Adek Berry/AFP
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Coluna

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Previsões econômicas oficiais para os países pobres mostram confiança exagerada

Excesso de otimismo do FMI e do Banco Mundial pode ter consequências graves

The Economist

10 de agosto de 2020 | 10h36

Confrontada com más notícias, a maioria das pessoas tende a pensar que a situação não é tão ruim. Nem mesmo os profissionais das previsões econômicas estão imunes à tentação da esperança. Em fevereiro, mais de 500 milhões de pessoas na China estavam enfrentando algum tipo de quarentena, e a covid-19 tinha chegado à Itália. 

Mas o Fundo Monetário Internacional (FMI) disse que sua previsão global para o crescimento do PIB este ano seria apenas 0,1 ponto porcentual abaixo do esperado anteriormente. Em abril, essa previsão tinha caído 6,2 pontos porcentuais, para -3%. Em junho foi enxugado outro 1,9 ponto porcentual. Uma semana mais tarde, uma pesquisa informal envolvendo cerca de 40 funcionários do FMI revelou que dois terços deles esperavam outra revisão para baixo em outubro.

Em geral, as previsões econômicas são feitas por gente otimista. Eles raramente preveem um declínio. A natureza humana, os incentivos e a pressão política são obstáculos para isso. Mas previsões otimistas por parte do FMI e do Banco Mundial podem ter consequências graves. Isso é especialmente verdadeiro no caso dos países pobres no momento, onde a covid-19 destrói economias, e governos, organizações internacionais e investidores usam as previsões para orientar suas decisões.

As projeções do FMI e do Banco Mundial podem exercer grande influência em alguns países. Podem afetar os planos de gastos e empréstimos do governo. Os investidores podem oferecer crédito mais barato para países com expectativa de crescimento rápido. E as previsões determinam se o fundo e o banco acreditam que a dívida de um país é sustentável, o que determina se este pode ou não receber um resgate.

O fundo tende a ser otimista. Sua previsão de crescimento para o ano seguinte nos países em desenvolvimento entre 1990 e 2016 ficaram, em média, 0,42 ponto porcentual acima do PIB real para o período. A maior parte do otimismo está no fato de nunca serem previstos declínios. Mesmo após o início de uma recessão, a previsão econômica parece demorar em aceitar as más notícias.

Erros desse tipo podem alterar drasticamente as dinâmicas de endividamento. Pense  num país com previsão de dívida pública equivalente a 50% do PIB em um período de 20 anos. Se o crescimento econômico for 0,5 ponto porcentual abaixo do previsto, e nenhum outro fator interferir, essa proporção de endividamento pode chegar a 90% do PIB.

Em estudo recente, Paul Beaudry, da Universidade da Colúmbia Britânica, e Tim Willems, do FMI, chegam a associar o excesso de otimismo a futuras crises fiscais. Eles descobriram que, se a previsão de crescimento anual médio for superestimada em 1 ponto porcentual durante três anos, como o FMI costuma fazer em aproximadamente 40% dos casos, o resultado é uma redução de 1 ponto porcentual no crescimento dali a três anos. Os governos e as empresas parecem celebrar as boas previsões endividando-se. Em seguida, começam os problemas.

É extremamente difícil prever o crescimento e, em especial, o declínio. A falta de incentivo para enxergar nuvens de tempestade no horizonte não ajudar os economias encarregados dessas previsões. Os analistas temem que o pessimismo acabe se materializando. Para a carreira de um economista, o estrago de contrariar a massa e prever uma recessão que não ocorre pode ser maior que o de estar entre os muitos que não percebem sua aproximação. E há a “reação dos governos”, diz Maurice Obstfeld, que foi economista-chefe do fundo de 2015 a 2018.

A pressão interna para melhorar as previsões e assim justificar um pacote de empréstimo também “são um problema claro”, diz Obstfeld. Um estudo de Giang Ho e Paolo Mauro envolvendo o fundo em 2014 revelou que as previsões eram especialmente otimistas quando os países estavam prestes a entrar em um de seus programas de crédito. O Gabinete Independente de Avaliação (IEO) do fundo reconhece que as previsões tendem a ser otimistas nos resgates de mais destaque, mas aponta que os números costumam ser corrigidos três meses mais tarde, na primeira revisão do programa (antes disso, o acordo já foi assinado, é claro).

Beaudry e Willems identificam que alguns economistas do fundo são mais otimistas que outros. Nos países pobres, economistas menos experientes tendem a errar mais. Por mais que a descoberta de jazidas de petróleo e minerais não incentive o crescimento imediatamente, as previsões do FMI apontam consistentemente nesse sentido, de acordo com pesquisa de 2017 realizada por James Cust, do Banco Mundial, e David Mihalyi, do Instituto de Governança de Recursos Naturais, um centro de estudos estratégicos.

A falta de consistência do fundo também é alvo de críticas. Desde o início da pandemia do coronavírus, a previsão de crescimento dos países ricos para 2020 já foi revisada para baixo 3 pontos porcentuais a mais do que a dos países em desenvolvimento. Em junho, Justin Sandefur, do Centro para o Desenvolvimento Global, e Arvind Subramanian, da Universidade Ashoka, apontaram que isso é estranho. 

As quarentenas e o distanciamento social são no mínimo tão severos nos países mais pobres quanto nos mais ricos. Mas as respostas fiscais foram muito mais fracas e, como o próprio fundo admitiu, as maiores ameaças são a saída de capitais e a pressão monetária. Para a especulação dos autores, o fundo foi mais otimista em relação aos países mais pobres dessa vez para evitar a necessidade de oferecer-lhes apoio. O FMI diz que o sucesso da China na contenção do vírus explica a razão de previsões mais otimistas para os países em desenvolvimento, negando veementemente a influência dos pacotes de crédito em suas previsões de crescimento.

O outro grande responsável pelas previsões econômicas nos países mais pobres é o Banco Mundial (empresas particulares também publicam previsões, entre elas a Economist Intelligence Unit, organização irmã da Economist). Ao longo dos dez anos mais recentes, as previsões produzidas pelo banco para África e Oriente Médio mais realistas que as do fundo, mas, na América Latina, a situação se inverte (embora a diferença seja pequena). No geral, uma comparação das previsões publicadas por ambas as instituições a cada janeiro por Prakash Loungani, do IEO, indica que o fundo ainda acerta mais que o banco ao prever declínios nos países pobres.

Talvez as pessoas tenham expectativas exageradas em relação às previsões, diz Obstfeld. Elas podem representar uma estimativa do resultado mais provável, mas a chance de serem muito precisas é pequena. “Elas são úteis, sem, dúvida", diz ele, mas “em geral, não são muito precisas”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

© 2020 The Economist Newspaper Limited. Direitos reservados. Publicado sob licença. O texto original em inglês está em www.economist.com

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