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Pressão sobre os bancos centrais

Impacto da guerra comercial EUA-China deve liderar a lista de preocupação dos banqueiros

O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2019 | 05h56

A escalada da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China deve colocar mais pressão sobre os principais bancos centrais do mundo para adotar desde já uma postura mais “dovish”, jargão em inglês para qualificar uma política monetária mais branda, isto é, adiando altas adicionais de juros ou mesmo sinalizando corte dessas taxas.

Como a tensão comercial entre as duas maiores potências econômicas não deve ceder no curto prazo – e um acordo pode demorar mais do que se imaginava inicialmente –, o impacto potencial da adoção de tarifas de importação sobre a economia mundial deve liderar a lista de preocupação dos banqueiros centrais.

Nos Estados Unidos, onde já está em curso um debate sobre a perda de fôlego da atividade econômica, muitos analistas dizem que a imposição de tarifas sobre os produtos chineses – com a retaliação em mesma medida por parte da China – é um choque exógeno suficiente para empurrar a economia americana para uma recessão.

Na semana passada, os americanos elevaram de 10% para 25% as tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses. Na manhã de segunda-feira, o governo chinês anunciou retaliação e também elevou para 25% as tarifas de importações sobre US$ 60 bilhões em produtos americanos. À noite, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) formalizou a proposta de impor tarifas de 25% sobre US$ 300 bilhões em produtos chineses importados pelo país que ainda não sofreram barreiras protecionistas.

Poderia o Federal Reserve (Fed) agir preventivamente e cortar os juros para minimizar os efeitos negativos sobre o Produto Interno Bruto (PIB) da imposição de tarifas de importação pelos governos americano e chinês?

Na reunião de política monetária em março, o Fed revisou sua projeção para a trajetória de juros neste ano de duas altas para nenhuma elevação da taxa. Na reunião do dia 1.º de maio, o BC americano manteve os juros inalterados, citando a falta de pressão inflacionária e reafirmando “paciência” em relação a futuras decisões. No dia anterior, o presidente Donald Trump pediu ao Fed para cortar os juros em 1 ponto porcentual a fim de estimular a economia.

Se a pressão de Trump não surtiu efeito, o estrago causado pela escalada da guerra comercial poderá influenciar os diretores do Fed. A elevação das tarifas de importação e o endurecimento na retórica por parte de Trump e de autoridades chinesas levaram a um tombo das bolsas de valores mundiais. As moedas emergentes amargaram fortes perdas ante o dólar. A piora das condições financeiras se traduz em aperto monetário.

Na segunda-feira, o presidente do Fed regional de Boston, Eric Rosengren, mostrou preocupação com uma desaceleração do crescimento global em razão da guerra comercial e da reação dos mercados financeiros. Em um evento, ele declarou que o Fed tem ferramentas, incluindo corte de juros, para lidar com a tensão comercial, mas ressaltou que não queria fazer um julgamento prematuro da situação.

Os contratos futuros de juros nos Estados Unidos embutiam na manhã desta terça-feira uma probabilidade de 41,6% de um corte da taxa básica pelo Fed neste ano, enquanto a chance de dois cortes era de 22,8%. Já a probabilidade de manutenção da taxa era de 28,9%.

Outros bancos centrais já se anteciparam a um potencial impacto de os Estados Unidos e China não chegarem a um acordo para pôr fim à guerra comercial. Na Malásia e nas Filipinas, os bancos centrais surpreenderam os analistas e reduziram os juros. A preocupação com o crescimento global foi um dos principais temas.

Se a guerra comercial entre Estados Unidos e China levar muito mais tempo para chegar a um desfecho positivo, o efeito sobre os mercados financeiros e sobre a economia global pode deflagrar um ciclo mais generalizado de afrouxamento monetário. Um corte de juros pelo Fed, por exemplo, pode pressionar sobre outros países a seguirem o mesmo caminho.

No Brasil, o BC ainda não sinalizou corte de juros, mas se mostra preocupado com a atividade econômica, cuja recuperação está bastante anêmica. Aqui, a incerteza sobre a aprovação da reforma da Previdência é crucial para uma redução da taxa Selic. Mas a pressão vinda de fora, com os efeitos de uma guerra comercial entre Estados Unidos e China, pode vir a pesar mais.

*COLUNISTA DO BROADCAST 

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