Roque de Sá/Agência Senado - 30/8/2017
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Presidente do BNDES tem que pedir desculpas a funcionários, diz integrante de conselho

Economista Carlos Thadeu de Freitas ainda afirmou que a antecipação dos empréstimos do BNDES ao Tesouro permitiu a correção da trajetória explosiva da dívida pública, o que ajudou, segundo ele, a resgatar a confiança no País

Entrevista com

Carlos Thadeu de Freitas, integrante do Conselho de Administração e ex-diretor do BNDES

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2020 | 16h26

BRASÍLIA - Integrante do Conselho de Administração e ex-diretor do BNDES, o economista Carlos Thadeu de Freitas defende que a diretoria do banco peça desculpas aos funcionários do banco depois da auditoria que não achou irregularidades em oito operações com a JBS, o grupo Bertin e a Eldorado Brasil Celulose entre 2005 e 2018. O custo de R$ 48 milhões para abrir a chamada caixa-preta do banco foi revelado pelo Estado.

"A diretoria do banco tinha que pedir desculpas aos funcionários que foram acusados e tiveram que depor na Polícia Federal, como fez o Castelo Branco na Petrobrás", diz Freitas, que é economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC). No ano passado, o presidente da petrolífera, Roberto Castello Branco, enviou carta de desculpas a dois mil empregados que foram investigados ou participaram de processo de investigações internas.

Na entrevista, Freitas diz ainda que a antecipação dos empréstimos do BNDES ao Tesouro permitiu a correção da trajetória explosiva da dívida pública, o que ajudou, segundo ele, a resgatar a confiança no País. Para 2020, ele prevê que o banco poderá devolver mais R$ 60 bilhões, além dos R$ 25 bilhões já previstos.

Qual é o rescaldo dessa auditoria?

A análise foi equilibrada e mostrou os fatos e desmistificou a caixa-preta. A diretoria do banco tinha que pedir desculpas aos funcionários que foram acusados e tiveram que depor na Polícia Federal, como fez o Castello Branco na Petrobrás. Os funcionários têm que quer ter orgulho e levantar o BNDES.

Qual será o valor da devolução dos empréstimos do BNDES ao Tesouro em 2020?

Pode ser maior do que o banco tinha acertado de R$ 25 bilhões. Ao redor de R$ 60 bilhões.

Quanto o banco devolveu no ano passado?

O BNDES pagou R$ 123 bilhões ao Tesouro. Com R$ 9 bilhões dividendos, o banco pagou R$ 132 bilhões à União no ano passado. Tem que tomar muito cuidado. Tudo leva a crer que o banco este ano vai emprestar pouco de novo.

Por quê?

Não tem demanda. O banco hoje não é competitivo mais na área de crédito interno. Só é competitivo na área de infraestrutura. Não tem necessidade de ter uma carteira enorme. O banco empresta pouco e não tem inadimplência. O banco pode sobreviver hoje com uma carteira menor. O banco ainda está emprestando na faixa de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões por ano. Pode antecipar ao Tesouro mais, R$ 25 bilhões e mais o que sobrar.

Essa política de devoluções continua?

Eu acho que o Paulo Guedes (ministro da Economia) está no caminho certo. O Brasil está crescendo e de maneira sustentável. Ele está pagando a sua dívida interna. E tem uma dívida fiscal muito boa. Ele tem sido 100% correto na política pública. Não pode gastar mais do que tem. A economia está no radar da prosperidade depois de muitos anos de crescimento a passos de cágados. E gradual porque a política fiscal é apertada para pagar a dívida, mas a monetária permite juros baixos que estimula a economia e alivia a os juros a serem pagos pelo Tesouro.

Qual o principal desafio?

É aumentar a renda. Como? Com mais investimento. Em 2020, o Brasil vai ter mais sorte de ter mais investimento externo. Evidentemente é muito importante o governo manter a sua expectativa de baixar a dívida este ano. Em 2019, o governo conseguiu reduzir a dívida pública devido ao BNDES. Sem isso, não tem investidor externo entrando. O Brasil está começando a dar passos muito importantes. Para mim, o fato mais importante do governo Bolsonaro foi mudar a trajetória da dívida que estava insustentável.

Não há um otimismo exagerado?

Acho que tem otimismo, sim, nas compras do comércio. Tem uma demanda no Brasil uma demanda reprimida. As pessoas sentem que os juros caíram muito e as pessoas passam a comprar mais do que podem. Por enquanto, não tem inadimplência. Isso é um bom sintoma no curto prazo. Hoje, as pessoas estão comprando a prazo e pagando em dia. Se não gerarmos mais renda, mais emprego, pode ter uma nova crise à frente.

Qual?

O Banco Central tem que fazer uma política de juros mais baixos. O País como está hoje, com desemprego, tem que baixar mais os juros. Tem que ter menos dívida e mais emprego. O Brasil tem que continuar crescendo, com juros mais baixos, e chamando investimento externo. Os investimentos externos sumiram do Brasil e agora vão ter que começar a voltar. Para voltar, ele tem que ter certeza que o Brasil está cumprindo tudo que fala. Em 2020, temos um fato muito importante, o dólar está caro e a chance dele cair existe. Se o dólar cair um pouquinho mais, vai entrar mais investimento. Tudo isso depende de o governo manter a promessa de ajustes. Esse ajuste de pessoal é muito difícil. É teste. Tem a reforma tributária. Eu acho que até pode demorar um pouco mais.

Por quê?

Hoje, o Brasil tem hoje o pior sistema e tem um carga enorme. Só que, na prática, o Brasil tenta uma reforma tributária e nunca conseguiu. Fez um reforma tributária em 1975 e 1976. Era o governo militar e foi fácil fazer uma reforma. Hoje em dia, é muito difícil ainda mais com os Estados que estão quebrados. Tem que fazer é importante que se faça, mas não é fácil.

Qual o maior risco para a economia em 2020?

O risco de o Brasil perder o seu impulso vai depender da situação externa. Em termos internos, o Brasil está muito bem para frente. A minha expectativa é boa. Não é ótima porque o Brasil vai crescer no máximo 2,5% e 3%. Agora, esse crescimento dependerá de o País continuar fazendo as reformas fiscais. As pessoas estão mais otimistas. No Brasil, está se conseguindo captar com prazos longos. O BNDES não é mais tão importante porque os bancos privados estão conseguindo captar com prazos mais longos e mais barato. Por essa razão, o BNDES perdeu muita força.

Qual é o risco do cenário externo?

Uma disputa entre a China e Estados Unidos, o dólar pressionado e ter menos comércio. O mais perigoso é um guerra comercial. Isso já está afetando as economias mundiais. As expectativas de crescimento da economia é bem menor e a demanda será menor. Esse é o problema para frente.  

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