José Cruz/Agência Brasil
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Covid-19

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Presidente do BC diz que ideia de imprimir dinheiro de Meirelles é 'perigosa'

Roberto Campos Neto reagiu à sugestão de ex-ocupante da pasta; ele se diz contrário à emissão de moeda para financiar gastos do governo

Idiana Tomazelli e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 18h02

BRASÍLIA – O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta quinta-feira, 9, não ser favorável à emissão de moeda para financiar os gastos do governo no combate à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. A ideia de “imprimir dinheiro” na situação de crise atual foi defendida recentemente pelo ex-presidente do BC e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles em entrevista ao canal de notícias BBC News Brasil e ganhou as rodas de debate nos últimos dias.

“Não sou favorável. O argumento de que eu vou imprimir dinheiro porque a inflação está relativamente baixa é um argumento perigoso, porque se nós temos um sistema de metas de inflação e ele tem assimetrias, se você imaginar que quando está em baixa você vai imprimir dinheiro para chegar na meta, você vai fazer com que em termos de valores esperados seu equilíbrio de juro neutro seja um pouco mais alto”, justificou Campos Neto. Juro neutro é o suficiente para manter a economia em crescimento sem pressões inflacionárias.

“Eu acho que a saída não é por aí. É uma ideia, sempre a gente discute todas as ideias, mas hoje, e obviamente tudo pode ser modificado dependendo do que aconteça, mas hoje nós não entendemos que é a melhor saída não”, afirmou.

'Projetos muito criativos no Congresso'

Campos Neto alertou que o Brasil precisa sinalizar claramente que, após a crise do novo coronavírus, voltará aos “trilhos” do ajuste fiscal e do controle das contas públicas. Do contrário, avisou Campos Neto, há risco de reflexo na curva da taxa de juros.

No dia em que a Câmara dos Deputados discute um projeto de socorro a Estados e municípios que tem sido classificado como uma “bomba fiscal” por economistas, Campos Neto também frisou que as votações no Congresso Nacional têm reflexo nessa percepção de risco sobre o País.

“À medida que você tem essas medidas fiscais e, por exemplo, dias em que aparecem projetos muito criativos no Congresso, o que acontece com a curva de juros? Ela sobe, exatamente porque volta a precificar essa incerteza”, disse Campos Neto, sem mencionar especificamente nenhuma proposta em tramitação no Legislativo. O presidente do BC concedeu entrevista hoje ao portal UOL, transmitida ao vivo pela internet.

Segundo Campos Neto, um dos fatores que permitiu a queda da taxa de juros no Brasil foi a percepção de que o País começou a embarcar num “mundo de menos público e mais privado”. Nesse contexto, o teto de gastos (mecanismo que limita o avanço das despesas à inflação) e a reforma da Previdência foram acontecimentos importantes para abrir caminho à redução dos juros.

“A dinâmica fiscal é muito importante, porque ela muda a taxa neutra. E hoje, obviamente, você tem dois componentes. Uma agenda que vinha sendo tocada e num momento de emergência não vai sair da pauta, mas ela sofre um atraso. E tem um outro ponto que é essa saída do trilho que nós temos que fazer, e é importante, para garantir o emprego, a sobrevivência das pessoas e garantir a estabilidade do País, ela tem um custo fiscal. Então você vai terminar com um equilíbrio fiscal um pouco pior”, disse Campos Neto.

“Aqui o mais importante não é a saída do trilho, o desvio. O maior importante é mostrar para o mercado, ter dispositivos que façam com que o mercado acredite que você vai voltar pro trilho na frente. Então quanto mais separado for a administração, quanto mais separado for os orçamentos de crise, quanto mais claro ficar que nós vamos voltar (para o trilho), menor vai ser o custo”, afirmou o presidente do BC.

Apesar do alerta, Campos Neto disse entender que o Brasil tem capacidade de responder à crise “saindo e voltando para o trilho”.

Recuperação depende de muitos fatores

O presidente do Banco Central disse que o formato e a velocidade de recuperação do Brasil após o choque da pandemia do novo coronavírus dependem de uma série de fatores, entre eles a manutenção de contratos. Ele afirmou ainda que alguns setores estão sofrendo baques maiores, mas avisou que o BC não ajuda diretamente empresas, apenas através do crédito.

“O formato da nossa volta vai depender de muitos fatores, mas tem um fator que tem me preocupado e acho muito importante passar a mensagem, que é: todos nós temos que cumprir contratos. É importante cumprir contratos na economia”, disse.

“Não quer dizer que não possa renegociar, às vezes as duas partes podem negociar. Mas se os governos permitirem quebra de contrato, se as grandes empresas começarem com conversa de querer quebrar contrato, aí a gente vai ter uma recuperação da economia muito mais lenta e mais sofrida”, avisou o presidente do BC.

O Congresso Nacional chegou a aventar propostas para suspender pagamentos de aluguéis. A medida, porém, acabou ficando de fora das medidas votadas pelo Legislativo.

Campos Neto disse ainda que o impacto da crise na economia atinge setores de maneira distinta. Alguns estavam “indo bem” e foram prejudicados, outros estavam “em situação delicada” e pioraram, e “alguns poucos são vencedores”.

Ele disse que a houve melhora ligeira nos setores de supermercados, farmácias, enquanto o segmento de comércio online está praticamente estável. Já os setores aéreo e de automóveis estão sentindo impactos mais duros, afirmou Campos Neto. “Tem outros setores que eram mais problemáticos e vão sofrer”, afirmou.

No diagnóstico traçado por ele, grande parte dos serviço deve ter problemas nos próximos meses. “O Banco Central não dá dinheiro, não ajuda diretamente as empresas, só através do crédito”, ponderou.

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