Amanda Perobelli/Reuters
Rubem Novaes entregou carta de renúncia à presidência do Banco do Brasil nesta sexta-feira, 24. Amanda Perobelli/Reuters

Presidente do BB, Rubem Novaes, entregou pedido de demissão a Bolsonaro e Guedes

O presidente da República aceitou o pedido e deve indicar outro nome para o comando da instituição; entre os cotados estão Hélio Magalhães, ex-Citi, e o atual presidente da Caixa, Pedro Guimarães

Anne Warth, Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 18h55
Atualizado 24 de julho de 2020 | 23h43

BRASÍLIA – O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, entregou seu pedido de demissão ao presidente Jair Bolsonaro e ao ministro da Economia, Paulo Guedes. A informação foi divulgada em fato relevante do banco. 

Segundo uma fontes do governo, a saída de Novaes está alinhada ao movimento de Bolsonaro de se afastar do núcleo considerado radical. Novaes é ligado ao escritor Olavo de Carvalho, que tem atrapalhado a pauta governista e gerado ruídos com o Poder Legislativo. Recentemente, o presidente do BB questionou a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de impedir que o banco faça propaganda em sites acusados de espalhar fake news. 

Além disso, a avaliação na equipe econômica é que o desempenho dele no mercado de crédito foi insatisfatório. Novaes se mostrou reticente a atender aos pedidos do presidente de baixar juros em linhas ao consumidor, principalmente no cheque especial, e ampliar a oferta de crédito para atenuar os efeitos da crise.

“Em conformidade com o § 4º do art. 157 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e com a Instrução CVM nº 358, de 03 de janeiro de 2002, o Banco do Brasil (BB) comunica que o Sr. Rubem de Freitas Novaes entregou ao Exmo. Sr. Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro e ao Exmo. Ministro da Economia, Paulo Roberto Nunes Guedes, pedido de renúncia ao cargo de presidente do BB, com efeitos a partir de agosto, em data a ser definida e oportunamente comunicada ao mercado, entendendo que a Companhia precisa de renovação para enfrentar os momentos futuros de muitas inovações no sistema bancário”, diz o comunicado divulgado pelo banco na noite desta sexta-feira.

O fato relevante também diz que Bolsonaro já aceitou o pedido de Rubens e que deve indicar outro nome para comandar o banco público. Um dos nomes cotados para substituir Novaes é de Hélio Magalhães, atual presidente do conselho de administração do BB. Ele foi presidente do Citi Brasil de 2012 a 2017. Segundo apurou o Estadão, Magalhães é considerado um dos presidentes de conselho mais atuantes na história do banco. Outro nome forte é do atual presidente da Caixa, Pedro Guimarães, que tem grande apreço de Bolsonaro. 

Políticos do Centrão afirmam, nos bastidores, que entendem não haver espaço para um indicado de partidos como substituto, pela posição estratégica do banco para o País. O cargo é considerado "vital", e Guedes já avisou que da seara dele não está disposto a abrir mão das presidências dos três maiores bancos federais (BB, Caixa e BNDES), sob o risco de sair do governo.

Novaes deve continuar na equipe econômica como auxiliar de Guedes. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, ele deve ser assessor especial da pasta. Novaes manifestou a Guedes o desejo de deixar o cargo há cerca de um mês, dizendo que queria retornar ao Rio para ficar próximo da família. Pediu a liberação como "presente de aniversário" em agosto.

Fake News

O BB foi proibido em maio de veicular publicidade em sites, blogs, portais e redes sociais acusados de espalhar fake news. Em reucrso apresentado esta semana, o banco pediu à corte de contas que reverta a decisão e afirmou que não financia fake news. Segundo a instituição financeira, a agência responsável pela publicidade foi escolhida por meio de licitação. Cabe à agência contratar plataformas e escolher os sites que vão distribuir o conteúdo, conforme os critérios preestabelecidos em cada campanha. Em outras palavras, o BB define o público-alvo, não os sites.

