Previsões para o PIB do ano remetem à época do milagre

Mas economistas são unânimes em advertir que economia de hoje não tem estrutura para crescimento elevado

Fabio Graner, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

O forte crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre deste ano, que o indicador de atividade econômica do Banco Central (IBC-BR) mostrou que ficou próximo de 10%, traz à memória dos brasileiros o período do chamado milagre econômico, vivenciado pelo País no fim da década de 60 e início dos anos 70.

Mas os analistas econômicos consideram que o desempenho "milagroso" desse início do ano não vai perdurar, já que, além de ter sido influenciado pela base deprimida do primeiro trimestre de 2009, a economia brasileira não tem condições estruturais de manter um ritmo desses sem causar inflação e problemas nas contas externas.

O período do milagre econômico brasileiro teve início no ano de 1967 e durou até 1973, ajudou a sustentar a ditadura militar e foi interrompido pelo primeiro choque do petróleo. O crescimento médio do País nesse período ficou na casa de 11%, com pico de 13,97% no ano de 1973, embora também tenha havido aumento da concentração de renda.

Vale ressaltar que, após 1973, o Brasil teve taxas mais moderadas de crescimento, embora ainda elevadas em comparação com as últimas duas décadas, que duraram até 1980. Em 1976, por exemplo, o País cresceu 10,26%. A crise da dívida externa no início dos anos 80 pôs um fim nos níveis elevados de expansão da economia.

Segundo o professor de Economia da Universidade de São Paulo, Fabio Kanczuk, o milagre econômico brasileiro ocorreu em um contexto bem diferente do atual. Naquela época, o Brasil era um País muito pobre e o mundo estava tranquilo para financiar os pesados investimentos que começaram a ser realizados na área de infraestrutura. Segundo o professor, os investimentos em infraestrutura no milagre representavam de 7% a 8% do PIB, enquanto hoje ficam entre 2% e 3% do PIB.

Impostos. Outro aspecto salientado pelo economista é que naquela época a carga tributária do Brasil era bem mais baixa, oscilando na casa dos 20% do PIB. Enquanto atualmente gira próxima dos 35% do PIB. "No milagre, o governo tirava pouco do setor privado e devolvia muito em investimento em infraestrutura. Muito diferente do que ocorre agora, em que a carga tributária é elevada e ainda há pouca devolução para o setor privado."

O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Fernando de Holanda Barbosa Filho explicou também que um importante diferencial daquela época era que o governo tinha uma taxa de poupança bem maior do que agora. E por isso tinha uma capacidade bem maior de investir.

"Naquela época o governo era responsável pelo crescimento, pelo investimento. Com a crise da dívida, esgotou a poupança do governo e acabou o milagre", afirmou o professor. "A diferença básica daquela época para hoje é a capacidade de o governo investir", acrescentou Holanda.

Os dois economistas consideram que a transição para uma economia com taxas mais elevadas de crescimento de forma sustentável só ocorrerá se o governo conseguir conter e diminuir seus gastos correntes (como despesas com pessoal), aumentando sua taxa de poupança e ampliando seus investimentos. "Nosso potencial de crescimento nem de longe está em 10%. Está entre 4,5% 5% ao ano. Temos muitos gargalos. O impacto de um crescimento acelerado como o do primeiro trimestre é a aceleração da inflação", afirmou Fernando de Holanda.

Fabio Kanczuk, por sua vez, afirma que um milagre econômico hoje em dia seria um crescimento de 8% ao ano, porque a população brasileira cresce bem menos. Mas, mesmo para esse nível de crescimento, ele acredita que o governo tem de reduzir gastos e investir na melhora no nível educacional da população.

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