Pressão sobre os países emergentes

O turbilhão que atingiu mercados como China, Brasil e Turquia criou alguns vencedores e inúmeros perdedores

O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2015 | 02h05

Até pouco tempo atrás, os gestores de fundos de mercados emergentes levavam a vida que pediram a Deus. Viajavam para lugares exóticos, sofriam menos competição que os gestores de fundos voltados para os mercados acionários dos Estados Unidos e Europa e dispunham de tal volume de recursos que alguns chegavam a rejeitar novos investidores. Mas agora que ganhar dinheiro nos mercados emergentes deixou de ser tão fácil, a maior parte das viagens que esses gestores fazem tem por finalidade acalmar investidores nervosos e demovê-los da ideia de resgatar suas aplicações.

Ao que tudo indica, não estão tendo sucesso na empreitada. Segundo o Institute of International Finance (IFF), só em agosto os investidores sacaram US$ 10 bilhões de fundos de títulos de dívida e US$ 24 bilhões de diversos tipos de fundos que operam em mercados de capital. Considerando o efeito adicional da desvalorização dos papéis, o estoque de investimentos em mercados emergentes dos fundos de índices (ETFs, na sigla em inglês) e dos fundos mútuos, que era de US$ 1,37 trilhão em dezembro, caiu para US$ 1,17 trilhão, o volume mais baixo desde junho de 2012.

Os recursos vêm deixando os mercados emergentes em marcha quase tão forçada quanto em 2013, quando os investidores sucumbiram à "manhã do desmame" (turbulência causada pelo anúncio de que o Fed, o banco central dos EUA, cogitava encerrar seu programa de aquisição de títulos de dívida, também conhecido como "afrouxamento quantitativo").

Brasil, China, Indonésia e Turquia são os países que mais vêm perdendo recursos, sobretudo por causa das dúvidas sobre suas perspectivas de crescimento e estabilidade monetária. Diante da incerteza generalizada, gestores dos mais variados tipos de investimento reduziram sua exposição a mercados emergentes ao menor nível desde 2008.

"Estamos comendo o pão que o diabo amassou", diz Paul McNamara, da gestora de ativos GAM. Faz meses que os investidores mais ariscos bateram em retirada. Nas últimas semanas, foi a vez de instituições mais pacientes, como fundos de pensão e seguradoras, fazer as malas. Depois de três anos de retornos decepcionantes, estava mais do que na hora. Segundo Robert Burgess, do Deutsche Bank, a magnitude dos números é maior porque, ao contrário do que aconteceu em 2013, investidores dos próprios mercados emergentes (especialmente chineses e russos) também vêm desmontando posições. Para piorar as coisas, alguns bancos centrais e investidores soberanos, em particular países do Golfo Pérsico, estão vendendo ativos estrangeiros para levantar os recursos de que precisam para cobrir seus déficits fiscais.

O impacto é sentido por toda parte. Fundos que investem em moeda local acumulam perdas com a desvalorização cambial que afetou a maioria dos emergentes. Os ETFs acompanharam a queda dos índices. Por causa de sua abordagem passiva, ficaram expostos ao desempenho particularmente ruim de empresas estatais e empresas de energia, diz o gestor de um fundo que adota estratégia ativa, cuja performance, segundo ele, foi melhor justamente por poder evitar as ações desse tipo de empresa. O fundo de índice de mercados emergentes MSCI, da administradora BlackRock, por exemplo, sofreu resgates de US$ 7,4 bilhões este ano.

Mas grupos de investimento focados em mercados emergentes, com administração ativa, como o Ashmore e o Aberdeen também tiveram perdas. Do fim de junho para cá, suas ações caíram mais de 25% - movimento acentuado pela ação de fundos de hedge que fizeram vendas a descoberto de suas ações (isto é, apostaram que elas cairiam ainda mais).

Ninguém está seguro. O infortúnio foi compartilhado por outros fundos de hedge - aqueles que investem basicamente em mercados emergentes -, que em julho acumularam perdas de 20% a 30%. Em agosto, porém, a maioria já havia desmontado suas posições e estava com dinheiro em caixa, diz David Walter, do Paamco, um fundo de fundos de hedge. Alguns, como o Nexus, do Emerging Sovereing Group, e o Harbour Capital, apostaram no crash das bolsas chinesas e se deram bem. A questão para esses felizardos é determinar quando o mercado vai parar de cair: alguns já estariam à procura de pechinchas, na expectativa de uma recuperação.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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