Dida Sampaio/Estadão - 24/2/2021
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Dida Sampaio/Estadão - 24/2/2021

Presidente do BC diz que Petrobras muda preços 'muito rápido' e que levará Selic 'aonde precisar'

Segundo Roberto Campos Neto, a estatal mexe nos preços dos combustíveis mais rápido do que outros países; ele afirmou que nunca houve tantos choques de inflação em período tão curto no Brasil

Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 10h19
Atualizado 14 de setembro de 2021 | 12h03

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta terça-feira, 14, que não vai alterar o plano de voo de política monetária a cada número novo de alta frequência de inflação que seja divulgado. Mas frisou que a taxa básica de juros será levada aonde for preciso para alcançar a meta de inflação. “Vamos levar a Selic aonde precisar, mas não vamos reagir sempre a dados de alta frequência”, disse.

Depois da surpresa negativa do IPCA de agosto (0,87%), o mercado passou a considerar um aumento entre 1,25 e 1,50 ponto porcentual na Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 21 e 22 deste mês, o que seria uma aceleração do passo ante a última reunião, quando houve alta de 1 ponto. 

O presidente do BC afirmou que nunca houve tantos choques de inflação em um período tão curto no Brasil, destacando as altas nos preços de alimentos, energia elétrica e combustíveis. Campos Neto reconheceu que a inflação em 12 meses tem rodado bem acima da meta e disse que o BC tem observado os núcleos para verificar a disseminação. Segundo o presidente do BC, já era esperado o aumento de serviços e reajustes mais fortes em componentes que foram represados.

Campos Neto ainda repetiu que as expectativas de inflação para 2021 e 2022 estão subindo e que o BC está avaliando as diferenças entre as previsões do mercado e do Copom. Ele participa do evento MacroDay 2021, do BTG Pactual, que ocorre de forma presencial, seguindo, segundo a instituição, os protocolos sanitários.

Reajustes nos combusíveis

Campos Neto também falou sobre os repasses feitos pela Petrobras no preço dos combustíveis. “A Petrobras repassa preços muito mais rápido do que ocorre em outros países", disse, ao justificar o efeito da alta de commodities (produtos básicos, incluindo petróleo) na inflação brasileira. 

 


No governo Michel Temer, a Petrobras alterou a sua política de preços de combustíveis para seguir a paridade com o mercado internacional. Ou seja, os preços de venda dos combustíveis cobrados pela estatal passaram a seguir o valor do petróleo no mercado internacional e a variação cambial. Dessa forma, uma cotação mais elevada da commodity e uma desvalorização do real têm potencial para contribuir com uma alta de preços no Brasil. 

Depois do choque provocado pela pandemia de coronavírus, a economia global deve ter um crescimento robusto neste ano, o que aumenta a busca pelo petróleo no mercado internacional e, consequentemente, ajuda a puxar os preços para cima.

No acumulado deste ano até agosto, o preço da gasolina já avançou 31%, enquanto o do diesel acumula alta de 28%, segundo o IPCA. A formação do preço dos combustíveis é composta pelo preço cobrado pela Petrobras nas refinarias, mais tributos federais (PIS/Pasep, Cofins e Cide) e estadual (ICMS), além do custo de distribuição e revenda. Há ainda o custo do etanol anidro na gasolina, e o diesel tem a incidência do biodiesel. 

O presidente do BC também destacou que a inflação brasileira também foi muito influenciada por fatores climáticos, para além da crise hídrica. “Tivemos onda de calor, depois geadas, depois problemas de chuva". Segundo ele, haverá uma inflação mais prolongada no mundo, com normalização mais lenta.

Economistas projetam IPCA de 8% no fim do ano

Na segunda-feira, 13, após mais uma semana de crise política e novas surpresas negativas na inflação, os mais de 100 economistas consultados semanalmente pelo Banco Central fizeram uma nova rodada de deterioração nas expectativas para este e o próximo ano. O mercado financeiro continua apostando em preços mais altos, crescimento mais baixo da economia e juros ainda mais elevados em 2021 e 2022.

A projeção do Relatório de Mercado Focus para a inflação em 2021 se distanciou ainda mais do teto da meta perseguida pelo Banco Central. Os economistas alteraram a previsão para o IPCA - o índice oficial de preços - de alta de 7,63% para 8% no fim deste ano. Há um mês, estava em 7,05%. A projeção para o índice em 2022 foi de 3,98% para 4,03%.

A projeção dos economistas para a inflação está bem acima do teto da meta de 2021, de 5,25%. O centro da meta para o ano é de 3,75%, sendo que a margem de tolerância é de 1,5 ponto (de 2,25% a 5,25%). A meta de 2022 é de 3,50%, com margem de 1,5 ponto (de 2,00% a 5,00%).

