Beto Nociti/Banco Central
Mercado passa a prever Selic, taxa básica de juros do País, ultrapassando 7%  Beto Nociti/Banco Central

Prévia da inflação sobe mais que o esperado e reforça expectativa de alta de 1,5 ponto na Selic

O Copom decide na quarta-feira o aumento na taxa básica de juros, hoje em 6,25% ao ano; IPCA-15 teve em outubro o pior resultado para o mês desde 1995

Daniela Amorim e Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 12h46

RIO E SÃO PAULO - Prévia da inflação oficial no mês, o IPCA-15 bateu em 1,2% em outubro – o pior resultado para o mês desde 1995 – e aumentou a pressão sobre o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que anuncia na quarta-feira a nova taxa básica de juros. A variação recorde dos preços levou o mercado a revisar novamente suas projeções, e as apostas agora são de aumento de até 2 pontos porcentuais para a Selic – que está em 6,25% ao ano.

Além da alta da inflação – que em 12 meses, considerando o IPCA-15, já está em 10,34%, muito acima do teto da meta definida para o ano (5,25%) –, as estimativas de bancos e consultorias também levam em conta o receio de uma piora das contas públicas. 

Isso seria resultado da tentativa do próprio governo de rever a regra do teto de gastos (que limita as despesas públicas à correção da inflação) para ampliar os desembolsos com programas sociais e emendas parlamentares em 2022, ano eleitoral. 

“Temos uma tempestade perfeita composta pela forte deterioração do quadro fiscal e expressiva alta de preços. O BC terá de ter pulso firme, pois a política monetária está sozinha”, afirmou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa, que admite que sua previsão de alta de 1,25 ponto foi atropelada pelo IPCA-15.

Entre as casas que passaram a ver a possibilidade de alta de até 2 pontos, está a Asa Investments. “Não é só o fiscal, em paralelo estamos perdendo (o controle da) a inflação em velocidade bem superior ao que imaginávamos. Dado o contexto, entendemos ser difícil o BC não aumentar em 2 pontos”, disse o seu economista-chefe, Gustavo Ribeiro.

O banco Goldman Sachs também elevou sua projeção de aumento de 1,5 ponto porcentual na taxa básica de juros depois do IPCA-15 de outubro acima do esperado. Quatro dias atrás, o banco havia passado a esperar alta de 1,25 ponto. "Pressões significativas de custos, inflação de serviços crescente, risco político e fiscal persistente e uma generalização de efeitos de segunda ordem e de forças inerciais agora estão contaminando a perspectiva de inflação em 2022", escreve o economista do Goldman Sachs Alberto Ramos em relatório. A Rio Bravo Investimentos fez a mesma alteração na sua projeção para a Selic - de alta de 1,25 para 1,5 ponto na taxa Selic.

Diante desse cenário, é cada vez maior a pressão sobre o Banco Central, que busca elevar as taxas de juros para atingir o objetivo de levar a inflação para a meta de 3,5% em 2022 (com intervalo de tolerância de 1,5 ponto).  “Se o Banco Central  não fizer uma sinalização forte e contundente  na decisão desta quarta-feira sobre a Selic, as expectativas vão subir ainda mais  e poderemos ver a inflação de 2022 rapidamente ir para 5% ou mais”, afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. O teto da meta de inflação para o ano que vem  é de 5%.

O economista por enquanto prevê um  aumento de 1,5 ponto porcentual na reunião do Copom nesta quarta e projeta que a taxa básica de juros atinja 10,5% ao ano em fevereiro do ano que vem. No entanto, Vale não descarta a possibilidade de que a Selic atinja 11% ou 12% no primeiro bimestre de 2022 .

O economista Roberto Troster, sócio da Troster & Associados, observa  que nos últimos 12 meses tanto o BC como o mercado subestimaram a inflação. “A boa prática monetária recomendaria ser mais agressivo com juros no começo e esse gradualismo (da alta) é perigoso num país que tem forte memória inflacionária”, afirma o economista.

Com a piora da inflação, estampada no resultado do IPCA-15, e a sinalização do rompimento do teto de gastos, Troster diz que caberia ao BC elevar em 1,75 ponto porcentual a Selic amanhã. Antes, ele esperava uma alta de 1,25 ponto porcentual.

Na opinião do economista, quanto mais a autoridade monetária demorar para subir os juros num ritmo maior, o quadro só tende a se agravar. Isso porque, com uma estratégia de subida gradual, os juros terão de permanecer elevados por um período mais longo para conter a inflação. “É como frear um carro numa descida: se a gente pisa devagar, só esquenta o freio e o veículo não para. Tem que pisar forte”, compara.

