Abdallah Dalsh/Reuters
Abdallah Dalsh/Reuters

Pressionadas pelo dólar, dívidas de empresas atingem pico de 60,5% do PIB

Segundo levantamento feito pelo Centro de Estudos do Mercado de Capitais com base em dados até agosto, a dívida corporativa total chegou a R$ 4,3 trilhões

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2020 | 05h00

A alta do dólar este ano e a busca pelo fortalecimento do caixa levou a dívida das empresas brasileiras a um nível recorde. Segundo o Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec/Fipe), a dívida corporativa total chegou a R$ 4,3 trilhões, ou 60,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Em dezembro do ano passado, estava em 51,2% do PIB.

A maior parte dessa alta do endividamento, 70% do total, tem como motivo a variação cambial. As dívidas feitas em dólar pelas empresas tiveram aumento expressivo com a valorização da moeda americana, que chega a 30,57% este ano. Segundo o coordenador do Cemec/Fipe, Carlos Antonio Rocca, o maior problema, neste caso, é que cerca de 25% das empresas não têm proteção contra essa variação cambial (hedge, no jargão financeiro). Podem ter, portanto, mais dificuldade em fazer frente a essa alta.

Outra parte da explicação para o endividamento recorde foi o maior volume de dinheiro que as empresas pegaram emprestado para reforçar o caixa e fazer frente à crise provocada pela covid-19. Neste caso, o risco é a economia não se recuperar rapidamente e as empresas não conseguirem retomar suas atividades de forma consistente. “A expectativa para o próximo ano é de um cenário crítico. As instituições que não conseguirem fazer a rolagem da dívida precisarão buscar alternativas para fazer a adequação desses números, que pode ser via calote ou pedido de recuperação judicial”, diz o presidente da Corporate Consulting, Luís Alberto de Paiva. 

Somado a isso, as empresas que postergaram os pagamentos de suas dívidas com os bancos, na esteira das medidas que foram lançadas para mitigar os efeitos da crise, estão tendo de retomar os pagamentos das parcelas. Isso traz ainda mais pressão para as companhias.

O estudo do Cemec tem como base os dados do fim de agosto deste ano e levam em conta apenas empresas não financeiras, como os bancos. Segundo Rocca, a rigor, a dívida das empresas é a maior desde 1947, ano em que se começou a se ter esse tipo de dado disponível para análise. Em 2000, início do levantamento pelo Cemec, o coeficiente da dívida das empresas não financeiras brasileiras em relação ao PIB foi de 34,9%. Mesmo em 2015, ano em que as empresas passaram por profunda crise, tanto por conta da recessão quanto pelos efeitos da Operação Lava Jato, e em que o dólar subiu 48% em relação ao real, o índice estava em patamar mais baixo que o deste ano: 57,7%.

Mais afetadas

Um levantamento feito pela empresa de informações financeira Economática mostra que, dentre as empresas de capital aberto, a Petrobrás foi a que viu sua dívida crescer mais neste ano. No acumulado de janeiro a setembro, o endividamento bruto subiu quase 28% em relação ao valor observado em dezembro, para cerca de R$ 449 bilhões. Na sequência, entre as empresas que mais registraram aumento da dívida no ano estão a Embraer, Vale, JBS, Braskem, Suzano e Azul.

No caso da Petrobrás, a alta da dívida se deu basicamente por conta do dólar, já que grande parte de seu endividamento é na moeda  americana. Fora isso, em maio, ainda no meio ao período de maior incerteza em relação à pandemia, a Petrobrás fez uma captação no exterior na casa de R$ 17 bilhões, mas utilizou para pré-pagar empréstimos mais caros. Em dólar, contudo, a dívida bruta da Petrobrás caiu. No fim de setembro estava em US$ 66 bilhões, US$ 9 bilhões a menos do que no fim de dezembro. A meta da petroleira é fazer esse número chegar em US$ 60 bilhões.

“Vamos trabalhar e, ao longo do caminho, vamos tentando tirar as dívidas mais caras e melhorar o perfil. Mas acho que ainda temos um período até alcançarmos o nível de dívida bruta que consideramos ótimo, para efetivamente conseguirmos chegar ao custo que esperamos ser próximo a uma empresa de grau de investimento no Brasil”, disse a diretora executiva de Finanças e Relacionamento com Investidores da Petrobrás, Andrea Almeida, em teleconferência sobre o resultado do terceiro trimestre da companhia.

A professora e coordenadora do curso de Ciências Contábeis e Administração da Trevisan, Marcia Santos, aponta, contudo, que a situação entre as companhias não é homogênea. O efeito da crise é diferente entre as empresas de tamanhos distintos, visto que esse é um ponto que interfere na sua capacidade de captação de recursos. “As empresas precisam, agora, fazer de forma emergencial um ajuste de custo. Há empresas que desde 2008 vêm carregando uma situação de desvantagem financeira”, diz.

Recursos no caixa das empresas

O estudo do Cemec mostra também que as medidas emergenciais tomadas pelo Banco Central durante a pandemia conseguiram irrigar o caixa das empresas. A captação líquida total de recursos das empresas brasileiras em todas as fontes do mercado doméstico e externo nos 12 meses terminados em agosto de 2020 bateu os R$ 325,8 bilhões, aumento de 76% ante o período imediatamente anterior.

Segundo Rocca, as empresas seguiram aumentando o caixa no terceiro trimestre do ano, mas isso, segundo ele, não significa que estão ainda mais endividadas. Isso porque muitas renegociaram com os bancos mais prazo para o pagamento de empréstimos e que agora começarão a vencer.

O trabalho mostrou ainda que o crédito para as médias, pequenas e micro empresas demorou mais para chegar. Os recursos começaram a irrigar esse grupo de empresas, depois de novas configurações dos programas emergenciais, a partir de julho. Com isso, o saldo de crédito desse segmento de empresas cresceu 28,1% em 12 meses. 

No período de um ano encerrado em setembro, a captação liquida de recursos das empresas de menor porte, com faturamento anual de até R$ 300 milhões, atingiu R$ 148,1 bilhões.

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