Daniel Teixeira/Estadão
Em outubro, o IPCA-15 subiu em todas as localidades pesquisadas pelo IBGE Daniel Teixeira/Estadão

Prévia da inflação sobe 0,94% em outubro, na maior alta para o mês desde 1995 

Resultado do IPCA-15 foi puxado pelo aumento nos preços dos alimentos, principalmente das carnes; indicador ficou acima do esperado, mas analistas acreditam que aceleração é passageira

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2020 | 09h37
Atualizado 23 de outubro de 2020 | 18h35

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), uma prévia da inflação oficial, foi de 0,94% em outubro, maior resultado para o mês desde 1995, informou nesta sexta-feira, 23, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano, o indicador acumula alta de 2,31% e em 12 meses atingiu 3,52%. 

O resultado do mês ficou acima do esperado pelos analistas do mercado financeiro consultados pelo Projeções Broadcast, que previam alta entre 0,52% e 0,93%. Economistas, no entanto, acreditam que o aumento é passageiro. A meta do Banco Central para a inflação deste ano é de 4%.

Os preços dos alimentos e bebidas tiveram a maior alta (2,24%) entre os grupos pesquisados e também o maior impacto positivo (0,45 ponto porcentual) no índice. Os alimentos para consumo no domicílio subiram 2,95% em outubro, depois do avanço de 1,96% em setembro. O item de maior peso foram as carnes, com aumento de 4,83% - o quinto seguido.

“Destacam-se também as altas do óleo de soja (22,34%), do arroz (18,48%), do tomate (14,25%) e do leite longa vida (4,26%)”, diz a nota divulgada pelo IBGE. “Por outro lado, houve queda nos preços da cebola (-9,95%) e da batata-inglesa (-4,39%).”

Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, oito tiveram alta no IPCA-15 de outubro. Em setembro, três grupos (vestuário, saúde e cuidados pessoais e educação) haviam registrado deflação. Neste mês, apenas educação teve ligeira variação negativa, com queda de 0,02%. Juntos, os grupos alimentação e bebidas e transportes responderam por cerca de três quartos do avanço do IPCA-15.

O economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, disse que o resultado do índice causa preocupação, mas que "para chegar à meta da inflação ainda vai um pouco". "Existe hoje um sentimento inflacionário, mas nem o mais pessimista projeta inflação alta tão cedo", afirmou.

Para a economista do Itaú Unibanco Julia Passabom, o IPCA-15 de outubro deve ser o pico das leituras de inflação deste ano. "Estamos vendo um choque de inflação de curto prazo que tem três coisas juntas: choque de commodities (matérias-primas com cotações internacionais) agrícolas em reais; uma pressão de curto prazo das políticas de transferência de renda; e a mudança da cesta de consumo de serviços para bens", diz.

O economista-chefe do Haitong, Flávio Serrano, disse que o resultado do indicador acende uma luz amarela, porque a aceleração foi intensa, mas o ambiente econômico ainda sugere que a pressão é temporária e que a inflação deve voltar a se mostrar comportada.

Ele avalia que a inflação de outubro ainda não parece uma pressão de custos, derivada do desabastecimento de vários insumos, mas sim um reflexo da demanda mais aquecida por bens, com a população mais dentro de casa e com renda, notadamente com o auxílio emergencial, e também do reflexo do câmbio depreciado em alguns produtos, como eletrônicos.

Transportes

Além disso, os preços das passagens aéreas passaram por forte correção em outubro, após meses de demanda em baixa, com avanço médio de 39,90% no IPCA-15. Sozinho, o item contribuiu com alta de 0,13 ponto porcentual no indicador. Puxado pelos bilhetes de avião, o grupo transportes registrou alta de 1,34%, com impacto positivo de 0,27 ponto.

Os preços da gasolina, que respondem ao comportamento das cotações do petróleo e do câmbio, conforme a política de preços da Petrobrás, tiveram alta média de 0,85% no IPCA-15 de outubro, ante 3,19% em setembro. Foi a quarta alta seguida do item no IPCA-15.

Ainda no grupo dos transportes, o IBGE destacou a alta nos preços do seguro voluntário de veículo (2,46%), no primeiro avanço após sete meses consecutivos de quedas. Os únicos subitens do grupo com variações negativas foram ônibus interestadual (-2,73%) e gás veicular (-1,36%).

O grupo artigos de residência subiu 1,41%, acelerando em relação a setembro (0,79%). Todos os itens do grupo tiveram alta, segundo o IBGE, “com destaque para mobiliário (1,75%), que havia recuado (-0,14%) no mês anterior, e tv, som e informática (1,68%)”. COLABORARAM GREGORY PRUDENCIANO, CÍCERO COTRIM e THAÍS BARCELLOS

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'A alimentação explica hoje 90% do resultado dos índices de preços ao consumidor', diz economista

Para André Braz, da FGV, não há risco de descontrole da inflação, apesar de existirem pressões significativas de preços no atacado

Entrevista com

André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2020 | 13h49

André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getulio Vargas (FGV), não vê descontrole na inflação e risco de uma espiral inflacionária. Ele reconhece, porém,  que  houve um certo “espalhamento” da alta de preços por conta da desvalorização do real em relação dólar que atingiu os preços de outros itens industrializados, como eletrodomésticos, eletrônicos, automóveis, por exemplo.