Para Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria Integrada, todos os eventos recentes colocaram mais pressão na política monetária para que o BC tenha uma postura mais agressiva e incisiva no curto prazo. “O resultado do IPC-15 apenas reforça essa percepção, dado que há um quadro de curto prazo muito adverso em relação á inflação”, observa. 

No início da semana, a consultoria ajustou para cima a projeção de alta da taxa básica de juros. Inicialmente, a Selic atingiria 9% em fevereiro de 2022, com dois aumentos de um ponto porcentual e mais um de 0,75. Agora, a expectativa da consultoria é de que a Selic  vá para 10% ou um pouco mais em fevereiro  do ano que vem, com aumentos de 1,5 ponto porcentual. “Vamos esperar o comunicado de amanhã para entender as motivações do Banco Central.”

O banco BV acredita que a Selic vai fechar o período em 10%, com duas elevações consecutivas de 1,5 ponto porcentual e outra de 0,75 ponto - a estimativa anterior era de 9,0%. "Para conter a deterioração das expectativas de inflação nesse ambiente e manter a inflação próxima da meta em 2022, é provável que o BC deverá entregar um ajuste maior e mais rápido da Selic", afirma relatório da instituição.

Com o aumento das incertezas no País e o impacto da taxa Selic marginalmente mais alta durante o ano, o BV também alterou sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. A estimativa passou de alta de 1,5% para 1,3%. Conforme explica a nota, grande parte desse crescimento deve ser sustentado pela expansão global por meio do setor exportador. "Com juros maiores e crescimento menor, a projeção para o IPCA segue inalterada em 3,8% para 2022", cita, acrescentando ainda que a estimativa para o PIB em 2021 permanece em aumento de 5,0%. Por ora, também, a expectativa para o IPCA fechado deste ano continua em 8,80%.

O aumento dos juros terá impacto negativo na recuperação da economia e na geração de novos empregos. Como reflexo desse cenário, num dia de novos recordes das Bolsas nos EUA, o Ibovespa terminou com baixa de 2,11%, aos 106.419,53 pontos. Já o dólar teve valorização de 0,32%, cotado a R$ 5,57 – com variação acumulada no mês de 2,34%. / COLABORARAM CÍCERO COTRIM, LUCIANA XAVIER, GUILHERME BIANCHINI, MARIA REGINA SILVA E THAÍS BARCELLOS 

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Prévia da inflação de outubro é a maior para o mês desde 1995 e acumula alta de 10,34% em 12 meses

IPCA-15 acelerou para 1,20%, puxada pela energia elétrica e pelo gás de botijão; carnes tiveram queda depois de 16 meses de aumento

Daniela Amorim, Maria Regina Silva e Luciana Xavier, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 09h27
Atualizado 26 de outubro de 2021 | 19h52

RIO E SÃO PAULO - A prévia da inflação oficial do País voltou a mostrar força em outubro, impulsionada pela alta nos custos da energia elétrica, passagens aéreas, combustíveis e alimentos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) subiu 1,20% em outubro, maior taxa para o mês dede 1995, informou nesta terça-feira, 26, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Se considerados todos os meses do ano, a inflação foi a mais aguda desde fevereiro de 2016. A taxa acumulada em 12 meses pelo IPCA-15 subiu a 10,34% em outubro.

O resultado deve colocar ainda mais pressão para que o Banco Central (BC) decida por uma alta mais contundente na taxa básica de juros, a Selic, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, avaliou Gustavo Cruz, economista e estrategista da RB Investimentos. Ele acredita em mais adesões à projeção de uma elevação de 1,5 ponto porcentual na Selic, considerando também o cenário de mudança na postura do governo sobre a regra do teto de gastos.

 

 

"Já seria suficiente para uma alta maior. Agora, somando dois elementos, fica difícil acreditar que o Banco Central terá uma comunicação suficiente para entregar uma alta menor do que 1,5 (ponto porcentual), com todo este cenário, sem trazer um estresse para o mercado", avaliou Cruz.

Apesar de avaliar que outubro deve ter sido o pico de alta do IPCA-15, o estrategista-chefe do Banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno, acredita que os preços ainda continuarão bastante pressionados.

"As preocupações fiscais devem inibir desaceleração mais rápida do IPCA-15", disse Rostagno, citando a desvalorização do real ante o dólar como reflexo desse cenário fiscal mais adverso.

O economista do Mizuho lembra ainda que a alta do petróleo no mercado internacional também é um fator de pressão nos preços dos combustíveis no mercado doméstico.

