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Pressão dos preços pode afetar consumo nos EUA

Aumento no custo das matérias-primas e da mão de obra no exterior começa a se refletir nos preços dos produtos

Stephanie Clifford, Motoko Rich e William Neuman, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

O preço do algodão atinge o nível mais alto em mais de uma década, e os preços do poliéster e do couro também estão subindo. O cobre também chegou recentemente ao seu mais alto nível em 40 anos, e o minério de ferro, usado para o aço, também está extremamente caro. Quanto aos preços do milho, açúcar, trigo, carne de boi, de porco e café, também estão em alta.

A mão de obra no exterior está mais cara, da mesma maneira que as contas de luz, água, e outras que uma fábrica precisa pagar para continuar funcionando.

Quando os preços das commodities começaram a subir no ano passado, muitas fábricas e lojas absorveram os custos, preocupadas com os consumidores, que poderiam não estar dispostos a pagar mais pelos produtos na competitiva temporada de natal, ou enquanto a economia continuasse debilitada.

"A pressão dos preços se verifica por todo o lado", diz Wesley R. Card, diretor executivo do Jones Group, cujas marcas abrangem Nine West e Anne Klein. Depois de tentar manter os preços estáveis ou até mais baixos durante a recessão, Jones diz que suas marcas devem ter aumento de 15% a 20% até o fim do ano.

Muitas empresas de grande porte, incluindo a Kraft, Polo Ralph Lauren e Hanes, dizem que não podem mais adiar a decisão e terão de aumentar os preços para conseguir algum lucro.

A dúvida é se os consumidores estarão dispostos a pagar. "Os consumidores não estão com disposição ou em situação econômica para dizer "ok, vamos pagar o que eles pedem"", disse Joshua Shapiro, economista-chefe da MFR Inc. "Vai haver um recuo."

Para os economistas, os aumentos podem eventualmente ser considerados inflação, embora não haja projeção de aumento que possa deixar as pessoas alarmadas. Apesar de um certo receio, a inflação tem se mantido baixa, a uma taxa de 1,4% ao ano, contabilizada em dezembro. Em janeiro ela la se mostrou estável e subiu 0,4% . Os economistas acreditam que este ano a inflação ficará em torno de 2,5%. Para os consumidores, preço mais alto significa menos para gastar. No caso das empresas, os lucros podem diminuir, e com isso estarão menos dispostas a investir ou contratar mais.

O custo dos alimentos não vai alterar muito o orçamento das famílias. Alimentação, gás, vestuário, produtos de higiene pessoa e limpeza e lavanderia representam menos de 25% dos gastos de uma família nos Estados Unidos, de acordo com o governo. As pessoas de baixa renda sofrem mais quando esses preços sobem, porque a despesa maior é com esses produtos essenciais.

Para alguns, a perspectiva de aumento modesto dos preços não é motivo de preocupação. Na verdade, a alta dos preços pode indicar uma melhora das condições econômicas. Uma demanda maior de países como a China tem contribuído para encarecer muitas matérias-primas - embora as autoridades chinesas também estejam preocupadas com as pressões inflacionárias, como ocorre também na Europa.

Nos Estados Unidos, o fato de as empresas se mostrarem dispostas a elevar preços mostra que estão mais otimistas com a recuperação interna. A brusca alta dos preços das commodities desde o ano passado não se traduziu em novos recordes de alta. Os preços dos alimentos estão 8% abaixo do seu pico no verão de 2008, enquanto os preços da energia hoje equivalem a menos da metade de quando chegaram ao seu pico. Os preços de uma cesta de outras commodities estão 4% abaixo das maiores altas em meados de 2008.

O custo da matéria-prima representa uma pequena porção do custo de muitos produtos de consumo, enquanto o custo da mão de obra, processamento e embalagem equivale a uma fatia maior. Alimentos como café, carne e leite provavelmente sofrerão os maiores aumentos.

As empresas que tentarem passar todos os custos para o consumidor deverão encontrar resistência. Embora o consumo tenham aumentado, o desemprego continua alto, em 9%, e o salário médio por hora subiu menos de 2% em relação a 2010.

A matéria-prima mais cara já reduziu lucros das companhias. Segundo a Kimberly Clark, que produz os lenços de papel Kleenex e as fraldas Huggies, os produtos baseados em petróleo e fibras contribuíram para uma pequena queda no último trimestre. Na Procter & Gamble, os lucros caíram na divisão que produz a pasta de dente Crest e também na unidade de produtos de uso doméstico.

Muitas empresas estão sugerindo que vão aumentar os preços no varejo. A alta do café também eleva o preço nas cafeterias. A Starbucks já tinha avisado no ano passado que aumentaria os preços. Sara Lee, que vende carne da Hillshire Farms e café Senseo, também vai reajustar.

Os restaurantes, que até agora resistiam a uma elevação de preços, estão inquietos. Adotaram medidas, baixando os termostatos, reduzindo as embalagens ou diminuindo o tamanho das porções para evitar um aumento dos seus produtos. Os preços da carne saltaram por causa dos gastos com a ração dos animais e a decisão dos fazendeiros de reduzir a criação de gado e porcos, além da forte demanda mundial.

Segundo a Whirlpool, os consumidores poderão pagar de 8% a 10% mais por seus produtos a partir de 1.º de abril. As empresas do setor de vestuário como Polo Ralph Lauren e Brooks Brothers também vão aumentar seus preços este ano. A Hanes Brands, que já remarcou seus produtos, informou que os preços de produtos essencialmente de algodão poderão sofrer novo aumento no fim do verão. Se os preços do algodão continuarem subindo, poderão aumentar 30%.

Algumas empresas não acham que poderão cobrar mais. A Pepsico, que fabrica refrigerantes e aperitivos como Fritos, disse que será mais cautelosa. Victoria"s Secret aumentou muito pouco seus preços, com um pacote de cinco calcinhas de US$ 25 subindo para US$ 25,50.

Segundo o analista John D. Morris, da BMO Capital Markets, as lojas provavelmente vão tentar administrar seus gastos de muitas maneiras. Os preços subiram substancialmente no setor do vestuário de 1972 a 1974, impulsionados pelos custos da mão de obra e das commodities.

"As lojas tiveram um ano muito bom em 1973", disse Morris. "As vendas aumentaram, as margens brutas e as margens de lucro subiram um pouco. As varejistas acharam um caminho." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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