Amanda Perobelli/Reuters - 8/8/2019
Amanda Perobelli/Reuters - 8/8/2019

Presidente do BC: Cadê a grande deterioração fiscal? Números não mostram isso

Roberto Campos Neto fez um discurso mais alinhado com o governo, um dia depois de o STF confirmar a autonomia do Banco Central

Thaís Barcellos, Lorenna Rodrigues e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 12h19
Atualizado 27 de agosto de 2021 | 14h31

BRASÍLIA - Um dia depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmar a autonomia do Banco Central, o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, fez um discurso mais alinhado com o governo, argumentou que os números atuais não mostram a deterioração do cenário fiscal, repetindo que há diferença entre percepção com ruídos e realidade, e ainda voltou à narativa de que a alta dos preços é "temporária".

“Cadê a grande deterioração fiscal? Números não mostram isso”, disse, em seminário da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Esfera, em que também estava presente o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progessistas-AL).  

O discurso é bem mais ameno do que o feito no dia 13 de agosto, quando disse que "é impossível para qualquer banco central do mundo fazer um trabalho de segurar as expectativas (de inflação) com o fiscal descontrolado" Na terça-feira, 24, Campos Neto já tinha baixado o tom ao dizer que via "um pano de fundo melhor do fiscal"

Hoje, ele citou a evolução das projeções no Boletim Focus (uma consulta semanal feita pelo BC a uma centena de economistas) e disse que as estimativas para a dívida bruta estão melhorando desde novembro de 2020 e que, neste momento, as projeções são bastante parecidas com o cenário anterior à pandemia de covid-19. Para 2021, a projeção é de 81,5%, contra 81% da estimativa do governo antes da pandemia. Para o resultado primário (a diferença entre tudo o que o governo arrecada e o que gasta), a projeção antes da pandemia era de déficit de 1,0% em 2021 e zero em 2022, agora é de 1,70% e 0,30%, 0,40%, disse Campos Neto.

O presidente do BC ainda refutou o argumento de que a melhora fiscal é explicada apenas pela inflação. “A inflação teve seu efeito, mas há vários efeitos que são importantes”, disse, citando o maior consumo de bens, que arrecadam mais, na pandemia e de serviços formais online ante informais.

Campos Neto ainda disse que existe ruído de associar processo eleitoral a medidas do governo, referindo-se a críticas de que o fundo que viria a ser criado na PEC dos precatórios (dívidas judiciais que a União é obrigada a quitar) seria usado para ampliar o Bolsa Família com o objetivo de garantir a reeleição de Bolsonaro. Segundo ele, tudo será feito dentro do regime de responsabilidade fiscal.

“Parte da comunicação do governo poderia ter sido de forma mais suave. Entendendo que existe ruído de associar processo eleitoral a medidas. Mas o País fez medidas estruturais na pandemia quando ninguém tinha feito, e dentro do regime de responsabilidade fiscal”, completou, destacando que o compromisso do Congresso com o fiscal é importante.

Inflação temporária

Campos Neto citou novamente que há enorme alta de inflação no mundo inteiro, mas que tende a ser temporária. Segundo ele, a pandemia alterou o padrão de consumo, com substituição de serviços por bens, mas, com a reabertura das economias, isso deve se normalizar, com arrefecimento da inflação de bens.

Há seis meses, quando a lei da autonomia do BC entrou em vigor, os economistas do mercado financeiro esperavam uma inflação comportada, de 3,82% neste ano. Agora, esperam que o índice oficial de preços termine o ano em 7,11% em 2021, muito acima do teto da meta para este ano - de 5,25% - e quase o dobro do centro do alvo de 3,75%.  

Campos Neto ainda reconheceu que o Brasil tem inflação alta, mas está próximo de países pares, como Rússia e Índia. “Brasil tem coisas particulares, mas tem processo de alta de inflação generalizada", afirmou.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – inflação oficial do País – registrou alta de 0,96% em julho, chegando a 8,99% no acumulado dos últimos 12 meses, maior percentual desde maio de 2016, quando estava em 9,32%. Em 2021, o IPCA acumula alta de 4,76%.

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