Amanda Perobelli/Estadão
Nos cálculos da CNC, sem repasse integral da queda da taxa básica de juros para o varejo, há casos em que parcela fica quase 15% mais alta Amanda Perobelli/Estadão

Prestação fica mais cara para consumidor

Nos cálculos da CNC, sem repasse integral da queda da taxa básica de juros para o varejo, há casos em que parcela fica quase 15% mais alta

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2019 | 05h00

Desde que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC) começou a cortar a taxa básica de juros (Selic), a partir de outubro de 2016, o brasileiro que compra produtos financiados tem pagado a conta do não repasse integral da queda da Selic para a taxa ao consumidor, aponta o estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Nos cálculos da entidade, há casos em que a prestação ficou quase 15% mais cara.

A despesa maior com juros é visível nos itens de maior valor. Na compra de um veículo de R$ 30 mil, por exemplo, financiado em 42,3 meses, o comprador pagava uma prestação de R$ 960,82, levando em conta os juros médios apontados pela pesquisa do BC em abril deste ano, de 21,12%. Se o corte da taxa básica de juros tivesse sido repassado integralmente para o consumidor, a taxa seria de 11,74% ao ano e a prestação de R$ 838, nas contas da CNC. 

Com isso, quando o comprador terminar de pagar o financiamento do carro, ele terá desembolsado R$ 42.016,85. Se o empréstimo tivesse sido contraído pela taxa menor, o carro custaria R$ 36.6545,85. É uma diferença de R$ 5.370,99.

“Para o consumidor, o não repasse integral da queda dos juros básicos às taxas finais representou um maior peso na parcela mensal dos financiamentos, especialmente diante da relativa estabilidade da massa de rendimentos”, diz o economista-chefe da CNC e responsável pelos estudos, Fabio Bentes.

Spread. Para o economista, não só o repasse do corte da taxa básica de juros não foi integral para o consumidor como o spread bancário caiu menos que a Selic. O spread é a diferença entre a remuneração que o banco paga ao aplicador para captar o recurso e quanto esse banco cobra para emprestar.

Em outubro de 2016, o spread era 23,9% e terminou 2018 em 16,9%, mas voltou a subir este ano. Em abril estava 19,3%. De outubro de 2016 a dezembro de 2018, o spread caiu 41% e neste ano subiu 14%. No período todo, a queda foi de 20%. “O spread caiu menos do que a Selic (- 54,4%) no período e a gordura dos bancos aumentou”, afirma o economista.

Métricas diferentes

A Febraban, que reúne os bancos, reforça, porém, que houve redução no spread e nos juros – considerando a comparação de taxas em pontos porcentuais, metodologia usada na avaliação da entidade. Em nota, a Febraban afirma que “a queda da taxa de juros foi acompanhada da redução do spread bruto bancário”. Em abril deste ano o spread atingiu 45,8 pontos porcentuais nas operações de crédito com recursos livres para pessoa física, ante 62,3 pontos porcentuais registrados em outubro de 2016, segundo a entidade. A redução, foi de 16,5 pontos porcentuais no período.

De acordo com a Febraban, “os bancos aproveitaram a queda na taxa básica de juros para reduzir o custo do crédito ao consumidor, em alguns casos com cortes bem superiores nas taxas cobradas dos clientes”.

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Corte de juros não chega a consumidor e comércio deixa de ganhar R$ 40 bi

Juro menor poderia baratear as compras de itens muito dependentes de crédito, como veículos, materiais de construção, móveis e eletrodomésticos

Márcia De Chiara , O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2019 | 05h00

O comércio varejista poderia ter vendido R$ 41 bilhões a mais nos últimos 12 meses até abril deste ano e acelerado o consumo das famílias, o emprego e a renda, se o corte da taxa básica de juros tivesse sido repassado integralmente para o juros cobrados do consumidor, aponta um estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A taxa básica de juros, a Selic, mantida pela décima vez consecutiva em 6,5% ao ano, segundo decisão tomada esta semana pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), está no menor nível da série histórica. No entanto, antes do início do ciclo de afrouxamento monetário, em outubro de 2016, a Selic era de 14,25% ao ano. De lá para cá, ela foi reduzida em 54,4% pelo Copom por causa das condições favoráveis da inflação e na tentativa de acelerar o ritmo de atividade.