De acordo com a instuição, a decisão do TCU de suspender a publicidade do BB em sites e blogs, além de jornais e revistas com menos de dez anos de existência, afetou duramente o resultado da instituição financeira nas redes. As solicitações de abertura de contas digitais e os pedidos de cartão Ourocard feitos por não-correntistas caíram 30%. O BB também perdeu relevância entre os usuários de internet. O alcance da instituição caiu de um público-alvo de 100 milhões para 30 milhões. Nas redes sociais do banco, as publicações, que antes chegavam a 5 milhões de usuários por campanha, caíram para 20 mil. Entre os sites e aplicativos que se enquadram na lista de proibições impostas ao BB estão Mercado Livre, OLX, YouTube e Spotify - todos com menos de dez anos de existência.

Privatização

Na reunião do dia 22 de abril, Guedes criticou a atuação de Novaes à frente do BB. Ele disse que o governo "faz o que quer" com a Caixa Econômica Federal e o BNDES, mas no BB "não consegue fazer nada", mesmo tendo um "liberal lá", em referência a Novas, que estava no encontro. "Tem que vender essa porra logo", disse Guedes. 

Para Guedes, o Banco do Brasil “não é tatu nem cobra, porque ele não é privado, nem público”. “Se for apertar o Rubem, coitado. Ele é super liberal, mas se apertar ele e falar: ‘bota o juro baixo’, ele: ‘não posso, senão a turma, os privados, meus minoritários, me apertam.’ . Aí se falar assim: “bota o juro alto”, ele: ‘não posso, porque senão o governo me aperta’. O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização”, afirmou o ministro da Economia durante encontro com ministros e outras autoridades, entre elas Novaes.

“É um caso pronto e a gente não está dando esse passo. O senhor (presidente) já notou que o BNDE e o … e o … e a Caixa que são nossos, públicos, a gente faz o que a gente quer. Banco do Brasil a gente não consegue fazer nada e tem um liberal lá. Então tem que vender essa porra logo”, reforçou Guedes.

Em seguida à fala de Guedes, Novaes defendeu a privatização do BB, mas Bolsonaro o repreendeu dizendo que sobre esse assunto "só se fala isso em 2023", após a eleição de 2022.

Em abril, durante a crise da pandemia do novo coronavírus e as medidas de isolamento para tentar evitar a propagaçaõ da doença, Novaes ao Estadão disse que “governadores e prefeitos impedem a atividade econômica e oferecem esmolas, com o dinheiro alheio, em troca”. “Esmolas atenuam o problema, mas não o resolvem. E pessoas querem viver de seu esforço próprio”, disse. (COLABOROU FELIPE FRAZÃO)



 

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Antes de renunciar ao BB, Novaes demonstrou cansaço com ambiente político de Brasília

O agora ex-presidente do banco disse que é muito difícil defender o liberalismo na capital do País; aos 75 anos, ele sentia saudade da família e dos netos, que moram no Rio

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 22h43

BRASÍLIA - Uma semana antes de renunciar à presidência do Banco do Brasil (BB), Rubem Novaes demonstrou cansaço com o ambiente político de Brasília. Liberal, ele defendia a privatização do banco e disse que uma empresa pública de capital aberto, especialmente uma instituição financeira, era uma "anomalia" e que não fazia sentido "um gestor ter dois chapéus". Aos 75 anos, dizia sentir falta da família e dos netos, que vivem no Rio de Janeiro.

"Você não pode chamar capital privado e ficar, às vezes, subordinado a decisões e prioridades de governo. Felizmente esse não tem sido meu caso. Meu mandato é para maximização do valor do banco. Isso impede o conflito com o mercado, mas não necessariamente isso será sempre assim", disse, em live organizada pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).

Novaes disse ainda que muitas vezes, o grupo de liberais do governo Bolsonaro se sentia "um vírus do bem tentando enfrentar um organismo do mal". "A equipe de Paulo Guedes tem tenacidade e um grau de convicção enorme, mas é muito difícil para um grupo de liberais trabalhar aqui no ambiente de Brasília", afirmou.

