Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 30/09/2019
Marcello Casal Jr/Agência Brasil - 30/09/2019

'Prévia' do PIB cresce 4,5% em 2021 após cair 4,05% em 2020

Se confirmado pelo IBGE, desempenho mostrará uma recuperação da economia após o tombo no ano anterior; para este ano, economistas e o BC preveem uma desaceleração, com o cenário de juros em alta

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2022 | 09h05
Atualizado 11 de fevereiro de 2022 | 15h27

Correções: 11/02/2022 | 15h27

BRASÍLIA - O Banco Central informou nesta sexta-feira, 11, que seu Índice de Atividade (IBC-Br) subiu 4,5% em 2021, após uma queda de 4,05% em 2020, ano do início da pandemia de covid-19. Para este ano, no entanto, o próprio BC e economistas do mercado financeiro preveem uma desaceleração em cenário de alta de juros, incertezas sobre as eleições e novas variantes da covid-19.

Conhecido como uma espécie de “prévia do BC para o Produto Interno Bruto (PIB)”, o IBC-Br serve como parâmetro para avaliar o ritmo da economia brasileira ao longo dos meses. De responsabilidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do ano passado será divulgado apenas em 4 de março. A projeção atual do BC para a atividade doméstica em 2021 é de crescimento de 4,4%. 

Os resultados do IBC-Br nem sempre mostraram proximidade com os dados oficiais do IBGE. O cálculo dos dois é um pouco diferente – o indicador do BC incorpora estimativas para a agropecuária, a indústria e o setor de serviços, além dos impostos, mas não considera o lado da demanda (incorporado no cálculo do PIB do IBGE).

A alta do IBC-Br em 2021 superou a projeção de 4,30% da pesquisa realizada pelo Projeções Broadcast, cujas estimativas iam de 4,20% a 4,70%. Se o dado oficial do PIB vier em linha com o IBC-Br mostrará uma recuperação da economia após o tombo de 4,06% em 2020 causado pelos efeitos da covid-19, a maior queda desde o início da série histórica do IBGE, em 1996.

Ano de altos e baixos

Em um ano de recuperação, após o baque provocado inicialmente pela pandemia, a atividade econômica em 2021 teve altos e baixos. Nos primeiros meses, a segunda onda de covid-19 prejudicou principalmente o setor de serviços, mas o agronegócio permitiu bons resultados, beneficiado pela alta das commodities (produtos básicos, como grãos) e do dólar.

Depois, o avanço da vacinação possibilitou a retomada dos serviços, mas, na segunda metade do ano, a atividade perdeu força com a escalada da inflação e os problemas de insumos na indústria.

Em dezembro, o IBC-Br teve a segunda alta consecutiva, de 0,33%, na série já livre de influências sazonais. Em novembro, o aumento havia sido de 0,51% (dado revisado nesta sexta). De novembro para dezembro, o índice de atividade calculado pelo BC passou de 139,27 pontos para 139,73 pontos na série dessazonalizada. Este é o maior nível desde fevereiro do ano passado (141,05 pontos).

O resultado veio abaixo da das estimativas do mercado financeiro, que em sua maioria era positiva em 0,60%, na pesquisa Projeções Broadcast, mas ficou dentro do intervalo das previsões, que iam de alta de 0,10% a avanço de 0,90%.

Na comparação entre os meses de dezembro de 2021 e de 2020, houve crescimento de 1,30% na série sem ajustes sazonais. Esta série registrou 141,46 pontos no último mês do ano, o melhor desempenho para o período desde 2014 (145,48 pontos).

O indicador de dezembro de 2021 ante o mesmo mês de 2020 também ficou dentro do intervalo projetado pelos analistas do mercado financeiro consultados pelo Projeções Broadcast, que esperavam de alta de 0,30% a aumento de 3,90% (mediana de alta de 1%).

2022

Para este ano, o BC projeta que o PIB deve ter crescimento de 1% para o PIB, com desaceleração da atividade por conta de "surpresas negativas" em dados recentemente divulgados e pelo aumento do chamado "risco fiscal", ou seja, de incertezas sobre gastos públicos em um ano eleitoral.

Segundo projeções do mercado financeiro, o crescimento deste ano será menor ainda. A expectativa dos analistas dos bancos, em pesquisa feita na semana passada com mais de 100 instituições financeiras, é de um crescimento de 0,30% para o PIB em 2022.

Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale,  os indicadores já disponíveis também sinalizam uma desaceleração da atividade já no início de 2022 e sustentam a estimativa de PIB estável (0,0%) este ano, com riscos para baixo.

"Existe uma chance de PIB negativo, porque o elemento que podia ajudar com mais intensidade, a agropecuária, começa a enfrentar um cenário complexo, com perspectivas piores para as safras de soja, arroz e feijão", diz Vale. "Podemos ter de novo surpresas negativas, porque esse era o elemento-chave para manter o PIB em terreno positivo."

O desempenho aquém do esperado do agro, combinado à disseminação da variante Ômicron, podem levar o PIB do primeiro trimestre a um terreno negativo, segundo o economista. Ao mesmo tempo, a alta de juros e os efeitos da inflação elevada sobre o poder de consumo devem limitar o desempenho de outros setores da atividade em 2022.

O economista-chefe do Santander Asset, Eduardo Jarra, ainda trabalha com a projeção de alta de 0,5% do PIB este ano, mas com risco de ser menor.  "Acho que a performance geral do IBC-Br, de um crescimento mais nulo, é uma história mais compatível com o que a gente vai ter em 2022", diz o economista. "O risco é assimétrico para baixo, principalmente por um viés para cima no aperto monetário, que pode levar a condições financeiras mais apertadas."

Entre os vetores negativos para 2022, Jarra cita o aumento da taxa Selic - estimada em 12,25% no fim do ciclo, em maio, mas com viés de alta -, aversão ao risco e grande incertez econômica ao longo do ano, inclusive devido às eleições. Por outro lado, a continuidade da recuperação dos serviços, a esperada normalização das cadeias de suprimentos no segundo semestre e as perspectivas ainda positivas para a agropecuária impedem um cenário pior. 

Na visão do economista-chefe  do Banco Alfa, Luis Otávio de Souza Leal,  a melhora na atividade apurada em novembro e dezembro de 2021, na comparação com o primeiro mês do quarto trimestre, outubro, não deve alterar os planos do BC para o aumento dos juros. “Em algum momento no final do ano passado, a sensação era de que já estávamos em recessão. Agora, a sensação é de estagnação.”/ COLABORARAM CÍCERO COTRIM E MARIANNA GUALTER

Correções
11/02/2022 | 15h27

A queda do IBC-Br em 2020 foi de 4,05%, e não 4,06%, como informado anteriormente.

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