Presidente pede união bancária no euro e BCE interventor

Presidente faz críticas à austeridade em visita a Madri; país superavitário deve consumir, investir e importar mais

MADRI, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2012 | 02h07

Em três discursos realizados ontem, em Madri, a presidente Dilma Rousseff fez um apelo direto para que os países da zona do euro unam seu sistema bancário e permitam que o Banco Central Europeu (BCE) tenha mais poderes para defender a moeda, emitir títulos e realizar empréstimos diretos. As receitas foram feitas ao primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, ao rei Juan Carlos e a empresários do país interessados em investir no Brasil.

Dilma encontrou-se com o premiê na manhã de ontem. Após uma audiência bilateral, ambos concederam entrevista coletiva. No início da tarde, ela se reuniu com o rei Juan Carlos para um brinde no Palácio Real. Após o almoço, a presidente participou do encontro com investidores no seminário realizado pelos jornais El País e Valor Econômico. Nos três discursos o tom foi o mesmo: a política de austeridade está aprofundando a crise de crescimento na Europa e precisa ser associada a políticas de estímulo à atividade econômica.

Mas foi em sua terceira fala que Dilma solicitou reformas na União Europeia, a primeira delas relacionada à integração do sistema financeiro da zona do euro - uma medida já acordada entre os 15 países que utilizam a moeda única, mas ainda não implantada. Em uma iniciativa atípica, em se tratando de um chefe de Estado estrangeiro, a brasileira também pediu mais autonomia ao Banco Central Europeu (BCE). "Dificilmente, os mercados acreditarão na estabilidade financeira sem uma união bancária, que é urgente, sem um banco central com poderes para defender de forma ampla a moeda, para emitir títulos e com papel de emprestador de última instância", enumerou.

Pacto. A presidente também sugeriu a criação do que chamou de um "pacto de crescimento". "É urgente a construção de um amplo pacto pela retomada coordenada do crescimento econômico, um pacto que tome iniciativas que compensem as mudanças provocadas pelo desemprego e pela falta de oportunidades", pregou. Além disso, Dilma enviou um recado aos "países superavitários" - caso da Alemanha -, sem citar no entanto nomes. "Defendemos medidas anticícliclas, principalmente de países superavitários, que devem consumir mais, investir mais, importar mais e ser capaz de ajudar na adequação dos ajustes."

Além de fazer recomendações, a chefe de Estado voltou a criticar a ênfase política na austeridade fiscal, que vigora na Europa e é defendida pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel. "A história revela que a austeridade, quando exagerada e isolada do crescimento econômico, derrota a si mesma", argumentou.

Enquanto Dilma pregava estímulo fiscal, Rajoy defendia a medida oposta: os cortes de gastos e de investimentos públicos. Pressionado pela imprensa - e por sua opinião pública -, ele reconheceu que as medidas que seu governo adota "causam danos às pessoas, são difíceis de explicar e são difíceis de compreender". "Mas são absolutamente imprescindíveis, ou não as tomaríamos", garantiu.

Durante a coletiva, Rajoy se esforçou para convencer os jornalistas de que não há divergências entre sua política e o discurso de Dilma. "/ A.N.

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