"Criou-se aqui no 'Olimpo' uma cultura política de privilégios, compadrios, muitas vezes de corrupção, de criar dificuldades para vender facilidades, e realmente qualquer grupo de liberais que tem que penetrar nesse mundo vai sofrer uma certa rejeição, como se fosse um vírus tentando entrar num organismo hostil."

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Renúncia de presidente do BB causa surpresa e mercado especula substitutos

Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica, é um dos nomes mais cotados para a vaga, que também considera executivos que já trabalham no banco público

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 21h05

A renúncia do presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, de 75 anos, informada nesta sexta-feira, 24, gerou surpresa internamente e também no mercado, conforme fontes ouvidas pelo Estadão/Broadcast na condição de anonimato. Nos bastidores, especulações já ocorrem quanto aos possíveis substitutos do executivo, tido como um dos pilares liberais do governo de Jair Bolsonaro.

Na lista de apostas, na opinião de executivos do mercado, estão nomes como o do presidente do conselho de administração do BB, Hélio Magalhães; o do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, e ainda o do vice-presidente de negócios de atacado do BB, Walter Malieni.

A saída de Novaes foi considerada como marginalmente negativa pelo analista Victor Schabbel, do Bradesco, pelo fato de o executivo ser um dos "expoentes liberais" da equipe econômica capitaneada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

Em fato relevante ao mercado, o BB justifica que o pedido de renúncia ao cargo de presidente do BB, com efeitos a partir de agosto, ocorreu diante da necessidade do banco passar por uma "renovação para enfrentar os momentos futuros de muitas inovações no sistema bancário".

Novaes é amigo pessoal de Guedes e foi escolhido para capitanear o BB no governo Bolsonaro. Nos últimos meses, porém, cresceram rumores sobre sua saída e possível substituição pelo presidente da Caixa, que tem tido destaque no cargo, principalmente, junto ao presidente da República.

Depois da pandemia, esse sentimento se acentuou. Guimarães passou a ter mais holofotes em meio ao pagamento do auxílio emergencial e Novaes tendo menos aparições.

Cotados

Com a renúncia, o nome do presidente da Caixa ganha uma força quase que natural na roda de apostas do mercado. Também está em destaque na boca de pessoas próximas a Bolsonaro. Vale lembrar, contudo, que ele tem à frente uma esteira de aberturas de capitais para tocar no banco.

O presidente do conselho do BB, Hélio Magalhães, também tem força nas apostas do mercado. Internamente, diz uma fonte, é quase que uma torcida, considerando seu currículo. Ex-CEO da operação do Citi no Brasil, ele é visto como um "ponto de equilíbrio" na gestão atual do banco e tem contribuído de forma ativa para a agenda de desinvestimentos do BB, atropelada pela pandemia. Resta saber, contudo, se Magalhães teria interesse na empreitada.

Dentre as apostas internas, um nome que surge é a do vice-presidente de Negócios de atacado do BB, Walter Malieni. O executivo é visto como um dos mais preparados para assumir o cargo, uma vez que conhece as diversas frentes de atuação da instituição. Há dúvidas, contudo, da força política ao redor de seu nome uma vez que a indicação para o comando dos bancos públicos ficam a cargo do presidente da República, com orientação da equipe econômica.

Renúncia

Uma fonte próxima ao banco diz que a decisão de Novaes foi pessoal e a escolha de seu substituto está sendo feita por Guedes e Bolsonaro. Lembra ainda que o executivo deixa o comando do BB após resultados recordes da instituição, redução de R$ 10 bilhões em despesas operacionais e deu o pontapé inicial na venda de ativos, incluindo a fatia no ressegurador IRB Brasil Re a um preço bem superior ao atual, impactado pela crise de credibilidade enfrentada pela companhia.

Além disso, Novaes era forte defensor da privatização do BB. Mesmo contra a opinião de Bolsonaro, afirmava que o banco ficou com o ônus de ser público, mas perdeu o bônus e tinha de se preparar para a revolução tecnológica que o setor tem enfrentado em meio a concorrência com fintechs e bigtechs.

Procurados, BB e Caixa não comentaram. Os executivos mencionados também não se posicionaram a respeito.

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