Washington Alves/ Reuters
Washington Alves/ Reuters

Prever o comportamento do vírus tem sido uma tarefa árdua até para epidemiologistas renomados

Se queda do número de óbitos estiver relacionada ao aumento da cobertura da vacinação, País está caminhando para um cenário positivo

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 04h00

Como vai se comportar a pandemia nos próximos meses? Essa é a pergunta mais importante do momento. Os caminhos da pandemia são totalmente incertos. Como vai evoluir o número de novos casos da doença, qual será a dinâmica da contaminação, teremos novas variantes mais contagiosas ou mais resistentes às vacinas, como vai evoluir o número de óbitos? São algumas das perguntas que estão sendo feitas por leigos e especialistas, mas que permanecem sem respostas seguras.

Prever o comportamento deste vírus tem sido uma tarefa árdua e ingrata, até mesmo para epidemiologistas renomados. Porém um exercício que podemos fazer, e que pode trazer alguma luz sobre o futuro da pandemia, é o que devemos esperar caso o vírus continue se comportando de forma similar ao que aconteceu nestes últimos 18 meses.

Tomando como indicador o número de óbitos, o comportamento da pandemia no Brasil pode ser divido em três momentos distintos:

1) Após um rápido aumento entre março e abril de 2020, a média móvel de sete dias dos óbitos estabilizou um pouco acima de mil por dia entre maio e agosto de 2020. A partir daí, teve início um período de queda sistemática dessa média móvel, entre agosto e novembro, à taxa média de -1,1% ao dia. A partir de dezembro, tivemos uma segunda onda de crescimento do número de óbitos.

2) A segunda onda, que se iniciou em dezembro de 2020, mais violenta que a primeira, mostrou um forte aumento do número de óbitos e durou até abril de 2021. Neste período, a média móvel de sete dias do número de óbitos superou 3 mil pessoas por dia.

3) A partir de abril de 2021, o número de óbitos começou uma forte trajetória de queda. Entre abril e maio, a média móvel de sete dias do número de óbitos caiu -0,7% por dia. Essa queda acelerou a partir de junho, quando a taxa atingiu -1,3% por dia. Com este comportamento, a média móvel do número de novos casos está próxima a 25 mil e a do número de óbitos, em torno de 700 por dia na semana encerrada hoje.

Em termos absolutos, esta evolução do número de óbitos significa uma diminuição de dez óbitos por dia na média móvel de sete dias. Se o número de óbitos continuar caindo dez por dia, no dia 6 de novembro teremos atingido zero óbito. Seria o fim da pandemia no Brasil. Um cenário muito otimista e muito pouco provável. Por outro lado, se a taxa de queda permanecer constante (-1,3% ao dia), no final de 2021 teremos 138 óbitos diários. Se voltar à trajetória do início do arrefecimento da segunda onda (-0,7% por dia), no final do ano teríamos 308 óbitos diários decorrentes da pandemia. Nestes dois casos, a pandemia se tornaria endêmica, porém com menor letalidade que outras doenças como o câncer, doenças respiratórias, diabetes, entre muitas outras.

É impossível ter certeza sobre a razão pela qual a taxa de queda do número de óbitos está acelerando e se vai continuar nesta trajetória. O mais provável é que essa aceleração da queda se deva às medidas de distanciamento social, ao uso de máscaras e à cobertura do programa de vacinação no País. Aproximadamente 60% da população adulta já foi vacinada com uma dose e um pouco mais de 25% com duas doses.

A população brasileira com 12 anos ou mais corresponde a 82% da população total. As pesquisas mostram que menos de 10% da população não pretende se vacinar. Se 94% dos adultos tomarem vacina, 77% da população brasileira vai se vacinar. Atualmente, 0,48% da população é vacinada por dia (média de agosto). E o ritmo da vacinação está aumentando. Supondo que o ritmo atual (média de agosto) permaneça, completaremos a vacinação dia 30/9. Caso 100% da população decida se vacinar, completaremos em 11/10.

Se, efetivamente, a aceleração da queda do número de óbitos estiver diretamente relacionada ao aumento da cobertura da vacinação, o Brasil está caminhando para um cenário bastante positivo. O importante é manter as políticas de prevenção e torcer para que o vírus não mude novamente de direção.

*PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO, É ECONOMISTA CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS

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