Considerando apenas os 76 analistas que responderam a pesquisa na semana passada, a projeção para o IPCA de 2021 ficou ainda maior, passando de 7,76% para 8,20%. Para 2022, a estimativa desse grupo passou de 3,98% para 4,10%.

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia. Na hipótese de a meta de inflação ser descumprida, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, terá de enviar uma "carta aberta" a Guedes, explicando as razões para o estouro. A última vez que isso ocorreu foi em janeiro de 2018 e o motivo foi o descumprimento em outra direção, por a inflação do ano anterior ter ficado abaixo do piso da meta. O ex-presidente Ilan Goldfajn justificou, à época, que o maior impacto para a inflação ter desabado em 2017 foi a queda dos alimentos por causa da safra recorde.

Com a inflação puxada pelos preços de alimentos, combustíveis e energia elétrica, o mercado já espera que o BC eleve a taxa básica Selic de forma mais contundente ainda este ano. A mediana das previsões para os neste ano passou de 7,63% em 8% ao ano. Um mês atrás, os economistas esperavam uma Selic de 7,50% no fim de 2021.

No começo de agosto, o Copom subiu pela quarta vez consecutiva a Selic e acelerou o ritmo ao elevá-la em 1,00 ponto porcentual, para 5,25% ao ano. Ao mesmo tempo, o colegiado sinalizou um novo aumento de mesma magnitude para a próxima reunião, neste mês. No entanto, a persistência da inflação e o agravamento da crise hídrica têm reforçado as apostas do mercado por alta maior da Selic na próxima semana.

Para o fim de 2022, os economistas do mercado financeiro elevaram a expectativa para a taxa Selic de 7,75% para 8% ao ano, o que pressupõe estabilidade do juro básico da economia no ano que vem. 

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Presidente da Petrobras diz que nem toda alteração de preço de combustíveis tem relação com estatal

Em debate na Câmara dos Deputados, Joaquim Silva e Luna disse que não tem espaço "para qualquer tipo de aventura" dentro da estatal, que segue uma "rigorosa governança"

Célia Froufe e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 11h11
Atualizado 14 de setembro de 2021 | 14h41

BRASÍLIA e RIO - O presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, disse nesta terça-feira, 14, que nem todas as alterações de preços de combustíveis têm relação direta com atuações da estatal. “Quando há flutuação dos preços, não quer dizer que a Petrobras teve alguma atuação sobre o preço”, afirmou, durante um debate sobre a situação da operação das usinas térmicas, o preço dos combustíveis e outros assuntos relacionados à empresa no plenário da Câmara dos Deputados.

De acordo com ele, a petroleira analisa se o aumento é estrutural, ou seja, se tem um caráter mais permanente, ou se é conjuntural. "O que é conjuntural, ela absorve e procura entender ao máximo possível essa lógica de mercado", declarou.

Segundo ele, a parte que corresponde à estatal é de aproximadamente R$ 2, considerando um preço de R$ 6. “O que impacta é o ICMS e outros impostos federais, como PIS e Cofins”, afirmou. “A Petrobras é uma sociedade de economia mista sujeita a uma rigorosa governança. Não tem espaço para qualquer tipo de aventura dentro da empresa", afirmou aos deputados. 

 

 

No governo Michel Temer, a Petrobras alterou a sua política de preços de combustíveis para seguir a paridade com o mercado internacional. Ou seja, os preços de venda dos combustíveis praticados pela estatal passaram a seguir o valor do petróleo no mercado internacional e a variação cambial. Dessa forma, uma cotação mais elevada da commodity e uma desvalorização do real têm potencial para contribuir com uma alta de preços no Brasil. 

A formação do preço dos combustíveis é composta pelo preço cobrado pela Petrobras nas refinarias (a maior margem), mais tributos federais (PIS/Pasep, Cofins e Cide) e estadual (ICMS), além do custo de distribuição e revenda. Há ainda o custo do etanol anidro na gasolina, e o diesel tem a incidência do biodiesel. 

Bolsonaro já reclamou publicamente da alta dos preços e tirou Roberto Castelo Branco do comando da estatal no início deste ano. Ele foi substituído por Luna Silva.

Em algumas cidades do País, o preço do litro da gasolina já passa dos R$ 7 - e se transformou num dos vilões da inflação deste ano, responsável por afetar duramente o orçamento das famílias brasileiras.

Os preços cobrados nas bombas viraram motivo de embate entre o presidente e os governadores. Bolsonaro tem cobrado publicamente que os estados reduzam o ICMS, imposto estadual, para que, dessa forma, os preços da gasolina e do diesel recuem. 

