Pressão sobre a China

Há boas razões para acreditar em que uma forte desvalorização do yuan, a moeda chinesa, não resolveria os graves problemas da economia dos Estados Unidos. Mas, nessa área, os fatores políticos ameaçam tomar o espaço dos fatores macroeconômicos.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Sexta-feira, o Comitê de Meios e Recursos da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou um projeto de lei que impõe punições tarifárias sobre importações provenientes da China e de países cuja moeda vier a ser considerada "artificialmente valorizada".

Primeiro, convém situar resumidamente o problema em seu contexto e, depois, examinar por que a solução proposta pode falhar.

O yuan (também chamado renminbi) está atrelado ao dólar como um carrapato. Se as cotações do dólar sobem, as do yuan sobem junto; se caem, caem também. Isso se consegue por meio da atuação disciplinada do Banco do Povo da China, o banco central. Se sobram dólares em consequência do aumento das exportações, o banco central os recompra; se faltam, está pronto a garantir a oferta. No momento, o objetivo é trocar moeda estrangeira a 6,705 yuans por dólar.

Há anos, o governo americano pressiona Pequim para desatrelar o câmbio porque entende que, a essa cotação, o yuan está entre 20% e 25% desvalorizado e isso barateia as exportações chinesas, alijando o produto americano dos mercados. O calo que mais dói é o desemprego.

A crise e a deterioração das contas dos Estados Unidos levaram o governo a aumentar as pressões para revalorizar o yuan. Na última quinta-feira, o presidente Barack Obama se reuniu com o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, e o principal tema da conversa foi, outra vez, o yuan. Obama saiu do encontro dizendo que os dois países precisam de discussões francas. Seus assessores foram além, espalharam que Obama colocou Wen "contra as cordas" e exigiu "ação para desvalorizar o yuan antes que o governo dos Estados Unidos seja obrigado a acionar os mecanismos de que dispõe para defender seus interesses".

Do ponto de vista técnico, a valorização do yuan não necessariamente produziria o efeito desejado pelos Estados Unidos, que seria a reativação das exportações e da economia. As exportações do Japão para os Estados Unidos, por exemplo, haviam atingido US$ 94 bilhões em 1985 e saltaram para US$ 108 bilhões em 1987. Foi então que o governo americano arrancou medidas de valorização do iene. O resultado prático foi insignificante. Aparelhos Sony e veículos Toyota e Honda continuaram a entrar como entravam antes nos Estados Unidos, porque os japoneses compensaram com redução ainda maior de custos o efeito do câmbio sobre o preço em dólares de suas exportações. A China poderia perfeitamente fazer o mesmo.

Há mais razões para duvidar de uma virada do jogo. Uma delas é a de que a maioria das grandes empresas dos Estados Unidos também opera na China e de lá exporta produtos made in China para o resto do mundo. O eventual impacto negativo de uma valorização do yuan também enfraqueceria os resultados das empresas americanas que estão por lá.

Outra razão: os Estados Unidos não importam produtos baratos apenas da China. Se a alta do yuan reduzisse as exportações chinesas para os Estados Unidos, outros países asiáticos (como Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia, Índia, Filipinas e Vietnã) ocupariam o vazio. Mais ainda, uma lista enorme de produtos são apenas montados na China. Seus componentes vêm de países que podem passar a montar o que já produzem.

E, finalmente, não dá para desprezar o volume de exportações dos Estados Unidos para a China, cerca de US$ 87 bilhões neste ano, que acabaria sendo prejudicado por uma eventual guerra comercial.

O problema técnico está contaminado por alta dose de emoção. Cada vez mais os políticos dos Estados Unidos acusam a China de tirar mercado de trabalho dos americanos com manipulação do câmbio. E, quando as coisas tomam esse rumo, fica complicado encontrar uma saída.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.