Prévia da inflação é a menor em 14 anos

IPCA-15 teve deflação de 0,18% em julho com redução de despesas com alimentação e combustível; alta de imposto deve afetar índice em 2017

Daniela Amorim, Thais Barcellos e Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2017 | 09h21

RIO e SÃO PAULO - A prévia da inflação oficial no País surpreendeu mais uma vez. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) teve deflação de 0,18% em julho, a maior queda de preços em 14 anos, informou nesta quinta-feira, 20, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa acumulada em 12 meses desacelerou de 3,52% em junho para 2,78% em julho, a mais baixa desde março de 1999. As famílias gastaram menos com os alimentos consumidos em casa, como batata-inglesa, tomate e frutas. Também houve redução nas despesas com combustíveis: tanto a gasolina quanto o etanol ficaram mais baratos.

“Os alimentos acumulam um aumento de 0,11% nos últimos 12 meses, ou seja, praticamente zero. Nos 12 meses anteriores, encerrados em julho de 2016, a alta de preços acumulada era de 13,3%. Foi uma desaceleração muito forte, com impacto enorme sobre a inflação, porque os gastos com alimentação e bebidas respondem por cerca de 25% da despesa das famílias”, apontou o analista Everton Carneiro, da RC Consultores.

Assim que o resultado do IPCA-15 foi divulgado ontem pela manhã, começou a se cogitar no mercado uma queda ainda mais forte na taxa básica de juros, a Selic, podendo chegar em dezembro abaixo de 8%. Mas o aumento das alíquotas de PIS/Cofins para combustíveis, anunciado ontem à tarde, impôs uma cautela maior nas projeções. “O quadro benigno ainda prevalece, porém a discussão que tende a começar é em relação à taxa terminal para Selic, se será na faixa de 8%, ou menor que essa marca. Talvez a estimativa de ficar abaixo de 8% tenha morrido”, diz o economista Leonardo França Costa, da Rosenberg Associados.

Antes da divulgação dos aumentos, a Rosenberg cogitava a possibilidade de diminuir sua projeção para Selic no encerramento deste ano, já que o IPCA-15 de julho voltou a surpreender o mercado com um resultado menor que o previsto. Agora, a consultoria prefere manter a expectativa de juros em 8% no fim de 2017. “Também mantemos a previsão de corte de um ponto porcentual no encontro da semana que vem. O quadro para inflação ainda segue favorável”, explica.

O Comitê de Política Monetária do Banco Central decide os rumos da Selic nos dias 25 e 26 de julho. A taxa básica de juros está atualmente a 10,25% ao ano.

As primeiras estimativas apontam que a decisão do governo de elevar a alíquota de PIS/Cofins deve afetar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2017. Nos cálculos do economista-sênior do Haitong, Flávio Serrano, o impacto será de 0,50 ponto porcentual. Somente o aumento sobre a gasolina deve ter efeito altista direto de 0,43 ponto no IPCA de 2017. Já o impacto da alta do tributo sobre o diesel e sobre o etanol deve ser bem menor, de 0,01 ponto e de 0,06 ponto, respectivamente.

Serrano afirma que a magnitude de aumento surpreendeu o mercado. A alíquota do PIS/Cofins para a gasolina mais que dobrará, passando dos atuais R$ 0,3816 por litro para R$ 0,7925 por litro. O economista esperava aumento de R$ 0,30 por litro.

Em virtude dessa diferença entre a sua expectativa de aumento e a mudança efetiva, Serrano alterou sua projeção do IPCA para ano de 3,6% para 3,7%. Segundo ele, dado o impacto expressivo do reajuste, a alta do tributo deve forçar revisão para cima nas projeções do mercado para inflação. Nos índices mensais, o impacto da mudança deve ser mais sentido em agosto, embora o dado de julho também sofra alguma pressão para cima.

Recessão. Em julho, o IPCA-15 trouxe reduções de preços de Alimentação e bebidas (-0,55%), Transportes (-0,64%) e Artigos de residência (-0,55%). Everton Carneiro, da RC Consultores, lembrou que o freio nos preços dos produtos alimentícios tem ligação com a recessão econômica, mas, sobretudo, com a safra recorde de grãos prevista para este ano. Assim como houve ajuda relevante das lavouras em 2017, o movimento pode se inverter no futuro, caso as condições climáticas sejam adversas. “A queda na inflação é menos estrutural do que alguns do mercado consideram. É difícil acreditar que vá ficar comportada por muitos anos, porque a inflação é muito volátil no Brasil”, alertou o analista da RC Consultores.

“A queda na inflação é menos estrutural do que alguns do mercado consideram. É difícil acreditar que vá ficar comportada por muitos anos, porque a inflação é muito volátil no Brasil.”

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