explicou, deve ser parte dos esforços para aumentar o potencial de crescimento. A política deve incluir também a melhora do ambiente de negócios, para reduzir a insegurança em relação a regras e tornar o País mais atrativo. 

Só um resultado concreto foi incluído na declaração: a melhora das contas externas. Faltou explicar a melhora, atribuível em parte à alta do dólar e em parte à recessão. O dólar barateou as exportações e encareceu as importações e a recessão derrubou a demanda de bens estrangeiros, tanto de consumo quanto de produção, como máquinas, equipamentos e matérias-primas. 

Sombras. Sete anos depois do estouro da bolha financeira e do início da recessão, o panorama apresentado nas análises do Fundo é novamente cheio de sombras. A maior parte das economias voltou a crescer, mas as condições de comércio têm piorado para os exportadores de matérias-primas, em parte por causa da reforma e do menor crescimento da China.

Além disso, o fortalecimento da economia americana - basicamente uma boa notícia - abre caminho para a normalização da política monetária nos Estados Unidos. Isso deve resultar em breve em juros mais altos e essa perspectiva já tem afetado os mercados financeiro e de câmbio. 

A perda de impulso da economia mundial se reflete nos padrões de intercâmbio. A Organização Mundial do Comércio (OMC) reduziu de 3,3% para 2,8% a projeção de crescimento das trocas em 2015 e de 4,0% para 3,9% a estimativa para 2016. A piora das perspectivas foi comentada pelo vice-diretor-geral da OMC, o chinês Yi Xioazhun, em declaração preparada para a reunião do Comitê Monetário e Financeiro.

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