“A alimentação explica hoje 90% do resultado dos índices de preços ao consumidor”, frisa o economista. Na sua avaliação, embora em recuperação, a economia ainda está desaquecida, com desemprego elevado. Esses fatores não sancionam altas generalizadas de preços ao consumidor, embora as pressões existam nos preços no atacado. A seguir, principais trechos da entrevista.

Por que a inflação real está acima da inflação dos índices?

A inflação real é a que a gente mede. O que existe é uma percepção da inflação diferente, de acordo com o nível de renda, gosto, preferência e até mesmo com a faixa etária da família. A inflação das famílias com renda mais baixa conversa hoje com a inflação dos alimentos, que subiram quase 10% em 12 meses. A classe média está mais alinhada com a inflação do índice cheio, lembrando que a alimentação responde por menos de 20% da inflação geral e os outros 80% são bens, serviços e tarifas públicas que foram muito comprometidos com a pandemia. Muitos serviços como, cinema, hotéis, passagens áreas, por exemplo, tiveram consumo mínimo no período.

Mas a classe média também reclama do preço dos alimentos...

Com certeza, porque o diagnóstico é feito por todo mundo e o aumento não foi trivial a ponto de não ser percebido pela classe de renda mais alta. Quanto maior a renda, menor a participação da alimentação na cesta de consumo. Para a baixa renda, a alimentação responde por 30% ou mais do orçamento, para a renda mais alta é de 15% para baixo. Vou me importar muito com uma alta que compromete 10% do meu orçamento? Eu sei que está caro, mas tenho renda para pagar. Faço juízo de valor, mas isso não afeta a minha cesta de consumo.

Há um descontrole geral na inflação?

Não. A inflação está muito concentrada em alimentos. A alimentação explica hoje 90% do resultado dos índices de preços ao consumidor. Até pela persistência na desvalorização do real, isso começa a criar pressões inflacionárias em vários segmentos. Vemos materiais de construção, eletrodomésticos, eletrônicos subindo de preço. Começamos a ver um espalhamento um pouco maior. Mas longe de isso ser entendido como um processo inflacionário mais disperso, que mostre um cenário duradouro e persistente. O problema seria entrar numa espiral inflacionária espalhada por muitos bens e serviços e com caráter duradouro. Mas essa não é a característica da inflação no curto prazo e ela não  se mostra que irá caminhar nesse sentido até porque estamos com a economia desaquecida, com desemprego elevado.

Como o sr. avalia essa questão do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) estar grávido da alta de preços no atacado?

Está grávido em termos. Só uma parte da estrutura do IGP (Índice Geral de Preço, que engloba preços no atacado) caminha em direção ao IPCA. Tem coisas que não vão contaminar na magnitude das variações de preços no atacado os produtos ao consumidor. Por exemplo, o minério de ferro foi a commodity que mais subiu no atacado, 80% em 12 meses. Uma parte desse minério explica uma parte dos aumentos do preço do carro, máquina de lavar, por exemplo. Mas não estamos vendo carro e peças subindo nessa magnitude. Há aumentos de custos, movidos em parte pelo encarecimento da matéria prima, mas não de maneira explosiva como o atacado vem mostrando.

O sr. não vê risco de repasse para o varejo  da alta de preços captada pelo IGP na casa de 20%?

Alguma coisa vai repassar sim, mas é muito pouco. Isso não vai fazer com que a meta de inflação não seja cumprida este ano, muito menos do ano que vem. Não há o menor risco desse IGP fazer o IPCA ficar acima da meta de inflação ou criar  uma espiral inflacionária difícil de ser contida. Estamos muito longe disso.

 E o impacto nos preços ao consumidor dos aluguéis que são reajustados pelos IGP-M?

Teria impacto se esse reajuste realmente fosse praticado. Em 12 meses até setembro, o aluguel residencial subiu 3% ao consumidor. Apesar de IGP-M ser o índice usado nos contratos, há espaço para negociação.

Será preciso subir juros o ano que vem para conter a inflação?

Vai depender muito do que será o ano que vem. A economia vai crescer mais rapidamente do que imaginamos? Ainda não há sinais claros do que vai acontecer. A normalização gradual da prestação de serviços, comércio, vai causar alguma inflação. Mas essa inflação vai caminhar no sentido da meta.. Não consigo ver, por enquanto, nenhuma pressão que justifique mexer em juros no curto prazo.

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