"Consequentemente o BC vai ter que subir mais os juros para ancorar as expectativas de inflação. E provavelmente a gente deve ter Selic voltando para dois dígitos no começo do ano que vem", previu Rostagno.

Em outubro, oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IPCA-15 tiveram aumentos de preços.

A energia elétrica subiu 3,91%, item de maior impacto individual na inflação do mês, 0,19 ponto porcentual. Em outubro, permanece em vigor a bandeira tarifária de escassez hídrica, que acrescenta R$ 14,20 na cobrança da conta de luz a cada 100 kWh consumidos.

Ainda em habitação, o gás de botijão ficou 3,80% mais caro em outubro, o 17º mês consecutivo de aumentos. O gás de botijão já acumula uma alta de 31,65% apenas no ano de 2021.

Os combustíveis ficaram 2,03% mais caros em outubro. A gasolina subiu 1,85%, acumulando uma elevação de 40,44% nos últimos 12 meses. Os preços também aumentaram em outubro para o etanol (3,20%), óleo diesel (2,89%) e gás veicular (0,36%). No entanto, o maior impacto no grupo transportes foi das passagens aéreas, que subiram 34,35%, uma contribuição de 0,16 ponto porcentual para o IPCA-15.

Os gastos com alimentação e bebidas tiveram uma elevação de 1,38% em outubro, responsáveis por quase 25% de toda a inflação do mês. As famílias pagaram mais pelas frutas (6,41%), tomate (23,15%), batata-inglesa (8,57%), frango em pedaços (5,11%), café moído (4,34%), frango inteiro (4,20%) e queijo (3,94%).

O resultado do IPCA-15 em outubro foi decorrente de aumentos de preços em todas as 11 regiões pesquisadas. A alta mais branda ocorreu em Belém (0,51%), enquanto a maior variação foi registrada em Curitiba (1,58%).

Sete regiões que integram a coleta do IBGE acumulam inflação de dois dígitos nos últimos 12 meses: Curitiba (13,42%), Porto Alegre (11,85%), Belo Horizonte (10,19%), Recife (10,29%), Fortaleza (11,14%), Goiânia (10,44%) e Belém (10,01%). 

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Alta da gasolina faz inflação ser percebida pelos principais grupos sociais; leia análise

Em 2021, ainda que os alimentos permaneçam com alta acumulada acima da inflação média, os energéticos passaram a ser os vilões da inflação

André Braz*, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 19h48

No ano passado, o IPCA fechou com alta de 4,52%, acima da meta de 3,75% estabelecida para 2020. Mas a pressão inflacionária estava mais concentrada nos alimentos, que segundo o IPCA comprometem 21% do orçamento familiar e cujos preços subiram em média 14%, pressionando, principalmente, o orçamento doméstico de famílias de baixa renda. 

Em 2021, ainda que os alimentos permaneçam com alta acumulada acima da inflação média, agora de 12,41%, os energéticos roubaram a cena e passaram a ser os vilões da inflação. A gasolina e a energia elétrica, segundo o IPCA-15, subiram, respectivamente, 40,44% e 30,02% nos últimos 12 meses. Com esses movimentos, os energéticos respondem por quase 45% da inflação acumulada em 12 meses, que está em 10,34%. 

Segundo o IPCA, 13,5% do orçamento familiar é comprometido pelas despesas com combustíveis, energia elétrica e gás. Entre estes, a gasolina ocupa duas posições de destaque, a segunda maior alta acumulada em 12 meses (40,44%) e o maior peso no orçamento familiar (6,09%).

Já o diesel, embora comprometa uma discreta fatia do orçamento familiar, 0,20%, possui grande capacidade de espalhar pressões inflacionárias. Ele compromete o preço do frete, da geração de energia e do transporte público.

O avanço no preço do barril de petróleo e a desvalorização cambial voltaram a impulsionar os preços dos combustíveis fósseis em outubro. Para as famílias de baixa renda, o gás de botijão, com alta de 35,18% em 12 meses, aparece como grande vilão. 

Já a gasolina, afeta diretamente o orçamento de famílias com renda mais alta, o que faz a inflação ser percebida por todos os principais grupos sociais.

Diante de tais fontes de pressão inflacionária, o IPCA de 2021 deve fechar em 9,4%, com os energéticos dominando a cena da inflação deste ano. 

Para 2022, a estimativa é de que a inflação desacelere e os preços subam em média 4,4%, movidos pela expectativa de recuo expressivo da energia a partir de maio de 2022, quando finalmente há possibilidade da prática de bandeiras tarifárias menos onerosas.

*É ECONOMISTA DO IBRE/FGV

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