Dida Sampaio/Estadão
Falta de oportunidades faz parte da herança colonial brasileira, diz Nelson Fernando Inocêncio da Silva. Dida Sampaio/Estadão

Pretos e pardos ocupam apenas 22% dos cargos de chefia, aponta estudo

Número contrasta com o tamanho da população negra no País, que chega a 119 milhões de pessoas, ou 56% do total

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2021 | 18h52

BRASÍLIA - Apesar de mais da metade da população brasileira se declarar negra, apenas dois de cada dez brasileiros afirmam ter um chefe preto ou pardo. A desproporção é revelada pela pesquisa “Racismo no Brasil”, do Instituto Locomotiva. Por meio de 1.630 entrevistas telefônicas em 72 cidades, com pessoas a partir de 16 anos, o instituto verificou que apenas 7% dos brasileiros têm ou tiveram em seu último emprego um chefe preto. Outros 15% têm um chefe pardo. Com isso, a proporção de chefes negros (pretos mais pardos) é de 22%.

Na outra ponta, 73% dos brasileiros têm chefes brancos e 5% amarelos. A margem de erro da pesquisa é de 2,1 pontos porcentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. Chama a atenção o fato de negros serem minoria nas posições de chefia, apesar de 56% dos brasileiros - ou 119 milhões de pessoas - se declararem negros.

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, avalia que existe um paralelo entre esse cenário atual e o período da escravidão. “Hoje, não há mais a escravidão, mas existe uma desigualdade gigantesca que atinge a população negra”, diz, lembrando que a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no País, completa 133 anos nesta quinta-feira, 13 de maio.

A pesquisa da Locomotiva foi financiada pelo Carrefour, que no ano passado foi protagonista de um episódio trágico: em 19 de novembro, véspera do Dia da Consciência Negra, um homem negro foi espancado por seguranças de uma loja do grupo em Porto Alegre e morreu. O episódio provocou protestos em todo o País e um forte abalo na imagem da rede varejista.

“Com a tragédia ocorrida em uma de nossas lojas em Porto Alegre, em novembro de 2020, a companhia percebeu que, apesar dos esforços realizados, o que estava sendo feito não foi o suficiente para impedir uma fatalidade como aquela. Em busca por respostas, o Grupo Carrefour Brasil trouxe especialistas, ouviu muitas vozes e assumiu oito compromissos, ampliando a sua visão sobre todas as questões envolvendo o racismo”, afirmou o Carrefour, em nota ao Estadão/Broadcast. “Para combatê-lo, assumiu a posição de uma empresa antirracista com tolerância zero, seja de colaborador, de fornecedor ou de cliente.”

Oportunidades desiguais

A diferença entre negros e brancos se traduz hoje na falta de oportunidades. Renato Meirelles defende que a escolaridade menor dos negros - também identificada na pesquisa - causa impactos no mercado de trabalho, mas não é a única justificativa para a desigualdade. “Existe o processo de promoção dentro das empresas. Quando você olha para cargos mais altos, os negros não estão fora porque têm menos capacidade, mas porque não são promovidos”, avalia. “Quem decide a promoção são os brancos.”

Em um cenário em que as questões sociais estão cada vez mais na mira dos investidores e consumidores, essa é uma preocupação que começa a chegar com força às empresas. No ano passado, por exemplo, chamou a atenção a ação da rede Magazine Luiza de criar um programa de trainees específico para negros. Várias outras empresas já criaram programas que seguem nessa mesma direção.

Mas é um problema que está longe de ser solucionado. Para o professor Nelson Fernando Inocêncio da Silva, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (UnB), a falta de oportunidades faz parte da herança colonial brasileira. Ele lembra que o Brasil foi o principal destino do tráfico atlântico de escravizados, chegando em alguns períodos a receber 40% de todo o contingente de africanos trazidos à força para as Américas. Apesar de ter hoje a segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria, o País mantém os brancos no comando.

“Já conversei com gestores da cúpula de bancos estatais. Muitos negros entram por concurso público na instituição, mas não chegam ao alto comando, que depende de indicações”, diz. “Sempre há um colega negro na empresa que era tão bom quanto quem foi promovido. Eu pergunto aos gestores: onde está aquele colega que lhe ensinou tanta coisa, instruiu e orientou, mas ficou para trás nas promoções?”

Menores salários

A consequência é uma espécie de círculo vicioso, que prejudica a ascensão profissional e a renda de pretos e pardos no Brasil. Com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Locomotiva indicou que os negros ocupam 31% dos cargos de diretoria e gerência de empresas. Os não negros são 69%.

Na ponta de baixo da pirâmide, os negros estão em 67% das ocupações elementares - aquelas que não exigem qualificação - enquanto os não negros têm fatia de 33%.