Na noite de segunda-feira, 13, Lira criticou a gestão da Petrobras, causando forte reação nos papéis da petroleira em Nova York. A mensagem foi publicada no Twitter após a Casa confirmar que o presidente da estatal participaria do debate. "Tudo caro: gasolina, diesel, gás de cozinha. O que a Petrobras tem a ver com isso? Amanhã [hoje], a partir das 9h, o plenário vira Comissão Geral para questionar o peso dos preços da empresa no bolso de todos nós. A Petrobras deve ser lembrada: os brasileiros são seus acionistas", escreveu o presidente da Câmara. 

Após as declarações do presidente da Câmara, o ADR da Petrobras em Nova York mergulhou mais de 2% na sessão estendida. Depois de certa oscilação, o papel encerrou o pregão extra em US$ 10,19, baixa de 1,16%. 

No debate na Câmara, o deputado Danilo Forte (PSDB-CE), convocou o presidente da Petrobras para atuar de alguma forma para evitar que os preços dos combustíveis sigam disparando nas bombas. “Agora o povo brasileiro precisa da Petrobras, seu Joaquim”, disse o autor do requerimento para a realização do debate sobre o tema. 

O deputado disse que a Câmara foi "solidária" com a Petrobras quando a estatal precisou. Ele citou diretamente o “caos” que foi a Operação Lava Lato e afirmou que agora era a hora de a estatal contribuir.

“Eu fico muito preocupado e concordo com Lopes (deputado Édio Lopes, que se pronunciou antes) quando querem simplificar a equação com a responsabilidade dos preços nos impostos”, disse numa clara alusão às críticas do presidente Jair Bolsonaro, que tem culpado os governadores pela elevação. “É um absurdo, de fato, ter 46% do preço final da gasolina em tributos em impostos”, criticou.

Para ele, a Câmara tem que reduzir a influência dos impostos nos preços. “Mas também não podemos deixar que a composição de preços baseada no dólar e (no mercado) internacional prejudique a Petrobras”, considerou.

O melhor, de acordo com o deputado, é ter uma política de planejamento de preços capaz de não “aviltar as famílias”. “Na hora do bem bom, a empresa está lá ganhando o seu dinheiro e vendendo (o gás) que não tem”, disse. “Essa conta vem na nossa conta de energia.”

O comandante da estatal vem sendo questionado por parlamentares da oposição e da base sobre que medidas pretende tomar para reduzir os preços dos combustíveis e do gás de cozinha, além das relacionadas à crise hídrica. Até o momento, o general vem atribuindo os aumentos a impostos estaduais, na linha do discurso do presidente Bolsonaro, e garante que a companhia não repassa automaticamente a elevação dos custos vistos no mercado internacional. 

Intercalando questionamentos amplos com questões pontuais de seus Estados, os deputados cobram mais ação de Silva e Luna. Cleber Verde (Republicanos-MA), salientou que o aumento dos preços impacta todos os segmentos de toda a economia. “Precisamos encontrar uma solução para este problema. Nunca pagamos por um combustível tão caro”, comparou. 

Já o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), que elencou uma série de perguntas ao presidente da Petrobras, afirmou que, como estatal, a companhia tem que pensar no social e no povo brasileiro. Paulo Ramos (PDT-RJ) questionou sobre quem está por trás da política de preços da empresa, que, segundo ele, prejudica os brasileiros. “A Câmara está assumindo sua verdadeira responsabilidade neste momento de crise”, disse, em relação ao debate que era para ser promovido em uma comissão, mas foi levado a plenário.

Segundo ele, vários Estados estão sofrendo com a falta de abastecimento de energia. O deputado criticou a política de preços, a alta do dólar e a paridade com os preços internacionais. “Não é a Petrobras que está no banco dos réus, mas a soberania nacional. Não é questão de situação ou oposição, mas da soberania nacional.”

Luca Vergilio (Solidariedade-GO) disse que não defende o controle de preços, mas sugeriu politicas para momento de crises, como a que é enfrentada agora. “Esse preço não afeta só o consumidor, mas afeta toda a nossa economia”. 

Silva e Luna ressaltou que o maior ganhador de dividendos é o acionista majoritário da empresa - no caso, o governo federal. “Essa é a contribuição que a Petrobras dá. Em vez de pagar dívidas e juros com esse recurso, gera excedente para a sociedade”, comentou, salientando que a decisão sobre onde estes recursos serão aplicados cabe ao governo. “A contribuição da Petrobras é com pagamento de impostos e dividendos”, resumiu.

O general também afirmou que é preciso que haja um esforço conjunto para melhorar os custos do País. “Temos que trabalhar juntos para reduzir o risco Brasil, e a Petrobras estará pronta”, garantiu. Ele também disse que a estatal decidiu vender a refinaria Rlam, de Manaus, e que outras plantas também serão vendidas, mas com “preço justo”. No caso da Rnest, de Pernambuco, o preço não era justo, de acordo com ele, e a licitação foi suspensa.

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