Previsão de inflação para 2010 está na meta, afirma Meirelles

Para o presidente do BC, mesmo com computação dos estímulos, projeções do IPCA situam-se em 4,4%

Beatriz Abreu e Célia Froufe, da Agência Estado,

28 de setembro de 2009 | 15h02

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles afirmou em entrevista às jornalistas Beatriz Abreu e Célia Froufe, da Agência Estado, que a projeção de inflação para 2010 está na meta, mesmo com os estímulos fiscal e monetário adotados pelo governo para o enfrentamento da crise financeira. "Mesmo com a computação dos estímulos fiscais e monetários recentes, as projeções de inflação para 2010 situam-se em 4,4%", disse Meirelles.

 

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Na entrevista, o presidente do BC também fala da sua eventual filiação e candidatura. Ele afirma que conversou com cerca de 450 investidores nacionais e estrangeiros e não observou nenhuma preocupação com a sua filiação e que respondeu às indagações sobre o cenário após sua saída do BC. "Minha resposta é que os ganhos com a estabilidade são valores incorporados pela sociedade brasileira e não haverá espaço para mudanças significativas."

 

Veja a seguir, a íntegra da entrevista:

 

Agência Estado - O relatório de inflação, divulgado na sexta-feira, indica uma aceleração da inflação em 2010, que passaria de 3,9% para 4,4%. Quais são os fatores considerados pelo BC para essa nova projeção?

 

Meirelles - As projeções levam em conta um amplo conjunto de informações, que inclui todos os estímulos, monetários e fiscais injetados na economia nos últimos meses, além de hipóteses sobre preços administrados e evolução da taxa de câmbio, que são explicitadas em nosso Relatório de Inflação. Além disso, aprimoramos regularmente nossos modelos, de forma a melhorar a nossa capacidade de previsão. As mudanças mais recentes referem-se ao tratamento dos efeitos da política fiscal e da inflação ou deflação em moeda estrangeira. Em resumo, mesmo com a computação dos estímulos fiscais e monetários recentes, as projeções de inflação para 2010 situam-se em 4,4%.

 

AE - As taxas de juros e gastos não irão se alterar no próximo ano, ou seja, ficarão no patamar atual?

 

Meirelles - Nossas projeções são feitas com base em dois cenários. No de referência trabalhamos com taxas de câmbio e juros constantes nos patamares atuais. No cenário denominado de mercado utilizamos a mediana das expectativas dos analistas independentes sobre a trajetória da taxa de câmbio e da taxa de juros. As hipóteses de trabalho sobre a política fiscal pressupõem o cumprimento das metas para o superávit primário de 2,5% do PIB em 2009 e de 3,3% do PIB para 2010, com os ajustes anunciados pelo governo. O BC, como é sabido, não faz projeções sobre a evolução da taxa de juros.

 

AE - A questão da variação do dólar e as expectativas a respeito da firmeza do governo com o controle da inflação não são fatores de risco para 2010?

 

Meirelles - A trajetória cambial é sempre um dos fatores de incerteza, com riscos bilaterais. Por outro lado, não creio que a sociedade deva ter dúvidas quanto ao compromisso deste BC, apoiado pelo governo, com a estabilidade monetária. Duvidar do foco do BC nas metas para a inflação é uma postura de risco, que em geral dá resultados desfavoráveis.

 

AE - A mudança na metodologia para que as projeções de inflação se mantenham alinhadas com a expansão dos gastos é permanente?

 

Meirelles - Sim, é um aprimoramento do modelo que será mantido. Aliás, aprimorar os modelos econométricos faz parte da rotina das áreas técnicas dos bancos centrais de ponta, como o nosso.

 

AE - Se a regra é permanente, isso significa que os eventuais novos impulsos fiscais do governo serão captados nos próximos relatórios?

 

Meirelles - Sim, não haveria porque não fazê-lo.

 

AE - Como o Banco Central, que mira a inflação na meta, poderá reverter as expectativas do mercado e da sociedade de que os preços vão subir no próximo ano? Afinal, o mercado está, de forma consistente, trabalhando com uma alta nas taxas de juros futuras.

 

Meirelles - As expectativas de inflação estão alinhadas com a trajetória de metas. O modelo do BC leva em conta estas expectativas, mas nossas ações dependem das nossas próprias projeções de inflação, que foram apresentadas na semana passada.

 

AE - A sua eventual filiação e candidatura é fator de risco?

 

Meirelles - Conversei com cerca de 450 investidores nacionais e estrangeiros nos últimos 60 dias e não observei qualquer preocupação com eventual filiação ou não. Perguntas sobre como será o cenário depois de minha saída em janeiro de 2011 ou mesmo em abril de 2010 são normais. Minha resposta é que os ganhos com a estabilidade são valores incorporados pela sociedade brasileira e não haverá espaço para mudanças significativas. Além do mais, o compromisso do Banco Central com o sistema de metas e câmbio flutuante é inquestionável

 

AE - É chegado o momento de o senhor reafirmar que, aconteça o que acontecer, o BC vai continuar zelando pelo cumprimento da meta de inflação?

 

Meirelles - Como já falamos em várias ocasiões, quem duvida do compromisso do BC com as metas para a inflação o faz por sua própria conta e risco.

 

AE - É possível garantir, hoje, que o nível de gastos em 2010 será mantido nos patamares considerados no exercício feito pelo BC para traçar a nova estimativa para o comportamento da inflação?

 

Meirelles - As decisões de política fiscal não cabem ao BC e sim às autoridades fiscais, tanto em nível federal quanto estadual.

 

AE - Considerando-se que o relatório traçou uma elevação de 0,5 ponto na projeção de inflação, é correto pressupor que o mercado passe a trabalhar com a possibilidade de a inflação se deslocar do centro da meta? Há risco de descumprimento da meta em 2010?

 

Meirelles - Não. Nossa projeção se elevou pelas razões mencionadas, mas ainda é inferior ao valor central para a meta. Olhando hoje, há menos risco de descumprimento da meta do que há um ano. Posso lhes afiançar que o BC vai continuar trabalhando para que a inflação siga alinhada com a trajetória de metas.

 

AE - As medidas fiscais adotadas para que o País saísse da crise motivaram a revisão da meta de superávit deste ano. É consenso no mercado que em ano eleitoral governo nenhum faz economia. É possível descartar a hipótese de uma redução da meta de superávit fiscal de 3,3% do PIB em 2010?

 

Meirelles - Não vou tecer comentários nem fazer especulações sobre a trajetória da política fiscal.

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