Os salários também são desiguais. Considerando os homens com ensino superior, a renda média dos negros é de R$ 4.990 por mês. A dos não negros é 46% maior, de R$ 7.286. Entre as mulheres com ensino superior, a média das negras é de R$ 3.067 e a das não negras de R$ 4.566 (49% maior). Em outras palavras, mesmo que tenham formação equivalente, os negros ganham menos que os brancos.

O pesquisador Michael França, do Insper, juntou-se a outros três economistas na criação de uma metodologia para medir o Índice de Equilíbrio Racial (IER) em empresas, setores e regiões. O objetivo é mensurar quanto a distribuição ocupacional por raça diverge da mesma distribuição na população economicamente ativa. O trabalho também permite estimar o volume de renda que a população negra teria a mais se não houvesse desequilíbrio.

“Conforme vamos subindo de nível hierárquico na empresa, o índice aponta para uma sobre-representação de profissionais brancos. Conseguimos mapear com precisão e monitorar as empresas e locais que estão avançando ou regredindo em diversidade”, diz França. “Com isso, podemos identificar as melhores práticas que podem ser replicadas por outras firmas.”

Aplicando a metodologia às 500 maiores empresas de São Paulo, os pesquisadores constataram a “dominância branca” em 47% delas. Em outros 8%, os dados mostraram uma “efetiva exclusão de negros” nos quadros de funcionários. Segundo o economista, governos estaduais de São Paulo e Roraima e companhias listadas na B3, a Bolsa brasileira, já estão em tratativas para usar o instrumento de medição.

“O índice olha para toda a estrutura organizacional da empresa, com peso maior para ocupações de maior prestígio e liderança. Os gestores precisam entender que ampliar a diversidade abre espaço para indivíduos com percepções diferentes da realidade, o que melhora a produtividade e a inovação”, diz França. “Tentamos fazer essa análise do modo mais técnico possível. O debate racial também precisa ser mais técnico.”

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Casos de preconceito racial no trabalho são subnotificados, diz MPT

Levantamento do Instituto Locomotiva aponta que 52% dos trabalhadores pretos já sofreram preconceito no ambiente de trabalho, mas esses casos ainda não se refletem em denúncias

Eduardo Rodrigues e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2021 | 18h52

BRASÍLIA - Embora a pesquisa “Racismo no Brasil”, do Instituto Locomotiva, aponte que 52% dos trabalhadores pretos já sofreram preconceito no ambiente de trabalho, esses casos ainda não se refletem em denúncias ao Ministério Público do Trabalho (MPT). O órgão trabalha para reverter essa subnotificação.

“Muitas vítimas ou mesmo colegas nem sequer sabem que podem exigir outro tipo de comportamento na empresa. As pessoas acabam naturalizando as violências”, avalia a vice-coordenadora nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do MPT, Ana Lúcia Stumpf González. “Ao serem preteridas numa promoção ou nem sequer conseguirem acessar uma vaga, as pessoas não enxergam violação que poderia levar a uma denúncia. A subnotificação gigantesca.”

Ela cita ainda o receio do profissional em fazer uma denúncia e acabar sendo boicotado pela própria empresa e por outras firmas do mesmo setor. Segundo Ana Lúcia, há uma cultura de “silenciamento” para evitar represálias, que dificulta a identificação de casos individuais e coletivos de discriminação no trabalho.

No período de 2016 a 2020, o MPT recebeu 1.096 denúncias de preconceito de raça e origem no trabalho. Outros 994 casos não viraram denúncias.

Mesmo quando um caso individual é levado à Justiça, o MPT normalmente só é comunicado a partir da segunda instância. “Mas o que notamos, em geral, é que uma situação de racismo no ambiente de trabalho não é uma questão individual, pois afeta a todos os trabalhadores. É um paradigma que precisamos quebrar. Deveria ser tratado sempre como um dano coletivo”, acrescenta.

A procuradora aponta que a discriminação começa antes mesmo do ingresso do profissional na empresa, ainda no processo seletivo. Em vez de simplesmente multar as firmas, o MPT tem incentivado as companhias a fazerem projetos estratégicos com seleções que levem a mais diversidade nas contratações. “De repente, exigir proficiência em inglês é colocar uma barreira para alguns grupos de profissionais, que não irão se candidatar. Muitas vezes essa exigência sequer é necessária para a vaga”, exemplifica.

O órgão também já publicou duas notas técnicas - em 2018 e 2020 - mostrando as previsões legais que permitem às empresas realizar processos seletivos direcionados para gênero e raça. Essas medidas de equalização têm sido mais usadas dentro da agenda ESG - de boas práticas ambientais, sociais e de governança.

“Os grandes fundos querem investir em empresas com diversidade, e os clientes vão incorporando isso também. No fundo, fomentar a diversidade nos seus quadros é um bom marketing para as companhias”, diz a procuradora.

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