Previ tenta reverter prejuízos de Sauipe

Dez anos depois, empreendimento turístico na costa baiana entra na terceira fase

Tiago Décimo / SALVADOR, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Duas notícias, nas últimas semanas, voltaram a pôr a Costa do Sauipe, na Bahia, em evidência no setor de turismo nacional.

Uma proveniente de uma estratégia de marketing. Inspirada no sucesso global alcançado, ano passado, pela campanha do chamado melhor emprego do mundo - um cargo de zelador da Ilha Hamilton, na Austrália -, a direção do empreendimento baiano lançou, em agosto, a campanha O Hóspede, apelidada de o melhor emprego do Brasil.

A segunda notícia tem relação direta com a administração do empreendimento. O anúncio, feito por meio de um comunicado curto, no dia 31 de agosto, da saída da rede jamaicana SuperClubs do resort, a partir de 1.º de janeiro de 2011.

As duas novidades integram o que os administradores do destino turístico passaram a chamar de "terceira fase" da Sauipe S.A., no ano em que o destino turístico completa dez anos. "Agora, estamos prontos para fazer com que o empreendimento dê lucro aos investidores", acredita o presidente da Sauipe, Eduardo Giestas. "Isso nunca aconteceu."

Para especialistas do mercado, esta pode ser a última chance dada pela dona do empreendimento, a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), para que os seguidos prejuízos do resort sejam revertidos. "Não é segredo que as relações dos acionistas com a Sauipe estão bastante desgastadas", diz um ex-conselheiro do empreendimento, que prefere não se identificar.

A "terceira fase" corresponde à tomada de decisão, por parte da Previ, de fazer a Sauípe S.A. virar uma operadora hoteleira - um processo iniciado em 2007, quando a rede francesa Accor, que controlava dois dos cinco hotéis no complexo, com a bandeira Sofitel, decidiu abrir mão de sua operação no local. Os estabelecimentos passaram a ser administrados pela própria Sauipe S.A. - ainda que, até o ano passado, a medida tenha sido tratada como "temporária".

O anúncio oficial de que a própria Sauipe S.A. passaria a administrar todas as operações da Costa do Sauipe - que além dos hotéis conta com cinco pousadas, centros esportivos (equestre, aquático, de tênis e golfe), minishopping e espaço para crianças -, feito em junho, encerrou meses de especulações sobre o futuro do resort e sinalizou ao mercado turístico uma mudança de posicionamento da empresa.

"Tínhamos duas opções: vender por um preço baixo ou "tocar" o negócio", disse o presidente do conselho da Sauipe S.A., Ivan Schara, da Previ, no lançamento do plano. "Optamos pela segunda."

Sem alternativa. O nome "terceira fase" tem relação com as mudanças na forma como a Previ conduziu o negócio ao longo de seus dez anos. Entre 2000 e 2007, a Sauipe S.A. funcionou como um misto de proprietário e administrador de um condomínio, com as funções, grosso modo, de cuidar das áreas comuns do resort e de promover ações de marketing. A remuneração - ou o "pagamento de aluguel" - por parte dos hotéis terceirizados seria feita a partir dos lucros aferidos na operação deles, que nunca ocorreram.

Notando a falta de retorno para os investimentos de cerca de R$ 450 milhões, entre a construção do complexo e melhorias diversas, em 2007 os investidores partiram para a "segunda fase".

Foi uma agressiva tentativa de renegociação de contratos, não só com os operadores hoteleiros - Accor, SuperClubs e a norte-americana Marriott -, mas com os administradores dos centros esportivos e de lazer e dos restaurantes do empreendimento. O eixo do novo acordo seria o pagamento de um "aluguel fixo" dos operadores para a Sauipe S.A.

Aos poucos, as empresas, pressionadas, foram anunciando o fim das operações na Costa do Sauipe, em um processo a ser concluído em 31 de dezembro, quando a SuperClubs deixa o hotel Breezes. Ao mesmo tempo, a Previ abriu-se ao mercado, oficialmente admitindo a possibilidade de venda do complexo.

Ofertas surgiram, como as feitas pela rede espanhola Quail e pelo investidor espanhol Enrique Bañuelos, ambas na casa dos R$ 200 milhões.

Apesar de o valor ser bem menor que o preço de mercado do imóvel que a Costa do Sauipe ocupa - terreno de 176 hectares, com fácil acesso a partir de Salvador, a 76 quilômetros do aeroporto internacional -, de entre R$ 350 milhões e R$ 400 milhões, a Previ chegou a aceitar uma das propostas, em 2008. A crise econômica mundial, porém, levou a oferta embora.

Não restou alternativa à Previ senão transformar a Sauipe S.A. em um operador hoteleiro. A controladora fez, desde o ano passado, mais um investimento de grande porte - R$ 30 milhões - na recuperação da estrutura física da Costa do Sauipe e promoveu, em junho, o "relançamento" do destino turístico.

"O importante é que, agora, temos toda a operação nas mãos, podemos nos beneficiar dos ganhos em escala possíveis para um empreendimento desse porte e não corremos mais riscos de "canibalização" entre os hotéis e demais equipamentos", avalia Giestas. "Esperamos chegar ao break-even em 2011 e passar, então, a dar lucro aos investidores."

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