Mas esse estímulo não chegou com a mesma intensidade no consumidor, que viu os juros cair menos da metade (26%) do que a taxa básica no período. Em outubro de 2016, os juros do crédito livre e direcionado das pessoas físicas custava 43% ao ano e recuou para 31,7% ao ano em abril último, segundo BC.

Nas contas do economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, autor do estudo, se o repasse do corte da Selic tivesse sido integral, o consumidor estaria pagando hoje um taxa de juros bem menor, de 26,1% ao ano. “Não é um juros para soltar foguete, mas seguramente uma situação melhor do que a atual.”

O juro menor poderia baratear as compras de itens muito dependentes de crédito, como veículos, materiais de construção, móveis e eletrodomésticos Esses segmentos têm uma cadeia longa de produção e poderiam fazer girar mais rapidamente a roda da economia. O estudo mostra que as revendas de veículos foram a s mais afetadas e deixaram de vender R$ 23 bilhões nos últimos 12 meses.

Do ponto de vista de reativação da atividade, o fato de os bancos não terem transferido integralmente, segundo Bentes, o corte dos juros básicos para o consumidor é ruim, na sua avaliação. “Vazou uma receita do comércio, que é um grande gerador de emprego, para o setor financeiro, que não temo mesmo impacto na ocupação.”

De acordo com a Febraban, que representa os bancos, “a ideia de que a queda dos juros básicos deveria ser proporcional à Selic é equivocada”. Segundo a entidade, além do custo de captação do recurso emprestado, que é afetado diretamente pelo juro básico, há outros componentes que entram na taxa ao consumidor. Entre eles estão a inadimplência, despesas administrativas, tributos e a margem financeira dos bancos. A Febraban alega também que, por outra métrica, a de pontos porcentuais, os juros dos empréstimos com recursos livres (sem destinação específica), caíram mais que a Selic no mesmo período.

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'Agora a venda está péssima', diz empresário

Dono de lojas de móveis diz que receita caiu 10%

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2019 | 05h00

O empresário do varejo de móveis Mohamed Barakat, diz que o mercado está difícil. “Antes as vendas estavam ruins, agora estão péssimas”, afirma. Depois de ter ampliado em 7% o faturamento em 2018 em comparação com o ano anterior, ele registrou queda de 10%, de janeiro a maio deste ano. “A gente vinha com crescimento pequeno, mas neste ano vamos fechar com retração.”

Um dos fatores que explicam a reversão nos negócios é que o consumidor que comprava móveis a prazo diminui muito a sua participação nas vendas das três lojas das quais ele é sócio. Os pontos comerciais ficam na rua Teodoro Sampaio, na zona oeste da capital paulista, um tradicional corredor comercial do setor. Sob as bandeiras Kaza&Estilo, Complemento Interiores e Mosai, cada uma é voltada para um público específico: o mais abastado, o cliente de classe média e o consumidor popular.

Segundo Barakat, hoje o público que compra móveis pede desconto e paga à vista. “O cliente que não tem dinheiro na mão para pagar à vista e quer parcelar em muitas vezes está faltando.”

Ao lado do automóveis e dos materiais de construção, o setor de móveis está no rol daqueles movidos a crédito e que estão entre os mais afetados pelo não repasse integral da taxa básica de juros para o custo do financiamento ao consumidor. Em 12 meses até março deste ano, as vendas de móveis e eletrodomésticos caíram 2,1% e poderiam ter crescido quase 1%, se o juro fosse menor. Diante da dificuldade, Barakat conta que começou a olhar para dentro da sua empresa. “Estamos indo atrás de tecnologia para cortar custos.”

 

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